OS ENSINAMENTOS SOPRAM COMO O VENTO

Eu sou uma leitora tardia. Meu incentivo e interesse à leitura veio mais tarde do que para muitas pessoas, mas acredito que isso tenha me feito uma boa observadora. Incorporava cada parágrafo em mim e isso fez com que eu me aproximasse de autores distantes e me identificasse nos mais variados contextos. O processo que tive e o contato me fizeram acreditar em outros mundos e outras possibilidades. Agora que me arrisco mais na escrita, aplico o conteúdo absorvido na espera de que isso inspire outras leitoras tardias por aí.

O receio que me repeliu à leitura, às vezes me bloqueia para escrever: o universo literário brasileiro ser branco, cisgênero e masculino; dado apontado na pesquisa da professora Regina Dalcastagnè. Do contrário que aprendemos nas aulas de artes, branco não simboliza a junção de todas as cores em nossa sociedade. Apenas representa uma estrutura que se empenha para que esta seja a única em todos os espaços.

Ainda assim, há muito conteúdo produzido por mulheres com a cor oposta a das páginas de livros, que rasgam silêncios há muito tempo; que produzem novas narrativas para incentivar e inspirar meninas iguais a elas. Se a educação é constantemente cerceada para a negritude brasileira, a escrita e a fala se tornam atos políticos, e é mais uma forma de expressar nossa potência, sem esquecer da oralidade que nos compõe. Essa conversão da fala para a escrita é mais um processo de formação e afirmação de nós mesmos e do nosso lugar.

E, neste grande processo de construção constante de mim, tive de romper com muitos silêncios. Aprendi que uma das melhores coisas que podemos fazer por nós e, entre nós, é compartilhar, para que, assim, possamos puxar a outra na subida. Assim, trago trechos de dois ensaios produzidos pela autora Audre Lorde (1934 – 1992), que também podem inspirar leitoras tardias que se encontram no fundo da biblioteca na procura incessante por elas mesmas. Como Lorde diz, “é necessário compartilhar e espalhar também as palavras que nos são significativas”, em especial as que nós produzimos.

Audre Lorde foi uma poetisa, negra, mãe e lésbica. Americana, descendentes de caribenhos, sua escrita me ajudou a arrebentar uma das mais grossas das correntes que já estiveram em mim, diluindo na mais alta temperatura meu sentimento de incapacidade e minha mudez.

No ensaio “My words will be there“, do livro “I Am your sister” (Minhas palavras estarão lá, do livro “Eu sou sua irmã”), Lorde coloca, inicialmente, que por não se identificar em poemas já existentes, foi instigada a escrever ainda na infância.

 “Eu escrevo para mim mesma. Eu escrevo para mim mesma e minhas crianças e para quantas pessoas mais puderem me ler. Quando eu digo mim mesma, eu quero dizer não só a Audre que habita meu corpo, mas para todas aquelas mal-humoradas, incorrigíveis lindas mulheres negras que insistem em se erguer e dizer ‘eu sou’ e você não pode me apagar, não importa o quão irritante eu seja.” My words will be there – Audre Lorde

Eu descobri que nada mais reverbera do que o som do silêncio rompido e nada ensurdece mais do que a fala de uma mulher negra. Mesmo adquirindo hábitos e tendo oportunidades mais tarde do que os outros, falamos e ainda temos muito a dizer.

No ensaio, “A transformação do silêncio em linguagem e em ação”, Audre conta sobre seus tumores cancerígenos dos quais tratou e como este processo a fez refletir ainda mais sobre a fala e ações necessárias para a diluição de nossos silêncios, consequentemente, uma mudança em nós e nos outros.

“Quais são as palavras que você ainda não tem? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você engole dia após dia e tenta tomar para si, até adoecer e morrer por causa delas, ainda em silêncio? Para algumas de vocês que estão aqui hoje, talvez eu seja a expressão de um dos seus medos. Porque sou mulher, sou negra, sou lésbica, porque sou quem eu sou – uma poeta negra guerreira fazendo o meu trabalho –, então pergunto: vocês têm feito o trabalho de vocês?”

Ensaios com um olhar tão sensível e ao mesmo tempo muito duro de como este processo interno, individual e específico significou para ela se afirmar. A figura de Audre me traz a multiplicidade: mulher, negra e lésbica, que sofre com diversas opressões e adoecimento, uma caminhada bela e com obstáculos. Mas o importante é deixar o caminho acessível para quem vem depois. Ela faleceu em 1992, um ano antes de eu nascer e sei que fui abraçada por sua coragem documentada em suas publicações. Elas são pra mim e pra você também. Eu saí do fundo da biblioteca para também poder colorir as brancas páginas de histórias e da História, seguindo seus passos, porque tenho certeza que as respostas para futuro estão na ancestralidade.

A sabedoria ancestral está presente nos ventos de mudanças e trazem novos ares, novos tempos, novas histórias, novos saberes. Acompanho e aplaudo todos os dias mulheres rompendo seus silêncios e fico feliz por estarmos no mesmo caminho que Audre, e tantas outras, abriram para nós. Estes são ventos que têm a sensação de frescor, mas não se engane: é um vendaval da força de Iansã, repleto de denúncias e questionamentos, que espalha nossas vozes e escritas por aqui. E pelo mundo.

          “(…) enquanto esperarmos em silêncio pelo luxo supremo do destemor, o peso desse silêncio nos sufocará. O fato de estarmos aqui e de eu falar essas palavras é uma tentativa de quebrar o silêncio e de atenuar algumas das diferenças entre nós, pois não são elas que nos imobilizam, mas sim o silêncio. E há muitos silêncios a serem quebrados”.

Audre Lorde

Ensaios na íntegra:

Eu estarei lá.

A transformação do silêncio em linguagem e em ação.

Andressa Lima
Andressa Lima

Jornalista, umbandista, ativista, mulher preta e aprendiz de escritora.