DES-ORIENTE-SE

Olá! Estou aqui de novo para falar sobre o mundo, as discrepâncias e os recortes asiáticos. Ainda vou chegar em pautas de gênero e do feminismo em si, mas antes disso precisamos subir uma escadinha de noções que estão relacionadas à raça, configurações políticas e construções sociais. Vamos juntas?

No primeiro texto que escrevi aqui para o The Squad, comentei sobre o uso complexo dos termos “Oriente” e “Ocidente”. Vou usar o mês de agosto para aprofundar um pouco mais isso, pois imagino que pela popularização desses termos ainda seja bem difícil entender sua natural problemática.

O que seria o famigerado Oriente? E o Ocidente? A divisão é apenas geográfica e religiosa? Escalem aí mentalmente o que vocês consideram a formação necessária para distinguir esses dois termos para então pensarmos o que alguns teóricos também refletiram sobre.

O mundo após as colonizações foi reestruturado em novas disposições entre culturas e, com as novas dinâmicas relacionais entre os estados nações, ou melhor, entre os países, muita coisa foi estabelecida de forma vertical e em co-dependência econômica.

Foi entre as décadas de 1970 a 1990 que observações filosóficas sobre essas novas disposições mundiais se formaram. Tivemos a inserção acadêmica dos Estudos Pós-Coloniais, os Estudos Subalternos e agora, mais recentemente, o início dos Estudos Decoloniais. Eles possuem linhas de raciocínio diferentes, no entanto estão de alguma forma interligados e caminham juntos em olhares críticos vindos principalmente através de sujeitos provenientes do Sul Global – antigamente compreendido como Terceiro Mundo – para repensar estratégias utilizadas pela ainda tão operante colonização do conhecimento.

“Essas ideias estão há quase 50 anos sendo discutidas e está na hora de criarmos uma nova forma ativa e prática de repensar a autoridade intelectual ainda tão euro-colonialista”

Há um pouco mais de quarenta anos atrás, Edward Said, um intelectual palestino, historiador dos campos de cultura e da teoria literária, se tornou um dos precursores dos estudos pós-coloniais ao publicar o “Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente”. Ele nos apresentou uma teoria muito importante de inversão de valores de molde imperialista, do qual pontua que as representações do considerado “Oriente” feitas pelo “Ocidente” pouco tinham haver com a realidade das culturas descritas e sim, uma manobra política de diferenciação e distanciamento, com uma tentativa implícita de justificar o poder colonial.

A História como conhecemos hoje, registrada e catalogada cronologicamente como documento e como narrativa única nos livros escolares é uma criação européia, eurocentrada e que foi fortemente implementada pelas grandes navegações e colonizações.

O primeiro imaginário registrado do “Oriente” veio da visão européia. Segundo Said, a colonização não funciona somente através de imposições físicas e embates bélicos, mas também através de poderes coercitivos. Está na literatura, na antropologia, na justificativa através do essencialismo da narrativa operante. A Europa literalmente retratou a imagem das culturas do leste global, pertencentes ao então “Oriente” como o complicado, de difícil compreensão, o exótico, o místico, sensual e depravado como plano tático.

Percebam como desde o século XIX pra cá essas representações são tão bem controladas e fazem manutenção de estereótipos na cultura moderna e popular. Volto a perguntar pra vocês: Quais são as histórias que temos aprendido? Qual a Historía (com H maiúsculo) que estamos sendo expostas?

“É sobre o civilizado versus o bárbaro; nós versus eles. É sobre os Africanos corruptos déspotas e vítimas famintas; América Latina mafiosa, jogadores de futebol e ditadores; Árabes terroristas e misóginos; Leste Asiáticos engenheiros de software e religiosos fanáticos”. Retirei essa parte e a traduzi de um vídeo nomeado “Edward Said – Framed: The Politics of Stereotypes in News” postado no Youtube pela Al Jazeera, no The Listening Post.

Além da mídia minimizar essas grandes culturas em apenas um nome: Os Africanos, Os Árabes, Os Latinos, Os Asiáticos – o que já estrategicamente limita, restringe e essencializa.

Precisamos entender como a ótica orientalista se coloca no discurso do dia a dia como uma consequência ainda operante do discurso colonial. Ela é uma lente, um filtro de Instagram que está nas nossas mentes desde nosso ensino básico e que a mídia perpetua. Voltando ao vídeo citado acima: “Encontre o estereótipo, decodifique a ficção, desaprenda os mitos”.

Edward Said amarra essa questão metodológica e aponta que ela foi implementada por uma necessidade complexa da teia de expansão capitalista.

Essas ideias estão há quase 50 anos sendo discutidas e está na hora de criarmos uma nova forma ativa e prática de repensar a autoridade intelectual ainda tão euro-colonialista. Precisamos estimular incisivamente o conhecimento geopolítico.

Essas indagações sobre culturas colonizadas tiveram outros grandes nomes em trabalhos acadêmicos. Gayatri Spivak, outra grande expoente, tem sua base no Pós-Estruturalismo, corrente que discute a realidade como uma construção social e subjetiva. Ela lança a célebre obra “Pode o Subalterno Falar?” no final da década de 1980.

Spivak aprofunda ainda mais a discussão em torno das representações até então feitas. Suas indagações estão agora na possibilidade, no capacitismo e na permissão da auto representação das pessoas que estão ainda mais às margens. Ela fala sobre a possibilidade de agenciamento do Sujeito Subalterno.

Já no prefácio de seu texto, a autora descreve que o sujeito subalterno é aquele que se encontra tão às margens da sociedade capitalista, que está excluído do mercado, não possui representação política nem judicial. Está sistematicamente impossibilitado de se tornar membro de uma sociedade ativamente produtiva. Como exemplo, Spivak aponta para questões de gênero, ainda não tão abordadas por outros pensadores, utilizando as mulheres viúvas hindus que cometem o auto sacrifício com a morte de seus maridos, no ritual sati. Estas mulheres se encontram na periferia da sociedade capitalista E patriarcal, sujeitos que precisam ser eliminados após à morte do sujeito ativo da família.

A autora aponta também para as problemáticas de representação sob a perspectiva de acesso e classe. Como para se representar, muitas vezes é preciso ser de alguma forma literado ou se comunicar em um idioma colonialista e não o nativo. Como isso, além da desigualdade das possibilidades, também se encontra no exercício de tradução, as negociações e as aproximações, nem sempre conseguindo exprimir o conteúdo ideal e originário.

Então, para além do intercâmbio cultural e geopolítico precisamos também lembrar das múltiplas interseccionalidades implícitas no discurso. Aprender a montar um quebra cabeça funcional sempre que nos depararmos com alguma informação. De onde ela vem? Quem está falando? Como está sendo falado?

Ainda e tão importante quanto, vamos parar de falar “Oriente” e “Ocidente”? Em uma nova prática afirmativa e inclusiva, vamos aprender a nominar povos, etnias e origens?

O que quero trazer com meus textos é uma tentativa de abrir diálogos e incitar noções críticas nos moldes em qual fomos criadas. Deixo aqui um canal aberto para discussões.

Juily Manghirmalani
Juily Manghirmalani

Mestre em Imagem e Som e profissional em múltiplas áreas do audiovisual, uma das administradoras da @lotus.feminismo e fotógrafa do @projetoasiatique.