NISE DA SILVEIRA: O CORAÇÃO DA LOUCURA

Foi em pleno verão alagoano que nasceu a primeira e única filha de um professor de matemática e de uma pianista: Nise da Silveira. Era a única mulher entre 128 alunos da faculdade de medicina, foi aluna de Carl Jung e, com 26 anos, estava formada e disposta a trabalhar muito. Casou – se com um colega de turma, Mário Magalhães da Silveira, e não teve filhos. Se dedicou integralmente a desafiar as práticas médicas agressivas de uma sociedade retrógrada (tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia) e buscar tratamentos mais humanos para pacientes psiquiátricos. Para isso ela contou com dois aliados: o amor e a arte. Do seu ateliê dentro de um hospital, saíram artistas incríveis que ajudaram a mudar a história da arte e psiquiatria do país.

Segundo ela, os “malucos”, como chamava, são pessoas que enxergam o mundo de uma forma um pouco diferente e expressam seus sentimentos de jeitos especiais, às vezes, meio esquisitos até. “Violência física não ajuda nem cura ninguém. Bom remédio para a loucura é música, pintura, escultura, carinho e animais”, dizia. Falando em animais, foi pioneira ao enxergar o valor terapêutico da interação de pacientes com os bichinhos.

Essa lição de afeto aprendeu vivenciando o momento mais difícil da sua vida: ficou presa por mais de um ano, porque descobriram que lia livros que o governo achava perigosos. Nesse presídio também se encontrava preso Graciliano Ramos, cujo livro Memórias do Cárcere a incluía como uma das personagens. Em noite de São João, Nise foi liberta e em uma forte onda de empatia pensou: os pacientes psiquiátricos também precisam ser livres! Não tão empáticas assim, as pessoas começaram a achar que quem estava maluca era Nise. Mas ela percebia que ao pintar num mundo sem grades os pacientes ficavam mais felizes e conseguiam expressar melhor suas emoções.

“É indestrutível a criatividade. Está presente em toda a parte” (Nise da Silveira)

Imagens do Inconsciente

Em 1952, ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico.

Podemos citar Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção dessa instituição, Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros e Octávio Inácio. Esse valioso acervo alimentou a escrita de seu livro “Imagens do Inconsciente”, filmes (trilogia “Imagens do Inconsciente” do cineasta Leon Hirszman e roteiro criado por Nise) e exposições significativas, como a “Mostra Brasil 500 Anos”.

Por meio de seu repertório ficou famosa no mundo inteiro e continuou trabalhando até bem velhinha entre 22 gatos e colhendo os frutos da sua imensa obra retratada em pinturas.

“O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito” (Nise da Silveira)

TV Zero
Para quem deseja saber mais: a produtora de cinema TV Zero levou ao grande público a história de vida dessa alagoana extraordinária, com o longa-metragem “Nise – O Coração da Loucura”, dirigido por Roberto Berliner e protagonizado por Gloria Pires. O filme está disponível para aluguel no Now, no Youtube e no Google Play.” Assistam!

Paula Guimarães
Paula Guimarães

Empreendedora, publicitária, mãe, 33 anos e dona de uma agência de publicidade apaixonante: a Navegar Publicidade. Workaholic assumida, também adoro escrever e contar histórias. Pretendo falar sobre tesouros escondidos (ou pouco falados) aqui do Brasil. Então PRE - PA - RA pra conhecer as brasileiras fora de série!