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Penélope Moura é uma entre os milhares de médicos cubanos proibidos de exercer a profissão no Brasil.

Já são seis anos completos no Brasil. Quando chegou, em março de 2014, a médica cubana Penélope Moura (nome fictício), de 35 anos, não imaginava que se casaria com um brasileiro. Ela é uma entre os pouco mais de 11 mil médicos cubanos que vieram ao Brasil por meio do Mais Médicos, programa criado em 2013 pelo governo Dilma Rousseff (PT), para ampliar o acesso à saúde básica no país.

Formada em 2008 e especializada em clínica geral, a médica saiu de Cuba para atuar em uma missão humanitária na Venezuela, onde morou por dois anos. A decisão de vir para o Brasil partiu do governo cubano, ao pedir a redistribuição de profissionais da saúde que estavam em território venezuelano, devido à alta quantidade de vagas existentes no Mais Médicos.

Amante das novelas brasileiras e curiosa em conhecer pontos turísticos como Copacabana e o Cristo Redentor, Penélope gostou da mudança. Teve que aprender a língua portuguesa e passar por um treinamento no estado do Ceará, antes de chegar à Pederneiras (SP), cidade para a qual foi enviada pelo governo brasileiro e que virou o seu novo lar.

Com aproximadamente 47 mil habitantes, segundo dados do IBGE de 2019, o município localizado no interior de São Paulo foi acolhedor para a cubana. Lá, ela recebeu ajuda de uma colega de trabalho e, após um ano, conheceu o esposo. Com toda a sua família vivendo na ilha caribenha, conta com o apoio das famílias da amiga e do marido para se manter na cidade.

Logo oficial do programa Mais Médicos, criado no governo Dilma em 2013 e substituído pelo Médicos pelo Brasil no governo Bolsonaro, em 2019. (Foto: Divulgação/Governo Federal)
“Nós temos muito o que oferecer para o povo brasileiro”

Depois de atuar no Sistema Único de Saúde (SUS) por 4 anos, Penélope foi obrigada a parar de exercer a profissão por conta do fim da parceria de Cuba com o Brasil. A decisão partiu da ilha, após receber o anúncio de que o exame de revalidação do diploma passaria a ser exigido, além de críticas do governo Bolsonaro.

Hoje, a médica trabalha em uma farmácia no centro da cidade e explica o motivo de ter ficado no país. “Eu fiquei aqui porque conheci o meu marido e casei. Também me identifiquei bastante com o povo brasileiro e gosto daqui, mas isso não significa que eu não goste do meu país.” Por ser casada com um brasileiro, ela recebeu o direito de residência permanente.

Assim como ela, cerca de 1.600 médicos cubanos continuam no Brasil, segundo a Embaixada de Cuba em Brasília. Sejam eles naturalizados brasileiros, residentes permanentes ou refugiados, são profissionais da saúde que, para voltarem a exercer a profissão, precisam se submeter ao Revalida, exame que valida os diplomas de médicos formados no exterior. Enquanto isso, migram para trabalhos informais e, muitas vezes, enfrentam dificuldades financeiras.

“Eu me sinto muito triste pois poderia ajudar mais. Somos cerca de 1.500 médicos cubanos regularizados e dispostos a ajudar o povo brasileiro, que também é parte da nossa família, pois ficamos e vivemos aqui. Sinto uma impotência ao não poder amparar e prestar serviços aos mais necessitados que estão nos querendo de volta”, comenta Penélope.

“Nós também pertencemos ao Brasil, por que não nos utilizam?”

Ao narrar sua trajetória na medicina, a cubana conta um episódio que aconteceu já em Pederneiras. Em 2016, ela ajudou uma paciente que chegou em trabalho de parto no posto de saúde. “Assim como essa, tivemos outras experiências lindas por aqui”, relembra, ao afirmar que gostaria de estar contribuindo com o povo brasileiro no enfrentamento ao novo coronavírus. 

Nascida na província de Pinar del Río e criada em um país socialista, a médica explica a diferença na atuação do governo cubano em um momento como o atual. “Lá, o governo é obrigado a atender às necessidades do povo. Aqui, todo mundo tem medo de morrer de fome, mas se o governo ajudasse, ninguém pensaria isso”.

Apesar da saudade da família que não vê há mais de um ano, Penélope fica tranquila ao saber que a irmã e os pais, já idosos e aposentados, recebem auxílio do governo e não precisam se arriscar neste período de isolamento social. Diariamente, ela conversa com a família, mas diz que só voltaria para Cuba se a situação política e econômica brasileira piorasse muito.

Mesmo grata pela oportunidade de trabalhar em uma farmácia e de ainda estar próxima de sua área, ela espera voltar a exercer a profissão no Brasil. Como muitos profissionais da saúde, Penélope se sente frustrada ao observar as ações e os pronunciamentos do governo Bolsonaro em uma condição tão delicada como a que o mundo vive com a COVID-19.

“É tão importante a política passar por cima da saúde? Sem saúde, não vai ter economia, isso não existe em nenhum lugar do mundo. Por que nós confiamos em um médico para dar um tratamento e agora que temos que confiar cegamente, nós vamos colocar a economia à frente da saúde? Se os profissionais da área falam que temos que fazer quarentena, nós temos que confiar”, declara.

Já são mais de 400 mil mortes no mundo. E mais de 46 mil só no Brasil*. A pandemia do novo coronavírus não deixa espaço para relativizar a sua extensão. Ainda que em diferentes níveis, o planeta todo foi afetado e a doença já faz parte da história da humanidade. O que tem diferenciado esse impacto em cada país, em sua maioria, são as políticas públicas e as recomendações que cada governo escolhe oferecer à sua população.

No Brasil, Penélope é apenas uma entre as centenas de profissionais da saúde que poderiam estar ajudando o povo brasileiro em um momento difícil e sensível para todos. “O Brasil está querendo lutar contra o mundo, o que é impossível. Como o mundo inteiro está errado e só o Brasil está certo?”, questiona a médica, que escolheu a profissão para ajudar àqueles que necessitam e não por dinheiro ou status.

*Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde do Brasil, coletados em 17/6/2020.

Sofia Hermoso
Sofia Hermoso

Com 23 anos, é jornalista recém-formada pela UNESP Bauru. Segue na busca do melhor caminho para alcançar o seu objetivo: contar histórias de pessoas reais. Seja por meio da escrita ou pelas lentes de uma câmera, espera contribuir para que vidas, principalmente as quase sempre invisibilizadas, passem a ser enxergadas. Acredita no jornalismo como difusor de informações relevantes, verdadeiras e fundamentais para a democracia.