TEM SAPATÃO NA CIDADE

(e bissexuais. e mulher trans, cis, lésbica; e zami; não bináries; generes neutres. Homem trans, cis gay; e+)

Hoje é dia 19 de agosto. Fico pensando na diferença que poderia ter feito para àquela pessoa de 12 anos, quando veio do interior paulista para visitar a capital pela primeira vez, se ela tivesse visto algum tipo de marcador de memória na altura do número 110 da rua Martinhos Prado dizendo algo mais ou menos assim:

“Aqui foi um ponto de encontro e de articulações lésbico-feministas onde, em 19 de agosto de 1983, aconteceu o Levante ao Ferro’s Bar- ato político de reivindicação dos direitos das lésbicas. Esse dia passou a celebrar o dia da visibilidade lésbica.”

Talvez tivesse contribuído para poupar alguns anos de opressão e homofobia internalizada se eu pudesse existir na cidade, se eu encontrasse marcações de memória na cidade com as quais eu tivesse algum tipo de identificação ou que, pelo menos, me indicassem a existência de possibilidades para além do binarismo cis mulher x homem e de seus relacionamentos heteronormativos. Talvez poderia ter mostrado a mães, pais, avós e parentes que: sim, tem sapatão na família! E que que orgulho!

No dia 23 de Julho de 1983, integrantes do GALF (grupo lésbico-feminista que existiu entre 1981 e 1990) foram expulsas do Ferro’s Bar por estarem vendendo o boletim Chanacomchana – um periódico realizado por elas para a conscientização da comunidade LGBT, mais especificamente para lésbicas -, que circulou entre os anos 1981 e 87. O Ferro’s bar, desde a década de 60 funcionava como uma pizzaria de dia e, durante a noite, como ponto de socialização das lésbicas. O local foi, até a década 90 – quando fechou -, um importante ponto de encontro e de articulação desses grupos, frequentado por importantes ativistas e por personalidades como Cassandra Rios [1], conhecida como uma das pioneiras da literatura homo-bi-erótica no Brasil.

No entanto, apesar de o local ser frequentado há anos pelas lésbicas, elas sofreram nesse dia tamanha opressão homofóbica pelos próprios donos do bar. Reagindo à censura, o GALF articulou o Levante. O happening político que aconteceu no dia 19 de agosto contou com a presença de diversos grupos homossexuais, feministas e agentes filiados a partidos políticos (como Eduardo Suplicy – PT e Ruth Escobar – PMDB) para re-ocupar o local. O ato alcançou seus objetivos e se tornou um marco histórico para essa população, chegando a ser reconhecido como “nosso pequeno Stonewall”, em denominação atribuída pelo Lampião da Esquina [2].

A iniciativa do levante foi de Miriam Martinho e Rosely Roth. Miriam é formada em letras pela USP e até hoje, a frente da plataforma Um Outro Olhar, é envolvida com as causas lésbico-feministas. Já Rosely, formada em filosofia e antropologia pela PUC, chegou a estar presente na grande mídia – o que era muito pouco comum para o autoritarismo da época. Ela participou do programa da Hebe Camargo no dia 24 de maio de 1984. Contudo, o evento não se deu sem traumas e Roth escreveu sobre a experiência em seu texto Lésbica X censura relatando o desgaste em debater e defender sua autodeclaração como mulher-lésbica-feminina frente às ofensas feitas por uma das participantes do programa que estava lá para prestar um depoimento (no caso bastante homofóbico) sobre ser mãe de uma jovem lésbica de 25 anos. Além delas, estavam presentes Marília Gabriela (anunciando um novo programa), Loyola Brandão (na ocasião lançando um livro) e o psiquiatra Ronaldo Pamplona que, inclusive, apresentou em primeira mão um documento onde o Conselho Federal de Medicina propôs que a homossexualidade não seja considerada doença mental e que as pessoas que procuram um psiquiatra em função de homossexualidade fiquem na categoria de discriminação social. E então ele complementa: Depois de 21 anos de ditadura eu acho triste que um pai e uma mãe tenham que virar policiais em cima dos seus filhos. Eu proponho que as pessoas respeitem mais o seu filho e reconheçam que todos os seres humanos tem direito de ser, sentir e pensar aquilo que está dentro de si.

“É preciso romper com o silêncio histórico contra lésbicas, bissexuais, transvestigêneres, sensibilidades não binárias, intersexos, assexuais e todas as intersecções quanto às questões de sexo, gênero, de racismo e de classe que se dão no tecido social.”

No entanto, apesar da vitória [3] do ato no dia 19 de agosto , Rosely não suportou a opressão social por meio da qual a população LGBTQIA+ tem seu discurso invisibilizado e desqualificado. No dia 21 de agosto de 1990, poucos dias antes de seu aniversario de 32 anos, Rosely Roth cometeu suicídio. Por esse e muitos outros motivos, é preciso romper com o silêncio histórico contra lésbicas, bissexuais, transvestigêneres, sensibilidades não binárias, intersexos, assexuais e todas as intersecções quanto às questões de sexo, gênero, de racismo e de classe que se dão no tecido social. Como diz o texto assinado por Vanda na edição 4 do Chanacomchana[4], relatando o ato do dia 19, as lésbicas não são o único grupo social a sofrer tal opressão. É preciso, assim, considerar e unir forças com diversos grupos minoritários (minoria que, veja bem, não se refere à quantidade de número mas sim por tudo que às separa de uma ficção axioma redundante) como de pessoas negras e indígenas que, diz Vania, já conformavam a nação muito antes da invasão do homem branco colonizador.

E por que ainda são esses que em sua maioria nomeiam ruas, avenidas e marcam lugares de memória com monumentos? É sabido que as cidades são historicamente produzidas como um ser social, um conjunto complexo de fenômenos diversos e articulações não estáveis muito menos universais. Por isso, é preciso considerarmos tais interações espaço-históricas como demonstra o trabalho realizado pelo Outros Urbanismos, laboratório de pesquisa da FAU-USP que realizou um levantamento de lugares vinculados ao conhecimento das comunidades LGBTs que ocupam a cidade; ou como a publicação Cidades Queer, editada pela Publication Studies em iniciativa da Lanchonete.org reunindo produções que olham para a cidade a partir de uma perspectiva não heteronormativa.

É preciso levar em conta, como diz Patrícia Lessa, as configurações discursivas e considerar materiais que expõe autorepresentações, como é o caso de Chanacomchana. Sendo assim, compartilhei um pouco sobre essa data e local para comemorar a data 19 de agosto como ponto de partida e não como cristalização de uma sensibilidade única. O desejo é olhar para o amplo espectro, pois é urgente romper com a história hetero-cis centrada que constitui NOSSAS cidades; é urgente trabalhar enquadramentos e re-enquadramentos questionando quem tem o direito de existir na cidade e, no limite, quais são as vidas passíveis de luto publico[5] ; é urgente o nosso corpo, o nosso grito: TEM SAPATÃO NA CIDADE! Tem lésbica que se entende como mulher e lésbica que não se entende como mulher/ Têm Buches! Lésbicas femme; Tem Zami ;Têm não bináries; Bissexuais; agêneres; Homens Trans, cis gays! Boycetas; Mulheres Trans; Travestis; E+, e que orgulho!

Como costuma dizer Jeanne Marie Gagnebin[6] , é preciso contribuir para uma elaboração coletiva do passado, uma política de rememoração na qual a violência precisa ser encarada. Já se passam 30 anos e sinto muito pela morte de Rosely, ainda. Sinto muito por Luana Barbosa que foi espancada no dia 8 de abril de 2016 por três PMs, levando-a a morte depois de cinco dias em decorrência de um traumatismo craniano encefálico. Sinto muito por Marielle Franco, então vereadora do RJ pelo PSOL e militante das causas LGBTQIA_ + e de direitos humanos de uma maneira geral, assassinada com 38 anos no dia 14 de março de 2018, vítima de um crime político (pouco esclarecido até hoje, mas com evidências bastante conhecidas).

Finalizo, então, com um convite por meio das palavras de Rosely Roth há 35 anos:

Já não estará na hora de não mais deixarmos ninguém decidir por nós mesmas e procurarmos viver […] com independência, autonomia e coragem?

E acrescento as perguntas: quais são os lugares de memória para vocês?

Quais lugares xs representam na cidade? Quais acontecimentos vocês gostariam de que fossem lembrados?

Onde vocês estão?

[1] O bar aparece nas narrativas de “Anastácia” (1977).

[2] O Lampião da Esquina foi um jornal homossexual brasileiro que circulou durante os anos de 1978 e 1981.

[3] O evento foi bem-sucedido pois o boletim Chanacomchana voltou a ser vendido no local e a data passou a ser comemorada como dia da visibilidade lésbica. O 29 de agosto também comemora o dia da visibilidade por conta da ocorrência do primeiro Seminário Nacional das Lésbicas (Senale) que aconteceu em 1996 na cidade do Rio de Janeiro. (Atualmente o nome foi alterado para Senalesbi, para garantir a visibilidade das mulheres bissexuais).

[4] Destaca-se também nessa edição a divulgação do grupo Adé-Dudu (coletivo de homossexuais negros da Bahia) quanto de um texto realizado pelo grupo Outra Coisa falando sobre a AIDS.

[5]  BUTLER, Judith. Quadros de guerra – quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

[6]  GAGNEBIN, Jeanne Marie. Limiar, aura e rememoração: ensaios sobre Walter Benjamin. São Paulo: Editora 34, 2014

Leticia Becker Savastano
Leticia Becker Savastano

Arquiteta e Urbanista de formação, está realizando um mestrado na FAU-USP pensando relações entre arte contemporânea e imaginários urbanos. Escreve sobre artes visuais, cidade e arquitetura e, atualmente, está se especializando em estudos da linguagem na área de revisão de textos.