UMA CONVERSA SOBRE A PANDEMIA COM MULHERES LATINO-AMERICANAS

No início deste ano eu estava prestes a me mudar para São Paulo. Deixei emprego, pessoas, entreguei apartamento e vim passar duas semanas na casa dos meus pais. Já fazem 5 meses desde que estou aqui e meus próximos passos paralisaram no tempo. De repente percebi que o pouco controle que achava ter, era praticamente nulo.

Nesse período, me conectar com outras mulheres vem sendo abraço e respiro. Por isso, hoje trouxe um bate-papo pra, quem sabe, aliviar algo dentro de nós. Esta é uma conversa com 5 mulheres da América Latina, cada uma com seus sentimentos e vivências nesse tal de isolamento social.

– Quando foi que sua ficha caiu?

Eu demorei pra entender a dimensão que a pandemia teria no Brasil. Lembro que na volta do carnaval, em São Paulo, escutei no rádio sobre o primeiro caso por lá. Na minha cabeça logo iria passar ou, como a Catalina do Chile disse, talvez esperássemos isso. “Nunca pensei que estaria trabalhando em casa por meses. Além disso, naquela época morava com meus pais. Então, estava com muito medo de pegar o vírus e passar pra eles. No primeiro mês, eu vivia com medo e ansiedade. Também sempre há o medo constante de ser demitida do trabalho, como muitas empresas no Chile estão reduzindo pessoas.”.

Minha amiga mexicana, Estela Silva, só se deu conta do impacto que o COVID teria na sua vida semanas depois do confinamento. “Minha família e amigos passaram por diferentes estágios, como depressão, negação e desespero, mas em algum momento nos adaptamos à nova rotina e a calma chegou, porque sabemos que não somos as únicas pessoas que estão passando por isso”. No início, a calma também esteve com Gresly Romero, do Equador, mas logo o COVID tirou essa paz quando descobriu que havia um possível caso ao lado de onde trabalha.

Estela, México (fonte: WhatsApp Estela)

Enquanto Lisyaulén López sentiu medo e tristeza ao perceber que o vírus havia chegado em Cuba, o sentimento de Kruskaya Hidalgo do Equador era frustração. “No início, fiquei muito indignada de como foram entregues tantos recursos econômicos, políticos e comunicacionais para a pandemia e não para tantas outras crises humanitárias no mundo. Isso se deu também porque o COVID estava atingindo o norte global e a classe alta, por isso todos esses recursos estavam se destinando a isso, enquanto muitas outras crises humanitárias bem mais graves sempre foram invisibilizadas. Conforme avançava a pandemia, minha sensação foi de muita preocupação e frustração pelas pessoas mais afetadas, pois a nível mundial isso intensificou muito mais as brechas sociais que existem e as pessoas mais prejudicadas são imigrantes, pessoas precarizadas, racializadas em diferentes países e, sobretudo, as mulheres.”.

Arrisco dizer que esses sentimentos se misturaram na maioria de nós. Afinal, nos últimos meses estamos tentando equilibrar o emocional não apenas com o que está mudando no mundo fora de casa, mas também no mundo dentro da gente.

– Mudei meus planos – ou o mundo mudou por mim

Assim como eu, que continuo com minha mudança em caixas, Gresly precisou adiar sua partida para novas descobertas. Ela foi aceita em um mestrado na França e agora está na espera do incerto. Lis e Kruskaya cancelaram reencontros com pessoas especiais de outros países e hoje não fazem ideia de quando irão revê-las.

Projetos importantes na vida da Estela e de outras pessoas, também pausaram. “Sou voluntária em algumas ONGs da minha cidade, uma delas estava prestes a inaugurar um abrigo de animais e tínhamos um grande evento organizado, mas tudo teve que ser cancelado. Também trabalho em um orfanato e por conta do vírus não posso visitar as crianças… é muito frustrante.”.

Kruskaya, Equador (fonte: WhatsApp)

Outros planos precisaram continuar, mesmo não saindo bem como planejado. Cata já havia comprado um apartamento e saiu da casa dos pais no meio do caos. “Parte desse grande sonho de comprar meu próprio lugar, era torná-lo meu com móveis e todas as coisas bonitas que se deseja pra um novo lar. Mas com a economia tão instável e vivendo o medo de ser demitida do trabalho, tive que colocar todos esses planos e desejos em espera”. É, de repente nossa vida colocou muito em espera, enquanto lá fora o mundo não parou de mudar.

– Por aqui anda um caos, e aí?

Infelizmente não foi só no Brasil que o governo diminuiu a gravidade da pandemia. Estela me contou que o México passou por algo bem parecido. “Temos um presidente totalmente inconsciente que no início da pandemia nos disse que nada estava acontecendo e poderíamos continuar com nossas vidas normais. Agora ele tenta esconder os casos, o que é muito frustrante, pois não sabemos o que realmente está acontecendo e não acreditamos nos números que nos dão.”.

No Equador não foi diferente. Segundo a Gresly, o governo tratou o COVID com ceticismo, “até figuras políticas se contaminarem e algumas morrerem. Quando viram que era verdade, uma loucura começou, muitas pessoas morrendo e os mortos sendo deixados no chão das ruas. Foi realmente horrível.”. Segundo Kruskaya, que também mora lá, ficou claro desde o início que o mais importante era o capital, “colocar no centro a ganância de grandes elites do país e dos grandes empresários, e o estado não somente demorou pra tomar as medidas necessárias, assim como as tomou interseccionalmente” .

O Chile começou bem, mas em algum momento o país se perdeu. “Começamos sendo um exemplo para o resto da América Latina e agora somos comparados à Espanha, como na quantidade de casos que temos. Eu sinto que no momento o governo está sentindo que isso está fora do controle deles e a doença está se espalhando muito mais rápido do que previram.” conta Cata.

Conversando com elas, percebi que um desafio em comum para muitos países latino-americanos é o grande número de pessoas que possuem trabalho informal e o governo não oferece infraestrutura para ficarem em casa. Kruskaya contou que as medidas adotadas no Equador demonstraram que estavam governando apenas para pessoas privilegiadas, que podem ficar tranquilas em seus lares, enquanto “mais de 50% das pessoas não tem essas condições, pois não são assalariados e dependem do trabalho diário. Se não saem um dia para trabalhar, não têm o que comer. É muito claro como o governo decide que pessoas merecem ser salvas e que corpos são descartáveis, sendo tratados apenas como corpos e não vidas.”.

Mas nossos desafios em comum vão além. Não importa o país, o isolamento social agravou ainda mais a violência de gênero. Assim como no Brasil, no Equador e Chile os números de ligações de mulheres denunciando violência doméstica cresceram exponencialmente. No México, a história se repete. Estela disse que alguns estudos indicam que os casos aumentarão em até 92% por lá. Tudo isso reafirma essa fala importantíssima da Kruskaya, “as feministas vem dizendo há muito tempo, as casas não são lugares seguros para nós mulheres. Na realidade, são os lugares onde mais nos violentam de milhões de formas. Com a quarentena, que você precisa passar 24h por dia e 7 dias por semana com seu agressor, todos os perigos se agravam ainda mais”.

Na contramão desses países, Cuba soou como um “ufa” nessa conversa. Além de manterem o salário para mulheres que são mães poderem ficar em casa, Lis compartilhou que desde o início foram tomadas as medidas necessárias para controle do COVID-19. Segundo ela, mesmo surgindo muitos casos no início, “foi possível oferecer tratamento a cada um dos infectados. Atualmente, poucos casos estão aparecendo e milhares de pessoas estão recuperadas e saudáveis. Tudo isso foi possível graças ao sistema de saúde que reina em Cuba, de forma gratuita e com excelente qualidade.”.

Lis na sua primeira saída depois da quarentena em Cuba (fonte: WhatsApp)

– Inspira, expira… como não pira?

Falando de um lugar de privilégio, como o meu e dessas mulheres que podem ficar em casa, não importa o país ou planos que saíram do eixo, nossos sentimentos nesse processo têm muito em comum. Talvez por isso, cada uma precisou encontrar sua receita no meio do caos pra não pirar.

A Gresly, por exemplo, reencontrou a calma com o yoga e se dedicando a algo que levasse propósito pra ela. “Eu me refugiei no yoga, para manter o equilíbrio mental e tem sido fantástico. Aprender outro idioma me deu a oportunidade de focar e estabelecer metas para minha futura viagem e estudo na França. Também participei do projeto de manuais educacionais para crianças do meu país de origem, a Venezuela, que ainda não têm acesso à educação no momento da pandemia.”.

Gresly, Equador (fonte: WhatsApp)

Para Lis, o apoio mútuo de amigos e familiares tem sido fonte de força diante das incertezas. Estela também recorre a essas pessoas, assim como a seus vizinhos, “algo bom que essa situação nos deixou, foi mostrar a generosidade em muitas pessoas, por isso esteja ciente de que não estamos sozinhas e pedir ajuda quando precisamos pode nos fazer muito bem… estou ajudando meus vizinhos que têm filhos pequenos uma hora por dia, com suas tarefas de casa.”

O virtual vem ajudando Kruskaya, especialmente pela conexão com mulheres. “Com a pandemia e o isolamento, além de todos os problemas sociais, é evidente que todas nós nos carregamos energeticamente e mentalmente, e uma das coisas que nos sustenta é esse sentido de comunidade no meio virtual. Poder conversar com outras mulheres, fazer reuniões virtuais, círculos de mulheres, isso me mantém com energia.”.

Cata, Chile (fonte: WhatsApp)

Eu voltei a escrever em um diário e sentir a mão doer no papel depois de meses. Virou meu segredo pra encontrar a calma e da Cata também. “Estou meditando todos os dias e comecei um diário, tenho um há anos e agora realmente senti vontade de começar a escrever novamente ou simplesmente colocar qualquer pensamento no papel.”. Além da escrita e de aproveitar esse momento sozinha pra colocar amor no seu novo lar e fase de transição, Cata me disse que observar o cachorro dela trouxe “a sensação de estar acompanhada por alguém que vive o presente e não teme o futuro.”.

Quem sabe esse não é o escape em comum que todas encontramos? Seja no yoga, escrevendo, se conectando com pessoas de verdade ou ajudando, nosso segredo tem sido – tentar – estar presente. Afinal, o que temos por hoje, é hoje.

Barbara Amorim
Barbara Amorim

Sou das palavras. Uma metida a escritora que traduz o que vive em crônicas, contos, prosas e poesias. Apaixonada por pesquisar, ouvir e (re)contar histórias. Feminista, produtora de conteúdo, social media, redatora, fundadora do be Brechó e administradora por formação. Também já me arrisquei como fotógrafa e até pintando mandalas. Sou uma mistura de muitas de mim e quem sabe ser libriana com ascendente em gêmeos explique isso muito bem.