O ANO É 2020 E AINDA ESTAMOS FALANDO SOBRE MINORIA MODELO

Olá queridas leitoras,

Volto aqui para mais uma conversa sobre feminismo asiático. Hoje irei abordar uma questão ainda tão presente nas vivências de asiáticas-brasileiras e infelizmente ainda tão crível para uma grande massa populacional.

Vocês já devem ter ouvido ou até mesmo falado por aí coisas como: “nossa, tinha que ser japonês” para completar frases sobre métricas de conquistas, comprometimento, ensino ou até questões morais. Vocês já pararam pra pensar qual a base desse tipo de pensamento?

Tirando da frente a complexa relação com estereótipos perpassados pela cultura popular e pela nossa rasa compreensão das múltiplas realidades étnicas, precisamos olhar com distância para os processos históricos e migracionais dos povos asiáticos ao Brasil.

No processo de abolição da escravatura, povos chineses foram “importados” (como se dizia na época) para trabalhar em lavouras. E, logo depois, em 1908, uma presente imigração japonesa também chega em terras brasileiras. Dos povos marrons, como libaneses e sírios, há registros que datam 1880, porém, diferentemente dos povos amarelos, houve uma diferente implementação política para esse grupo social. “Em vez de substituírem a mão de obra escrava, os libaneses e sírios fixaram-se nas atividades comerciais, de início como mascates até obter capital suficiente para abrir seus próprios negócios.” Texto retirado do capítulo Narrativas Asiáticas Brasileiras: identidade, raça e gênero escrito por Caroline Ricca Lee, Juily Manghirmalani e Laís Miwa Higa, presente no livro Ensaio Sobre Racismos – Pensamento de Fronteira.

A distinção entre leste-asiáticos e sul-asiáticos está sendo atualmente popularizada como pessoas amarelas e pessoas marrons, sendo a primeira, pessoas de etnias japonesas, chinesas, coreanas, por exemplo, e a segunda, pessoas de origem libanesa, paquistanesa, indiana, entre outras. Em relação aos povos marrons, por muitos anos, o Brasil aceitava somente a entrada de pessoas de religião cristã, o que acabou por criar uma assimilação forçada de algumas etnias. E, apesar do Itamaraty enumerar cerca de 10 milhões de descendentes de libaneses no Brasil, maior parte dessas pessoas se autodeclaram brancas em pesquisas. Isso, também, pela divisão étnica do IBGE não comportar asiáticos que não se enquadrem na divisão amarela. Esta imposta em 1940 para designar povos asiáticos, mas comumente pensada apenas como pessoas descendentes de países asiáticos do leste.

“Não existem caixas de performances étnicas, existem culturas”

Ao redor do mundo, as migrações derivadas da Ásia ocorreram em fases diferentes e, maior parte das vezes, para fugir de guerras ou por questões socioeconômicas. O Mito da Minoria Modelo foi um termo cunhado nos Estados Unidos para falar de um processo global de asiáticos em países de maioria euro descendentes. A necessidade de cooptação de asiáticos com a supremacia branca e colonial operante, os colocou na polaridade oposta e superior ao genocídio de povos originários e à manutenção estrutural e institucional da hierarquia, desumanização e separação de povos negros. Esse Mito ainda, perpetua a falácia meritocrática de ascensões econômicas e sociais através do trabalho duro desses sujeitos asiáticos.

Precisamos lembrar que essa verticalidade é uma seleção estatal e que foi modificada durante as décadas pós a 2ª Guerra Mundial. Antes considerado o “perigo amarelo” para as construções capitalistas e anti-miscigenação nos Estados Unidos, a construção posterior da ideia de uma Minoria Modelo surgiu na década de 1960, com a ideia implícita de conquistas estadunidenses de se tornar a nova potência mundial após os períodos das grandes guerras. Sendo assim, colocaram no corpo do asiático – principalmente o amarelo – a ideia da minoria trabalhadora, profissional de sucesso, economicamente ativa, politicamente inofensiva e, principalmente, não-negra. Como bem descreveu Juliana Sayuri pra Vice Brasil no artigo O Mito da Minoria Modelo. Para a população marrom, há um jogo de cooptação que também corresponde com a manutenção e controle dos corpos pelo Estado, sendo muitos desses asiáticos os bons matemáticos, engenheiros e gênios tímidos, porém em noções de cor, a vigente intolerância religiosa e as pautas anti-racistas, há ainda nesses corpos o estigma da ameaça do terrorista, a islamofobia e as crenças deturpadas de evolucionismo e classicismo.

Não existem caixas de performances étnicas, existem culturas. Passadas e perpassadas com profundidade em moldes políticos e socioeconômicos datados por um tempo e espaço. No processo pós-colonial, muitos dos sujeitos de origem asiática tiveram que abandonar seus países por necessidades maiores e, para terem alguma chance nesses novos locais, utilizaram do que podiam e sabiam para se associarem à classe dominante. Pensemos em uma época sem internet, com diferenças de alfabetos e hábitos. Em um mundo que trabalha de forma geracional às próprias realidades e hibridismos. O estigma construído para simplificar a existência do diferente, do que não é facilmente compreensível, não só os prejudica, como também os limita.

É de uma urgência sem nome a necessidade de repensar como construímos as lógicas essencialistas de constituição de povos asiáticos e como podemos compreender as plurais realidades das quais somos expostos no nosso cotidiano.

Junto do respeito pela diferença, convido vocês à repensar como a História (com H maiúsculo) nos foi ensinada. Quem as escreveu, como as escreveu, ao que temos acesso no nosso dia a dia? Qual a lógica ainda tão colonialista e ocidentalista que estamos alimentando nossos imaginários e realidades?

Juily Manghirmalani
Juily Manghirmalani

Mestre em Imagem e Som e profissional em múltiplas áreas do audiovisual, uma das administradoras da @lotus.feminismo e fotógrafa do @projetoasiatique.