BELL HOOKS E A INTERSECÇÃO ENTRE RAÇA E SEXO

Cara leitora,

Você já deve ter ouvido sobre Paulo Freire, certo? Nosso patrono da Educação, um dos maiores e mais citados teóricos da área, com extensa obra sobre como aprender e ensinar são dois lados da mesma moeda. Freire também é constantemente colocado como um dos “culpados” pela situação da escola pública brasileira, mesmo que a pedagogia dele nunca tenha sido implementada no Brasil como política de governo e, muito menos, de Estado. Mas o texto de hoje não é sobre Paulo Freire. É sobre uma mulher que teve a coragem de dizer pessoalmente a Freire que sua teoria excluía as mulheres e o feminismo, por se tratar de forma específica – e aparentemente exclusiva – da educação como instrumento de libertação dos homens. Essa educadora, feminista e ativista, é bell hooks. Isso mesmo, com todas as letras minúsculas – e logo, logo eu vou explicar o motivo, e porque essa mulher maravilhosa é tão importante em discussões relacionadas a educação, raça, gênero e as relações de poder que operam em todas essas categorias de análise.

Gloria Jean Watkins nasceu em 1952, em uma cidadezinha no estado do Kentucky, onde a segregação racial, tão comum nos Estados Unidos à época, era norma. Gloria foi educada em escolas exclusivas para alunas negras e alunos negros e, mais velha, durante o Ensino Médio, fez a transição para escolas mistas, nas quais a maioria das alunas e dos alunos era branca. Nesse período, ela se defrontou pela primeira vez como a opressão na escola é reforçada quando se é menina e, mais ainda, menina negra. Nos anos 1970, ela se formou em Inglês na Universidade de Stanford, e continuou seus estudos de mestrado na Universidade de Wisconsin. Durante a pós-graduação, escreveu um de seus livros fundamentais “Ain’t I a woman?” (na versão em Português, “E eu não sou uma mulher?”), e as escolhas feitas por ela, como o título do livro e a autoria dele, já mostravam que Gloria vinha para questionar – e abalar – as estruturas do patriarcado.

O livro é homônimo do discurso proferido por Sojourner Truth, uma mulher negra que havia sido escravizada, e que, após ter se tornado formalmente livre, também se tornou uma das mais contundentes oradoras pela causa abolicionista e feminista nos EUA. No discurso improvisado, enunciado na Convenção de Mulheres de Ohio, em 1851, Truth discute o papel da mulher negra na sociedade estadunidense. Ela questiona a luta das mulheres brancas por privilégios, como poder trabalhar fora de casa, quando as mulheres chamadas “de cor”, já trabalhavam no país há séculos, em condições precárias, e raramente reconhecidas pelas feministas brancas. E então ela se pergunta: e eu não sou uma mulher? O questionamento de Truth é retomado por Gloria Watkins, como forma de reinserir a interseccionalidade entre raça e sexo no debate acadêmico dos anos 1980, já que, na visão dela, as feministas ignoravam as questões de raça e os autores negros negligenciavam discussões sobre sexismo. No livro, a autora enfatiza a necessidade de se olhar para o feminismo das mulheres negras e como os sistemas de dominação e opressão operam especificamente para essas mulheres com base na intersecção entre sexo e etnia. A partir desse momento, ela já assina como “bell hooks”, uma homenagem à sua bisavó, que possuía o mesmo nome. Mas por que as letras minúsculas? Por que não usar o nome de batismo? Segundo a autora, as letras minúsculas significam tanto uma homenagem à sua bisa, porque ela sim merecia letras maiúsculas; e porque “bell hooks” não é uma pessoa, mas a voz interior que a faz escrever. É como se fosse a sua “eu-lírica”.

Sendo uma educadora crítica, hooks se aproximou de diferentes referências tanto do mundo da educação, como do mundo da luta por direitos civis e igualdade entre os sexos, como os já mencionados Freire e Truth, mas também importantes líderes do movimento negro nos EUA, como Dr. Martin Luther King Jr e Malcom X. Tendo publicado mais de 30 livros sobre variados temas, o mais contundente contra o sexismo é “O Feminismo é para Todo Mundo”, lançado em 2000. Nesse livro, hooks discute diferentes assuntos relacionados ao feminismo, definido por ela como um movimento transnacional, não baseado em medo ou fantasia, mas no objetivo de acabar com o sexismo, com a exploração e a opressão sexistas. Ela ensina pra gente como precisamos ter foco na luta feminista, já que se o feminismo significa tudo, ele não significa nada. Assim, temos que prestar atenção às estruturas do sexismo, que está presente em como as mulheres são tratadas – e retratadas – nas relações familiares, na escola, na cultura, nos meios de comunicação e de difusão do conhecimento, ou seja, na sociedade como um todo. Essas estruturas foram socialmente e historicamente construídas com base na ideia de que o homem é superior e, por isso, favorecem que ele colha todos os frutos dos privilégios que foram destinados a ele durante toda sua vida – até mesmo antes do nascimento. Por esse motivo, é importante trazer os homens para a discussão, se realmente quisermos construir sociedades mais justas e inclusivas, nas quais todos se beneficiem com a derrocada do patriarcado. O livro ainda apresenta discussões sobre políticas feministas, direitos reprodutivos, beleza, luta de classes feminista, feminismo global, trabalho, masculinidade feminista, maternagem e paternagem feministas, casamento e companheirismo libertadores, dentre outros temas superimportantes. Tudo em uma linguagem clara, acessível, acolhedora; é como se a eu-lírica da Gloria estivesse conversando com a nossa. 🙂

A bell hooks é uma autora primordial para entendermos nosso lugar dentro do feminismo – onde quer que estejamos situadas – e como podemos fazer para sermos aliadas das nossas irmãs que têm mais obstáculos – colocados por etnia, classe social e cultura, por exemplo – na nossa luta pela libertação de todas.

Minhas dicas de hoje são as seguintes obras de bell hooks:

– E eu não sou uma mulher?: Mulheres negras e feminismo

– O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras

– Teoria Feminista – Da Margem Ao Centro

– Ensinando a Transgredir. A Educação Como Prática da Liberdade

– Meu crespo é de rainha (um livro fofíssimo para crianças)

 

Espero que você tenha gostado de conhecer ou de se reconectar com essa mulher-inspiração para todas nós.

Um abraço e até a próxima!

Marcella Winter
Marcella Winter

Mestre em Relações Internacionais e doutoranda em Educação Internacional e Comparada na Universidade de Columbia. Os temas de interesse dela são feminismo na teoria e na prática; movimentos e perspectivas feministas sob uma ótica internacional; gênero e desenvolvimento; gênero e colonialidade; e qualquer tema que contribua para a emancipação das mulheres e a derrubada do patriarcado.