12ª BIENAL MERCOSUL E FEMINISMO COMO FERRAMENTA HISTORIOGRÁFICA

Quantas artistas mulheres você conhece? Quantas delas são brancas? Indígenas? Negras? Mulheres Trans? Latino-Americanas? Estas são algumas das proposições da 12a Bienal Mercosul “Feminino(s):visualidades, ações e afetos”, com curadoria realizada pela argentina Andrea Giunta,  historiadora da arte,   professora e autora do livro  “Feminismo y arte latinoamericano” (2018). Giunta também foi uma das curadoras de “Mulheres Radicais: arte latinoamericana 1960-1985”, exposição que esteve na Pinacoteca de São Paulo (2018) depois de ter passado pelo Hammer Museum – LA (2017) e Brooklyn Museum – NY (2018), nos EUA.

Este és mi cuerpo (2017),  Janet Toro. Documentação de Sven Hahne. Coleção de artista (fonte: fundacaobienal.art.br)

A Bienal Mercosul acontece em Porto Alegre –RS desde 1997 e a edição de 2020 é formada, majoritariamente, por trabalhos de artistes[1] mulheres e de sensibilidades não binárias. Apesar da suspensão do lançamento (previsto para abril) devido à pandemia do COVID-19, a Bienal acontece em plataforma digital dando seguimento, para além da mostra, ao programa educativo encabeçado pelo curador adjunto porto-alegrense Igor Simões. Mas, como manter estes encontros em momento no qual a vida exige que estejamos separades? E qual a importância de continuar falando sobre arte durante um período tão difícil?

“(…) o desejo de estarmos juntes é uma das grandes potências que nos torna visíveis, inventives e nos faz tecer laços”

Os conceitos “visualidades”, “ações” e “afetos” nos dão algumas pistas. Principalmente a palavra afeto (como política!), que passa a ocupar uma centralidade na existência da bienal. Isto porque o desejo de estarmos juntes é uma das grandes potências que nos torna visíveis, inventives e nos faz tecer laços. A arte é pulsão de vida. Vida que insiste e convoca o desejo à agir para além do sufoco, como costuma dizer Suely Rolnik[2], até mesmo – ou principalmente – em momentos nos quais a vida se vê ameaçada.

Ejercicio protesta (2010), Liuska Astete Salaza 1 (rojo) tribulanes de concepción, Chile: fotografia de Pamela Navarro. (fonte: fundacaobienal.art.br)

No esforço de manter os laços, a plataforma  disponibiliza online todos os trabalhos, assim como as fotografias e vídeos des própries artistes apresentando suas pesquisas, como por exemplo da boliviana Alejandra Dorado, que denuncia as violências institucionais sofridas por mulheres durante as ditaduras latino-americanas; das chilenas Janet Toro, que faz uma reflexão sobre as políticas do corpo e Liuska Astete Salaza, que aponta para mecanismos repressivos de instituições como tribunais da (in)Justiça e Igrejas; es brasileires Juliana dos Santos, com pesquisa sobre a intangibilidade da cor azul como experiência e metáfora para pensar sua experiência frente às demandas  que sofre por ser artista negra, e Helô Sanvoy, que compartilha memórias de quando sua mãe trançava seus cabelos; et+

Jardim da Abolição (2020), Musa Michelle Mattiuzzi. Coleção da artista (fonte: fundacaobienal.art.br)

Afinal, é sobre trançar fios e criar laços a seleção realizada por Giunta, que propõe a costura como imagem conceitual da exposição. E, mais do que costurar, trata-se de suturar, pois a arte é capaz de atuar nos rasgos, nas zonas de fissura e assim expor e elaborar incômodos. Libertar a imaginação, como diz a frase de Denise Ferreira da Silva[3] que compõem a instalação Jardim da Abolição (2020) de Musa Michelle Mattiuzzi.

A geometria à Brasileira chega ao paraíso tropical – Azul (2017/2018), Rosana Paulino. Coleção da Artista (fonte: fundacaobienal.art.br)

A metáfora da sutura vem da artista brasileira Rosana Paulino, que tem no centro de sua produção a crítica ao tecido social brasileiro abordando o local marginalizado que ocupa a população negra (mulheres, principalmente) na arte, na história e na ciência. Em sua série “Geometrias à Brasileira” (2017/2018), por exemplo, a artista demonstra como os cânones da arte concreta importados da Europa não dão conta da realidade pluriétnica brasileira de modo com que as imagens não caibam nos limites de quadros geométricos. Na série “Parede da Memória”  (1994/2015), a artista imprime retratos familiares em patuás configurando um memorial cuja particularidade se estende à uma identidade étnica. Também compartilhando memórias pessoais por meio de sua arte, a brasileira Lídia Lisbôa apresenta obras como “Casulo” (2014). Já em “Cicatrizes” (2012/2015), a artista revela a memória – por meio de tramas e retalhos – de mulheres que sofreram e sofrem violências domésticas.

Algún dia saldré de aqui (2014/2016), Fátima Pecci Carou. Coleção da artista (fonte: fundacaobienal.art.br)

A violência doméstica é, inclusive, um tema urgente em momentos como este, no qual muitas mulheres estão presas em casa com seus agressores fazendo com que aumente ainda mais as ocorrências de feminicídio. A artista argentina Fátima Carou aponta para essas questões com o seu trabalho “Algún dia saldré de aqui (feminicídios)” (2014-2016) composto por 200 re/tratos de vítimas de feminicídio. Os re/tratos são feitos a partir de fotografias publicadas nas redes sociais mas, ao re/tratar esses rostos, Carou redireciona seus olhares (sobreviventes para além das estatísticas) para es espectadores.

As Vantagens de ser Lésbica (2020), Mujeres Públicas Coleção das artistas (fonte: fundacaobienal.art.br)

É importante, ainda, ressaltar que existem especificidades quanto a violência contra a mulher, como por exemplo a Lesbofobia – tema abordado pelo coletivo argentino Mujeres públicas na irônica cartilha “As Vantagens de ser lésbica” (2020) -, assim como a transfobia. Tais questões ressaltam a necessidade de pensar novos modelos de sociedade como alternativa a esse que aniquila e aprisiona determinados corpos. É nisso que aposta a artista Élle de Bernardini com sua instalação “Transdialética” (2020), uma síntese de sua pesquisa que pensa novos léxicos – a partir do seu corpo transexual – inspirada pelo “Manifesto Contrasexual” [4]do filósofo Paul B Preciado. Na instalação existem três áudios disponíveis no site da artista , que compõe a obra “Bruna: Cidade, feminilidade e Dissidência”(2018) -, narrando experimentos de um corpo transvestigenere percorrendo espaços e tensionando mecanismos de aceitação e rejeição na cidade.

Compartilhando a perspectiva do corpo na cidade, Renata Felinto em “Dança na terra em que piso” (2014)[5] percorre espaços públicos em São Paulo e cria um corpo narrativo ao destacar diferentes tradições comunicadas pelas paisagens urbanas. Com o dançar de seu corpo de mulher negra,  que há muito tempo vem sofrendo apagamentos históricos, Felinto  reivindica territórios.

É urgente, portanto, repensar os modelos histórico-sociais que seguem sendo patriarcais, machistas, racistas, hetero e cis normativos. Talvez seja por isso que a arte contemporânea, como nos aponta Andrea Giunta[6],  surja com um caráter historicista no qual o feminismo – como teoria social -, tem muita força.

cena da performance Dança Na Terra Em Que Piso (2014),Renata Felinto
Coleção da artista (fonte: fundacaobienal.art.br)

Notas:

[1] Adoto o uso do “e” como linguagem não binária. Existem algumas outras maneiras de contemplar es não bináries com a linguagem, como por exemplo substituindo marcadores de gêneres usando o “x”.  Inclusive,  desde 2016 o 5o artigo da constituição Federal foi atualizado com o uso do “x” para garantir que todes sejam representades pela linguagem, uma vez que “todxs são iguais perante a lei”. Considero essa mudança de muita importância, pois a língua que tem ao masculino como regra trata o feminino como exceção e  não bináries como inexistente. No entanto, opto por adotar o “e” devido a uma questão de fonética. Sinto que, na linguagem falada, soa de maneira mais fluida.

[2] Ver: ROLNIK, S. Esferas para a insurreição – notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1, 2019.

[3] Ver: FERREIRA, Denise da Silva – A dívida impagável. São Paulo: Edição oficina da Imaginação Política e Living Commons, 2019.  

[4] PRECIADO, P.B. Manifesto contrasexual, São Paulo: n-1, 2014

[5] vídeo no site da bienal.

[6] Giunta, A. Cuándo empieza el arte contemporâneo?. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Fundacióm rteBA, 2014. 

Leticia Becker Savastano
Leticia Becker Savastano

Arquiteta e Urbanista de formação, está realizando um mestrado na FAU-USP pensando relações entre arte contemporânea e imaginários urbanos. Escreve sobre artes visuais, cidade e arquitetura e, atualmente, está se especializando em estudos da linguagem na área de revisão de textos.