ANTONIETA DE BARROS: A PRIMEIRA MULHER NEGRA ELEITA NO BRASIL

Em 1901, em Florianópolis – Santa Catarina, nasceu Antonieta de Barros. Antonieta não teve a melhor das infâncias. Bem pequena, ficou órfã de pai e foi criada apenas pela mãe, escrava liberta, que trabalhava o dia inteiro como lavadeira para garantir o sustento da família. Moravam juntas Catarina (mãe), Leonor e Antonieta.

Durante a reforma da Capital, centenas de pessoas foram desalojadas. Num lugar onde o negro e pobre já não cabiam mais, a população humilde foi empurrada para o morro. Entre essas pessoas está a família Barros. Mas diferente do destino da maioria, não vão para o morro. Mudam-se para o palácio do governo, em uma parte destinada aos empregados. Na nova residência a filha mais velha, recém formada professora, a única profissão aceita para mulheres na época, instalou seu curso particular: Antonieta de Barros. Em 1922 iniciou a sua trajetória no magistério. Alfabetizou adultos e lecionou português nas escolas mais importantes da cidade.

“Na vida, só vive plenamente aqueles que pensam, os outros só se movem”

Durante 30 anos de dedicação ao ensino, sua fama de professora rígida impôs respeito até nas famílias mais tradicionais da ilha. Ela não casou e não teve filhos. “Na vida, só vive plenamente aqueles que pensam, os outros só se movem” costumava falar. Negra e filha de ex escrava, escolheu tomar as rédeas da própria vida. Recusados pela academia de letras por serem negros, vários escritores se organizaram numa nova instituição literária, o Centro Catarinense de Letras, entre eles estava a professora e mais nova cronista Antonieta de Barros. Em 1929, além de trabalhar como professora começou a escrever para os jornais de sua cidade. Como a sociedade não aceitava que mulheres, principalmente negras e pobres como ela, emitissem uma opinião sobre assuntos importantes, Antonieta criou um pseudônimo: Maria da Ilha. Anos após, esses textos viraram o livro Farrapo de Idéias, único livro publicado por ela.

Antonieta fundou também um jornal, A Semana, mantido até 1927. Na mesma década, dirigiu o periódico Vida Ilhoa, na mesma cidade. Neles, discutia questões ligadas a educação, mulheres, política e preconceito racial. “A alma feminina se tem deixado estagnar, por milhares de anos, numa inércia criminosa. Enclausurada por preconceitos odiosos, destinada a uma ignorância ímpar, resignando-se santamente, candidamente, ao deus Destino e a sua congênere Fatalidade, a Mulher tem sido, de verdade, a mais sacrificada metade do gênero humano. Tutelada tradicional, irresponsável pelos seus atos, boneca-bibelô de todos os tempos.”

Em 1934, foi eleita a deputada estadual por Santa Catarina. A primeira mulher na Assembleia legislativa de Santa Catarina, primeira mulher negra eleita no Brasil. “Antonieta de Barros está eleita. A sua inclusão pela chapa pelo Partido Liberal catarinense foi incontestavelmente, a maior conquista até hoje assinalada pelo modernismo feminino em nossa terra”. Se preocupou com a educação, aprovou projetos em prol do magistério, promoveu a Escola de Educação De Profissional Feminina. Seu primeiro mandato durou até 1937. Retornou à Assembleia legislativa somente em 1948. Acompanhou a Segunda Guerra Mundial, a ascensão do fascismo, o Estado Novo. Testemunhou enfim, a chegada do modernismo em Santa Catarina. Impossibilitada de se formar em curso superior por ser mulher (a vontade era cursar a faculdade de direito), continuou a defender a educação e a emancipação feminina. Seus projetos viraram leis e seu partido, maioria na Assembleia.

Em 1951 a oposição venceu as eleições, que lentamente desfez os atos do governo anterior: anulou o concurso de ingresso e remoção do magistério, projeto de Antonieta. Foi exonerada do seu cargo de professora no colégio Dias Velhos. Ficaram as crônicas para defender seus ideais. Sua dificuldade financeira e de saúde se agravaram. Vítima de complicações diabéticas, Antonieta morreu em março de 1952, mas deixou vivo o seu legado.

Paula Guimarães
Paula Guimarães

Empreendedora, publicitária, mãe, 33 anos e dona de uma agência de publicidade apaixonante: a Navegar Publicidade. Workaholic assumida, também adoro escrever e contar histórias. Pretendo falar sobre tesouros escondidos (ou pouco falados) aqui do Brasil. Então PRE - PA - RA pra conhecer as brasileiras fora de série!