ROCK TAMBÉM É LUGAR DE MULHER, BEBÊ

O rock n’ roll é um gênero musical adorado por muitos e levado muito a sério por algumas pessoas também, afinal, o rock é um estilo de vida, é uma maneira de se expressar para a sociedade. Por aqui também levamos muito a sério o estilo, tanto que, criamos o Dia Mundial do Rock, que, apesar de ter “mundial” no nome só é comemorado em terras brasileiras. 

O nosso rock revelou grandes nomes da música ao longo de décadas, pessoas que foram importantes para diversos momentos da nossa história e para a formação da nossa identidade também. Entre essas personalidades, muitas mulheres tiveram papéis importantes para a consolidação do gênero. Elas tomaram à frente e assumiram posições de liderança dentro e fora da música.

Para lembrar e enaltecer as divas do rock nacional, segue o fio sobre as nossas ovelhas negras que fizeram história e inspiram muita gente. Afinal, lugar de mulher é onde ela quiser, até no rock n’ roll.

Rita Lee

Não poderíamos começar essa lista com ninguém mais, ninguém menos que ela, que é considerada a Rainha do Rock Brasileiro. Rita Lee Jones, nasceu em São Paulo, na Vila Mariana, onde passou a maior parte de sua vida, em 31 de dezembro de 1947. Filha de um dentista imigrante norte-americano, e uma pianista, Rita começou a se interessar por música ainda pequena, quando tinha aulas de piano e, já na adolescência começou a compor suas próprias canções.

Nessa época, Rita Lee e alguns amigos formam a banda Túlio’s Trio, que se apresentavam em bares de São Paulo. Depois em 1963, a cantora forma um conjunto musical com outras duas amigas, o Teenage Singers. No ano seguinte, o grupo conhece um conjunto formado apenas por rapazes, o Wooden Faces. Eles se juntam e, após a desistência de alguns integrantes, é formada a tão famosa banda “Os Mutantes”, com Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias.

Apesar do grande sucesso com a banda, Rita se firmou no mundo musical, de fato, depois de sua saída (ou expulsão) d’Os Mutantes. O segundo disco lançado com a nova banda Tutti Fruti, chamado Fruto Proibido chegou a ser considerado um manual do rock nacional depois de emplacar os sucessos “Agora só falta você” e “Ovelha Negra”.

Aí, “o resto é história”, como dizem. Rita Lee participou de diversos festivais, se juntou à Gilberto Gil em apresentações no início de sua carreira, e daí em diante lançou várias músicas que são sucesso até hoje. 

Nossa Santa Rita de Sampa sempre foi uma mulher que defendeu a independência e o empoderamento feminino. É militante da causa animal e um exemplo para muitas mulheres. Durante a ditadura chegou a ser presa e é uma defensora das quebras de padrões e caretices da nossa sociedade. Vida longa à Rita Lee! 

Curiosidade: por ter nascido na véspera de ano novo, Rita escolheu o dia 22 de maio (dia de Santa Rita de Cássia) para comemorar seu aniversário e festejar com amigos. 

Cássia Eller

Definitivamente, Cássia foi uma artista que nos deixou cedo demais. Sua originalidade e irreverência fazem muita falta nos dias de hoje, em que, constantemente, precisamos defender a liberdade de pensamento e ir contra ideias retrógradas e limitantes culturalmente.

Cássia Rejane Eller nasceu no Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 1962. Filha de pai militar, morou em diferentes lugares durante a sua infância, como Minas Gerais, Pará e Brasília. Começou a se interessar por música aos 14 anos, quando foi presenteada com um violão e, ao longo de sua infância e adolescência participou de corais nas cidades onde morou. Cássia dizia que aprendeu tudo sobre música com sua mãe, que era cantora antes de se casar com seu pai e com quem chegou a gravar uma canção para um de seus discos.

Uma dos momentos mais icônicos da cantora, com certeza, foi sua apresentação no Rock in Rio III, em 2001. O show contou com a performance de vários sucessos da música nacional e internacional, e teve ainda a participação do filho Chicão para a interpretação de Smells Like Teen Spirit, que mais tarde foi elogiada por Dave Grohl, antigo baterista da banda Nirvana.

Cássia lançou 5 discos em vida, sendo um deles o Acústico MTV, o maior sucesso de vendas da cantora. As gravações do especial contaram com a participação de grandes nomes da música brasileira, e teve direção de Nando Reis, seu melhor amigo.

Em 29 de dezembro de 2001, no auge de sua carreira, Cássia Eller nos deixa, depois de sofrer quatro paradas cardíacas decorrentes de problemas pré existentes, e estresse por acúmulo de trabalho. Cássia era bissexual assumida e viveu com a companheira, Maria Eugênia, até o fim de sua vida.

Pitty

Cantora, compositora, produtora, escritora, empresária, apresentadora e multi-instrumentista, essa baiana rockeira mostrou a que veio desde seu primeiro álbum comercial em 2002. Priscilla Novaes Leone, nasceu em Salvador em 7 de outubro de 1977.

Pitty começou a se envolver com música ainda na adolescência, quando acompanhava seu pai, que era músico, em apresentações em bares na cidade de Porto Seguro, onde também morou nessa época de sua vida. Um pouco mais velha, passou a integrar então bandas de rock e punk rock da cena underground baiana. 

No ano de 2002 é lançado o primeiro disco solo da cantora, que desde 1996, já trabalhava no meio musical como instrumentista e compositora. Pitty, por diversas vezes, mencionou em entrevistas a importância da música para sua vida e seus posicionamentos. Uma pessoa ativa politicamente, é também, talvez, a personalidade mais ativa na defesa dos direitos das mulheres da nossa lista hoje em dia, sempre defendendo a liberdade e igualdade de direitos para meninas e mulheres.  

Baby do Brasil

Baby do Brasil é conhecida por todos nós por ter integrado a icônica e importante banda Novos Baianos, mas ao contrário do que muitos podem pensar, Baby não nasceu na Bahia. Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, nasceu em Niterói, em 18 de julho de 1952. 

Filha de uma família de classe média alta, Baby começou a se interessar por música também durante a infância e adolescência, e aprendeu a tocar violão graças a ajuda de alguns familiares, já que seus pais eram contra as escolhas artísticas da cantora e instrumentista. Aos 14 anos Baby vence um concurso de música de Niterói e aos 17, buscando por sua liberdade para trilhar o caminho do estrelato, foge da casa dos pais e se muda para Salvador, lugar onde a cena do rock estava em grande ascensão. 

Já na Bahia, Baby passou por dificuldades financeiras e começou a se apresentar em bares. É nessa época que conhece os grandes Moraes Moreira, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor e, juntos, formam a tão aclamada Novos Baianos, banda que a lança musicalmente para todo o Brasil e onde adota o nome artístico de Baby Consuelo. 

Na década de 1990, Baby muda seu nome de Consuelo para Baby, mas até hoje é conhecida pelos dois. No entanto, independente da alcunha escolhida, Baby representa o poder das mulheres que buscam pela realização de seus sonhos e desejos. Em uma época em que poucas mulheres conseguiam alcançar independência, Bernadete mostrou que era possível, não apenas alcançar o sucesso e o reconhecimento por seu trabalho, mas também novas formas de organização de sociedades. 

Atualmente, Baby do Brasil segue firme com sua carreira como cantora e pastora evangélica, religião para a qual se converteu na década de 1990. Quem já teve a oportunidade de vê-la se apresentando ao vivo, pode testemunhar sua energia e irreverência nos palcos. É, com certeza, uma grande experiência.

Celly Campello

Por último, mas com certeza, não menos importante, temos Celly Campello, a precursora do rock nacional e uma peça fundamental na disseminação do ritmo no país. Célia Benelli Campello, nasceu em São Paulo em 18 de junho de 1942, mas cresceu na cidade de Taubaté e faleceu na cidade de Campinas, em 2003.

Celly começou sua carreira artística ainda criança, bem novinha. Aos cinco anos fez sua primeira apresentação com a canção Tico-tico no Fubá, e aos 12 já apresentava seu próprio programa de rádio. A primeira rockeira do Brasil, além de cantora, era também atriz, compositora e multi-instrumentista. 

Apesar de estar no meio artístico desde muito cedo, sua carreira despontou mesmo após a gravação da famosíssima Estúpido Cupido, em 1959. Depois disso, grandes sucessos foram interpretados pela voz de Celly, como Banho de Lua, Broto Legal e Biquini de Bolinha. Foi graças também à ela que o estilo de dança twist se popularizou em terras tupiniquins.   

Para a tristeza de muitas pessoas na época, Celly, infelizmente abandona a carreira artística aos 20 anos de idade, quando estava em seu auge, após se casar com seu namorado de longa data, e se mudar para Campinas, no interior de São Paulo. A cantora passou toda a sua vida na cidade e veio a falecer em 2003, vítima de uma câncer de mama. 

Dicas literárias e audiovisuais:

Rita Lee – uma autobiografia (2016)

Documentário Cássia Eller (Paulo Henrique Fontenelle, 2015)

Tainah Fernandes
Tainah Fernandes

Jornalista e pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura, trabalha com produção de conteúdo e de vez em quando ataca de produtora audiovisual. Já trabalhou com assessoria de comunicação e em organização de defesa dos direitos das mulheres. É também uma ariana com ascendente em gêmeos e vênus em touro. Facinho de ser conquistada com comida, bons drinks e qualquer conversa, seja sobre questões existenciais, memes ou últimos lançamentos do cinema.