ORGULHO LGBTQIA_+ E A QUEERENTENA (MDS): o que pode um corpo queer em isolamento?

Ter lugar e tê-lo reconhecido; existir; resistir ao constrangimento, à violência e à falta de respaldo; não se envergonhar de si. Essas são algumas das tantas motivações do mês de junho, quando celebramos o orgulho LGBTQIA_+. A data é marcada pela revolta Stonewall, que aconteceu no ano de 1969 NY- EUA e  impulsionou diversos protestos – inclusive na organização da primeira parada do orgulho LGBT no 1o de Julho de 1970.

Considerada uma das maiores do mundo, no Brasil a celebre parada acontece desde a década de 90 em meados do mês de  junho (no feriado corpus christi) e é um dia muito especial para nós, pessoas queers. É quando reivindicamos nosso direito de vi-ver e ocupar livremente a cidade. É quando nos vemos na cidade.

Em São Paulo, o Museu da Diversidade Sexual (MDS) – primeiro museu da diversidade do Hemisfério Sul -, também é um marco histórico de celebração; lugar de memória e ação política que exerce indispensável função de registro, disseminação e arquivamento das sensibilidades e existências LGBTQIA_+.

Em 2020, quando completou 8 anos no dia 28 de maio, o museu inaugurou a mostra online Queerentena (queer + quarentena), formada por um edital aberto para que artistas LGBTQIA_+ compartilhassem reflexões de suas vivências durante o relativo distanciamento social imposto pela pandemia da COVID-19, servindo de plataforma para discutir pautas como discriminação, exclusão, medo e solidão. Sentimentos que se atualizam, mas não se restringem ao momento atual, conforme nos relatou Bruna Andrade no mês passado aqui no The Squad.

É o que também expressa Tata Barreto em sua fotoperformance Querentine King.Vestindo um moletom aberto, Barreto revela os binders¹, os tanquinhos desenhados no abdômen e a cueca. A máscara cobre a boca, mas resta o olhar íntimo da persona Drag King encarando o mundo externo através das grades e imaginando lugares onde as práticas de gênero não estariam sitiadas em quarentena, como que se perguntando junto a abigail Campos Leal: de que modo tornar esse novo mundo de exceção habitável?

Para que haja uma transformação, há de ser radical. Só assim poderíamos esboçar a ideia de uma cidade queer onde seriam possíveis os corpos estigmatizadxs tidxs por dissidentes, abjetxs e marginais.

Mas o que, afinal, é ser queer?

Em inglês a palavra significa “estranho” e “excêntrico” e costumava ser usada pejorativamente em práticas de Bullyng e violências direcionadas à população LGBT. Todavia, a palavra foi reapropriada por essa população como política de re-existência em prol da multiplicidade de expressões de sexualidade e gênero na luta contra uma identidade universal e incontestável. São queers, portanto, todxs que buscam a incessante ampliação e vivência de gênero e/ou sexualidade.

“Ser queer não é sobre ter direito à privacidade; é sobre a liberdade de ser público, de simplesmente sermos quem somos […]” (Manifesto QueerNation, grifo nosso)
liberdade, Sabrina Savani (2020). Coleção da artista.

A palavra “liberdade” nomeia a obra de Sabrina Savani (2020), uma colagem composta por quatro repetições do corpo de uma mulher negra que sorri. Uma delas levanta a mão em gesto de leveza (mas também de reivindicação), talvez depois de tanto cerrá-lo em gesto de resistência. Seu sorriso esboça emoções que, embora indescritíveis, arrisco algumas palavras: alívio, prazer, gozo, sonho, frescor, bem-estar, força, insurreição, lampejo de liberdade. Liberdade? Afinal, quem é que tem o direito de sentir-se livre e leve? É o que parece perguntar o post it que integra a colagem com um trecho da música freedom de Beyoncé: Liberdade, onde está você? Porque eu preciso de liberdade também.

Negras e lésbicas, latinas sapatonas, caminhoneiras racializadas, lésbicas amarelas, mulheres indígenas que amam mulheres têm em comum a luta contra o perigo de serem propositadamente esquecidas, engolidas por essa rede epistemicida que é tanto heterocentrada quanto racista e colonial. (Leíner Hoki)²

Além das lésbicas e população negra, é preciso também lembrar que a população trans (dentre xs quais muitxs são, também, racializadxs) é uma das mais vulneráveis. Muitas dessas pessoas não tem o privilégio de se proteger em casa. À vista disso, são diversas as perspectivas pelas quais atuam sistemas de opressão, que atacam camadas sociais bem como suas intersecções de classe, racismo, sexualidade e gênero. Causas que não devem ser homogeneizadas, massificadas e nem confundidas, mas reivindicadas todas quando falamos sobre direitos humanos.

E como seria essa tal da cidade queer?

A expressão queer surgiu nas ruas da cidade, sendo assim, em muitos aspectos a cidade já existe queer. São esferas micro e macro que inventamos e re-inventamos constantemente para sobreviver. É na cidade onde manifestamos nossa luta e ganhamos grande parte de nossa força. Conforme nos ensina a socióloga Berenice Bento³, os movimentos na rua são imprescindíveis e nos mostram que a melhor proteção é a visibilidade política, capaz de ampliar a discussão sobre sexualidade e gênero, levando-a da intimidade para o espaço público.

No entanto, de que jeito é possível inventar esses lugares agora – quando é preciso afastar-se de seus pares, dos espaços e dos eventos públicos? Eventos  e encontros que firmavam-se na cidade, onde exibíamos nossos corpos/ onde existíamos. Dito isso, talvez a pergunta do momento seja: como ser queer longe da cidade?  Uma vez que os movimentos na rua são imprescindíveis para nossa existência? Onde afirmaremos nossa visibilidade para extravasar limitações do mundo binário e heteronormativo? O que pode um corpo isolado? Onde está o close das corpas em tempos de distanciamento social? – pergunta Caju.

Não sabemos, mas encontros como esse da plataforma digital do MDS é uma bela pista de possíveis movimentos que, além de registrar e arquivar, cria no espaço expandido lugares possíveis; lugares onde a população LGBTQIA_+ pode representar e reconhecer a si e entre si. Tais reconhecimentos podem se dar no Adorável Cotidiano, gestos tão pequenos quanto potentes como pode ser um desjejum. A ação comum da artista Emily Lumbreras (2020) retrata a simulação do céu no prazer da primeira refeição do dia e nos lembra da importância do autocuidado; nos olhares longos e demorados  de Chica Vamo re-criando re-tratos por meio de desenhos a mão re-produzindo fotografia de pessoas queridas; ou nos autorretratos de Gabriel Darcin criando e projetando noções identitárias sobre o eu, mediante o medo e a ansiedade.

Já a recriação de imagens feitas entre as irmãs da Dragfamily Haus of X afirma o apoio da coletividade e novas constituições familiares possíveis ensinando-nos, além das transformações, a força do afeto. Enquanto para Lualeo, compor uma música instrumental eletrônica foi a forma encontrada para inventar lugares e dar corpo para a angustia subindo pelas paredes, querendo sair de casa.

E, na impossibilidade de levar x copx pra cidade, uma saída possível para in-ventar lugares pode ser, num movimento contrário, trazer a cidade para o corpx. São essas algumas das interpretações dos exercícios esboçados na performance quero reconhecer meu corpx, realizada por Andrógino (Alan Piter). Fazendo uso de linguagens cartográficas, x artista desenha no corpo sinalizações topográficas, como se trazendo o corpx da cidade para seu corpx. A partir desse gesto elx reconhece (ou cria?) um corpo possível no instante.

Com isso, entende-se que o corpo é matéria, imagem e discurso em (in)constantes construções sócio-histórico-culturais. Em ínsula , esse corpo vivo se move dentro de casa, criando imagens e inventando lugares. Neste vídeo-dança-poema  o casal de namoradas Carolina Lobo (roteiro) e Catarina Vaz (edição) encontra na dança e na escrita maneiras de driblar a ansiedade causada  pelo distanciamento social imposto pela pandemia e pelas rígidas definições de sexualidade e gênero impostas por verdades sócio-histórico-culturais às quais rebate: “Todas as insatisfações se deslocam em padrão dentro de mim, produzindo cada vez mais fluido”.

Se interessou pelo conteúdo da exposição? Não deixem de visitar no site do MDS!  E, para quem quiser ler um pouco mais sobre, clicando aqui você acessa um ensaio que escrevi sobre o tema para a @revista.rsnt.

¹ Peça de tecido usada para alterar a aparência do seio, minimizando sua saliência.

² HOKI, Leíner. Sapatonas do Mundo, Univos. Dissertação de mestrado para a Faculdade de Belas Artes da UFMG, 2020.

³ BENTO, Berenice. Transviad@ s: gênero, sexualidade e direitos humanos. EdUFBA, 2017.

Leticia Becker Savastano
Leticia Becker Savastano

Arquiteta e Urbanista de formação, está realizando um mestrado na FAU-USP pensando relações entre arte contemporânea e imaginários urbanos. Escreve sobre artes visuais, cidade e arquitetura e, atualmente, está se especializando em estudos da linguagem na área de revisão de textos.