CONVITE À VULNERABILIDADE DA MINHA VIDA PARA A SUA

A quarentena está sendo um tempo de limpeza emocional. Não sabia que eu tinha tanta coisa guardada. Atrás desse forte eu escondia muita coisa que eu não queria ver para não ter que lidar com os sentimentos que me traziam. Grande erro. Pensava que estava lidando bem com o isolamento social, aí percebi que a vida – e as lições dela – não tiram férias.

Hoje, por exemplo, escrevi um texto enorme para minha eu do futuro me avisando de coisas que eu esqueço quando estou bem. Me contando a trajetória daquele problema e como eu já tentei resolver. Além de me dar conselhos certeiros. Aproveitei o momento que estava extremamente triste e desolada para entender como eu me sinto em momentos assim. Escrevi a carta para não esquecer, porque eu costumo achar que sou muito forte e consigo resolver até o problema dos outros – olha que inocente ela.

Já faz um tempo que eu estou aos poucos trabalhando essa liberdade em sentir o que se sente sem julgar e nem esconder. Eu acho saudável, mas não fazia. Para ser sincera, dividir problemas e me sentir vulnerável eu nem qualificava como qualidades por boa parte da minha vida. Ainda bem que essa nova eu já chora assistindo histórias boas no Instagram. Eu diria que é uma evolução. Talvez chorar na frente dos outros eu ainda não faça, mas chorar para me curar eu já estou fazendo. E faz um bem danado, recomendo.

Uma das coisas que descobri na quarentena é que ouvir músicas tristes – três específicas – me fazem chorar de uma forma boa. “O que isso quer dizer, Amanda?” Quero dizer que quando paro de chorar eu me sinto bem. Lembro de alguns anos atrás que bastava a música ter uma melodia triste para eu me recusar a ouvir. Eu me recusava a sentir. É engraçado pensar que todas as nossas manias das mais pequenas às maiores contam uma história sobre nós. Basta olharmos com atenção.

“Encontre a sua forma de expressar as suas dores e faça, não deixe a dor te consumir”

Nas últimas semanas ver as pessoas se manifestando em repúdio ao assassinato brutal do George Floyd trouxe uma avalanche de sentimentos para mim. Fiquei esperançosa de ver algo sendo feito contra esse racismo cruel e naturalizado que tira nossas vidas diariamente de várias formas. Acompanhei pelas redes sociais todo esse movimento. Me deparei com muitos relatos de pessoas como eu, que me tocaram bastante, falando sobre como tinham relevado várias situações inaceitáveis por conta do racismo. Eu me vi naquelas falas.

Aí a ficha caiu. Eu não era forte por evitar falar das coisas que me machucavam, eu só evitava, pois aprendi desde nova que ser forte era uma forma de me defender das coisas que eu não conseguia processar como o racismo. E, talvez, se eu não me sentisse forte eu não conseguiria seguir. Foi algo que me ajudou em vários momentos, mas agora eu quero me permitir ser vulnerável. Sei que tenho um longo caminho pela frente, e, pode ser assustador, doloroso e incerto. Mas eu estou feliz que o medo de lidar com minhas feridas não é maior que a minha vontade de me libertar de antigos padrões.

Eu quero me permitir sentir para curar. Isso também inclui verbalizar, dividir, ficar sozinha, chorar, dançar, escrever e me permitir ser cuidada também. Encontre a sua forma de expressar as suas dores e faça, não deixe a dor te consumir. Esse texto é um convite ao autocuidado e, principalmente, a se permitir sentir. Você merece essa atenção de você mesma.

Aí fica o questionamento: mulheres negras, vocês estão se cuidado ou só lutando e sendo fortes o tempo todo?

Amanda Tolintino
Amanda Tolintino

Otimista por natureza, apaixonada por viver intensamente e seguir os seus sonhos. Ama estar com pessoas que se importam com o próximo e trabalhar com marcas inspiradoras. É Publicitária e Mestre em Media Psychology. Para entrar em seu mundo, siga ela no Instagram pelo @amandatolintino.