LUZ, CÂMERA E AÇÃO, DENTRO E FORA DAS TELAS.

Na leitura do livro “Na minha pele”, do ator, escritor e diretor Lázaro Ramos, ele resgata o momento em que entrevistou o cineasta e primeiro protagonista negro da televisão brasileira, o ator Zózimo Bulbul. Um dos grandes nomes do audiovisual, Bulbul apontou para a câmera e disse para Lázaro: “Aquilo é uma arma. Use-a”. Li durante a graduação em jornalismo e, desde então, incorporei esta fala em minha rotina em muitos sentidos, principalmente, em caráter questionador. A arma, da qual, Zózimo se refere, dispara belas imagem e marcam para sempre a vida daqueles que as assiste. Mas as imagens constantemente registradas permanecem embranquecidas, assim como suas narrativas.

Porém, é impossível falar de representatividade em frente às câmeras sem falar dela por trás. Mais do que isso, aliar à proporcionalidade. A criação de novas narrativas e perspectivas para ler, ouvir e ver é muito mais do que exibir, é para a nossa história preta ficar na história do audiovisual brasileiro.

Uma linha do tempo, inaugurada muito antes do que podemos imaginar, marcada pela estreia da diretora Adélia Sampaio com seu “Amor Maldito”, em 1984, se tornando a primeira mulher negra a dirigir um longa metragem no país. O pioneirismo, de uma luta coletiva, abriu caminhos e possibilitou o sonhar para a negritude cheia de criatividade que não se enxergava. Pena que ao mesmo tempo, a branquitude bloqueou e segue bloqueando as entradas; dificulta a permanência e já empurra para a saída. Trinta e quatro anos depois da estreia de Adélia, em 2018, entra em cena a diretora Camila de Morais com o documentário pré-selecionado ao Oscar, “O Caso do Homem Errado”. Pela segunda vez, na história do Brasil, uma produção dirigida por uma mulher negra entra em um circuito comercial nacional. Trinta e quatro ano depois, o Brasil percebe algo, que nós, negros, sempre soubemos: a mulher negra é a pessoa certa.

Lembro constantemente da doçura do filme “Café com Canela”, de Glenda Nicácio, que fez minhas lágrimas escorrerem por tamanha sensibilidade; a emoção da diretora e roteirista Juliana Balhego, ao ganhar prêmios no Festival de Cinema de Gramado, que foi proporcional ao orgulho que temos das nossas; o prestígio e a elegância das cineastas Sabrina Fidalgo e Renata Martins; a poesia sobre nosso cabelo no trabalho da diretora Yasmin Thainá e tantas outras que produzem, roteirizam, escrevem e reescrevem a história, nos dirigindo ao mais belo papel: o de protagonistas.

“Nós fazemos filmes de quilombo”

Muitos projetos, iniciativas, profissionais, produções pretas diversas, mas e os casos e os descasos permanecem iguais. Peço desculpas às muitas profissionais que não são citadas aqui, espero que se sintam representadas nas mulheres descritas acima. Essa é a seção “Mulheres na História”, que reverência e enaltece nossas ancestrais, ao mesmo passo que busca visibilizar as ancestrais do amanhã.

Realmente, somos tantas. Plurais, múltiplas, únicas. Diferentemente do que o racismo faz e do que os racistas acham. Infelizmente, ainda este ano, dentro do audiovisual, nos deparamos com falas como “não temos um Spike Lee ou uma Ava DuVernay brasileiros” e o nicho “filmes de senzala”. Falando em Ava, nas redes sociais de sua distribuidora, a Array, ela destacou o trabalho incrível de outras profissionais negras brasileiras. Então, o que mais o Brasil quer?

A própria Agência Nacional de Cinema (Ancine) diz em seu relatório, sobre o ano de 2016, que mulheres brancas assinam a direção de 19,7% dos filmes, enquanto apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros. Naquele ano, nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra. Existem iniciativas que buscam reverter o processo e a estrutura racista e machista dentro do setor.  O Festival Visões Periféricas, focado na exibição de novos filmes de cineastas das periferias há dez anos; o Laboratório da Festa Literária das Periferia do Rio de Janeiro (FLUP), voltado para formação gratuita de estudantes negros e indígenas interessados neste tema. Ainda temos organizações que buscam espaço para profissionais negros, como Nicho 54 e o Coletivo Macumba Lab, iniciativas como Griottes Narrativas para mulheres negras roteiristas, e tantos outros, que evidenciam constantemente a invisibilidade de homens e mulheres negres talentosíssimos que querem apenas oportunidades. As produções podem ser facilmente acessadas e descobertas em diversas plataformas, há o Afrolix, site colaborativo que reúne produções que tenham, pelo menos, uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra.

Em seu manifesto, o Coletivo Macumba Lab já avisa “não fazemos filmes de senzala, fazemos filmes de quilombo”. Há séculos nos aquilombamos para viver e sobreviver e, assim, seguimos. A autora Chimamanda Ngozi Adiche já nos alertou sobre os perigos de uma história única, já sabemos a importância de novas narrativas. Mais do que compartilhamentos, necessita-se de ações. E você? Quantos filmes dirigidos e produzidos por mulheres negras você já assistiu ou apoiou? Parafraseio, ao final, a autora Audre Lorde, em seu ensaio A transformação do silêncio em linguagem e em ação, em que diz:

“sou uma poeta negra guerreira fazendo o meu trabalho –, então, pergunto: vocês têm feito o trabalho de vocês?”.
Andressa Lima
Andressa Lima

Jornalista, umbandista, ativista, mulher preta e aprendiz de escritora.