NÓS POR NÓS

O mês de julho foi um mês particularmente mais difícil do que o resto. Todos os problemas que até então eu não tinha estrutura emocional para lidar vieram à tona.

Como mencionado no meu primeiro artigo no The Squad, eu consegui, em março deste ano, sair de uma relação abusiva que consumiu o resto da sanidade mental que me restava. Eu não sei como, mas encontrei forças em mim mesma e talvez em uma força divina para escapar daquilo antes que eu me tornasse um triste número.

Quando cheguei ao Brasil, chorei. Chorei ao ver o meu pai parado na saída do desembarque me esperando, porque sabia que a partir dali eu estaria protegida. Que eu estava em casa, com as pessoas que amo, longe de quem pudesse me fazer mal.

O que nós não sabemos, no entanto, é que não basta apenas conseguir sair de uma relação assim – é claro que estar em segurança é o fundamental –, porque esse fim representa o começo de uma série de grandes dores.

E no meu caso, por ter uma filha com o meu agressor, o que já é ruim fica ainda pior.

Esse tipo de homem não se conforma com o fato de não o querermos mais. Ele não aceita que perderam o controle, e que agora quem decide somos nós. Na França isso tem nome: “narcissique pervers”, aquele que, movido pelo próprio ego, só está satisfeito quando te destruir por inteira. Eu costumo chamar essa espécie de gente de “psicopata”.

O comportamento do meu ex funcionava e funciona da seguinte forma: no começo ele chorava, me pedia perdão, dizia que me amava e implorava que voltássemos a ser uma “família feliz”. Segundo ele, ele mudaria. Spoiler: não mudou, não. Ao perceber que sua tática não funcionava mais, que o seu drama não me comovia e que eu não voltaria atrás na minha decisão, foi a vez de usar a minha filha como moeda de troca.

Ele dizia que não iria mais querer saber da minha filha se eu não voltasse a ser sua namorada, que sem mim a Olivia não existia para ele, que ele tiraria o seu sobrenome da nossa filha e que ninguém iria nos aguentar, porque somos insuportáveis. Eu percebi depois do choque inicial que o cenário ideal seria este mesmo, no qual eu e a minha filha pudéssemos, apenas as duas, ser felizes. Nós duas precisamos de paz, e eu entendi que se fosse para ter um pai que cogita abandonar a própria filha apenas para ferir a mãe, é melhor não ter pai nenhum.
Repentinamente, porém, ele decidiu que queria a filha: mais uma vez, não por amor, mas por posse e controle. E é aí que todo o meu desespero começou, porque eu sei quais são as suas motivações, e sei também que a justiça – sobretudo a francesa – vai a ficar ao seu lado. Ele é louco e é bem provável que tenha o respaldo da justiça para as suas loucuras.

Eu não sou uma pessoa de pedir ajuda, acho que peço em caso extremo quando não existe outra solução. Foi assim que no ápice do meu desespero decidi publicar a minha história em um grupo de ajuda de mulheres que moram em Paris e descobri uma verdade que nós não imaginaríamos, porque tendemos a idealizar outros países e ver apenas os nossos defeitos. Mas o que muitas delas disseram, em poucas palavras, é que a justiça francesa é machista e xenofóbica, e que a guerra que eu travaria contra o meu ex, que é francês, é quase uma guerra perdida. Aos olhos da tão progressista França, a minha filha teria que conviver com o cara que até duas semanas atrás não a queria, e que eu provavelmente terei que conviver com o meu abusador se quiser estar perto do meu bebê.

Eu fiquei chocada ao saber que lá não existe delegacia das mulheres, não existe nada que se assemelhe à lei Maria da Penha e que eu não tenho garantias que a minha medida protetiva brasileira terá a mesma efetividade em um solo tão distante. Nem mesmo que eles me darão uma medida protetiva, porque a minha palavra não conta. No pior dos casos, se eu “decidisse” – entre aspas, visto que eu não tenho escolha nenhuma – não voltar, seria acusada de sequestro internacional e a polícia viria ao Brasil tirar a minha filha de mim à força.

Por achar que vivia em um país progressista, nunca imaginei que isso aconteceria comigo.

Eu descobri de uma maneira traumática que a minha vida de nada vale para o país da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

O que mais me deprime, todavia, é a sensação de ser uma eterna refém. Que o meu futuro, não importa o quanto eu lute para tê-lo em minhas próprias mãos, vai ser controlado por outros. Por homens. Homens que não se preocupam em colocar uma criança na mesma casa com um homem mentalmente desequilibrado. Homens que criam leis e parecem odiar mulheres. Homens que nos veem como descartáveis, que não estão nem aí para nós.

Contudo, ainda que eu esteja sem esperança, eu encontrei pequenos grupos de formiguinhas que substituem o Estado misógino para fazer o trabalho de proteção das vítimas de violência. Mulheres a quem eu contei a minha história e que me orientam e me preparam para a rusga que vem adiante. Mulheres que fazem parte de associações feministas que dão o suporte psicológico e jurídico para mulheres como eu, que já não sabem mais o que fazer. Mulheres esgotadas demais para nadar contra a correnteza, que aceitam que o que dá para ser feito é deixar ser levada e torcer para não se afogar.

O meu pequeno mundo acabou se tornando um microcosmo dessas mesmas lutas que estão sendo travadas há anos para que a nossa dignidade seja respeitada, para que nós sejamos vistas como seres humanos.

É uma luta contra um sistema que nos viola, nos subjuga e nos maltrata. Um sistema que nos detesta por existirmos, e mais ainda se não ficamos em silêncio.

A minha batalha hoje é por mim e pela minha filha, e de saber que eu não vou precisar dar conta de tudo sozinha me traz um pouco de acalento em meio a esse caos angustiante.

Eu confesso que eu não sei exatamente o que fazer, nem como prosseguir, nem sei eu vou aguentar. Não é fácil, mas eu vou conseguir. A gente vai conseguir.

Porque se desistirmos, quem ganha são eles. E eu já cansei de ficar em segundo lugar.

Analu Melo Ferreira
Analu Melo Ferreira

Jornalista, mãe da Olivia, mestranda em meios de comunicação, gênero e estudos culturais na universidade Sorbonne-Nouvelle, em Paris, e uma louca apaixonada pela América Latina. Falo mais sobre política do que gostaria.