A MATERNIDADE E O FEMINISMO

Quando eu vi a vaga para trabalhar como redatora no The Squad, lembro-me que era necessário enviar um e-mail de candidatura e como objeto eu precisava especificar qual o tema eu gostaria de falar sobre. Eu me lembro, também, que não hesitei em colocar “maternidade”.
Para quem ainda não me conhece, eu sou mãe de uma menininha incrível, a Olivia, de 3 anos. Desde o seu nascimento – e durante a gravidez – eu falo e escrevo sobre maternidade, por perceber, sobretudo, o quanto as mães são deixadas de lado, inclusive no próprio movimento feminista. Não importa o quanto tente, eu não consigo desvencilhar a minha militância enquanto feminista da minha experiência como mãe. A verdade é que hoje eu observo que o feminismo não pode existir sem discutir e questionar o papel das mães na sociedade. E é por isso que, na hora em que fui escrever o e-mail me apresentando, eu tive que deixar claro quem eu era. Eu sou mãe e ser mãe se tornou o meu ato político.

Aos meus 21 anos de idade eu descobri que estava grávida. Não foi uma gravidez planejada – muito pelo contrário, foi o maior susto que já levei na vida. Eu era estudante, desempregada, morava com meus pais e o único que tinha era uma relação à distância e vários sonhos inalcançáveis. Eu soube que iria ser mãe e demorei meses para conseguir aceitar a ideia. Na verdade, acho que só fui amar de fato a minha filha quando ela nasceu. Eu me sentia fracassada, culpada, e o olhar de julgamento do tipo nossa-mas-ela-é-tão-nova-e-já-arruinou-a-vida-coitada acabava comigo.

Naquela época eu havia decidido que daria continuidade à gravidez por ter uma rede de apoio que me daria todo o suporte necessário para dar conta de um bebê. Eu tinha descoberto que estava grávida durante uma viagem à Inglaterra, ao visitar uma tia que mora em Londres. Ao contá-la, aos prantos, que o teste era positivo, ela me disse “se você quiser, a gente pode ir em uma clínica”. Porém o que eu achava ser a minha intuição me dizia que eu deveria dar continuidade à gravidez, mesmo podendo abortar. Hoje, ao pensar neste episódio, me questiono se o que aconteceu, de fato, foi vontade minha. Eu realmente não sei até que ponto aceitar que seremos mães sem não desejá-lo se trata de uma simples questão de “escolha”.

A gravidez em si é algo assustador e solitário, apesar de não querermos admitir. Ou de talvez admitirmos e não sermos ouvidas. Eu confesso que ter me tornado mãe foi uma sucessão de abandonos. Tive que abandonar quem eu era, abandonar a minha vida, abandonar alguns amigos e abandonar várias verdades que eu achava que seriam absolutas. Eu me tornei mãe e continuava sem entender qual era o meu papel, não somente em relação a minha filha, mas a tudo a minha volta. Ainda que tivesse apenas 21 anos, eu não era mais jovem. Os meus amigos continuavam a sair, a beber, a viver a vida loucamente, e eu não pertencia mais a essa vida. Na verdade, a minha gravidez e a minha maternidade se tornaram um limbo: eu tinha grandes responsabilidades muito jovem, no entanto era demasiado jovem para entrar no grupo oficial das “mães”.

“Talvez a gente não goste de ser mães e está tudo bem. Talvez a gente queira comprar uma casinha no meio do mato para se isolar durante um mês em silêncio e está tudo bem. Nós fazemos o melhor que podemos nas circunstâncias que estamos e está tudo bem”

Nesse processo a gente acaba ficando ranzinza, eu confesso. Eu já não conseguia estar perto de jovens muito alegres porque era injusto que eu não pudesse mais ser como eles. Meus colegas conversavam sobre as viagens que planejavam e eu pensava nas fraldas que teria que comprar. Eu precisava comprar um berço e ordenhar leite às 5 horas da manhã para deixar de almoço para a minha bebê, eu estudava de manhã e trabalhava à tarde para ter um dinheiro para mim e a minha filha. O meu corpo não era mais somente meu – e eu vejo que depois de um filho ele nunca mais será. Os meus sonhos não eram apenas meus e tudo girava em torno daquele ser minúsculo.

A Olivia nasceu em 2017 e outras verdades cruéis ficaram ainda mais evidentes: as pessoas não gostam das mães e não suportam as crianças. Nós nos vemos excluídas de espaços porque crianças fazem bagunça. Nós vemos nossos filhos sofrerem violências institucionalizadas porque as bases de educação infantil partem da ideia de punição, não importa o contexto. Nós tentamos criar seres humanos para um mundo que pode ser lindo, mas também violento, injusto, e que provavelmente vai machucá-los. Nós perdemos a nossa identidade de mulheres para nos tornamos apenas a mãe de alguém, e isso dói.

Eu percebi que a maternidade é repleta de armadilhas e eu já me vi presa nelas diversas vezes. Essa maternidade romantizada, bonita, onde não há problemas, acaba nos aprisionando e é preciso ter muita certeza daquilo que acreditamos para seguir em frente. Por ser mãe já me disseram que eu não poderia mais beber, que eu deveria me ocupar mais do lar, que eu teria que jogar todos os meus sonhos no lixo e que a pessoa mais importante seria sempre a criança. Sempre.

No entanto, a pessoa mais importante das nossas vidas somos nós mesmas. De nada serve se doar plena e exclusivamente para alguém se nós perdemos o que somos pelo caminho. Se essa dedicação exclusiva nos tira a nossa felicidade e a nossa vontade de viver. Os nossos filhos são, sim, importantíssimos – se não o fossem nós não travaríamos batalhas por eles. Só que não podemos esquecer, por um minuto sequer, de travarmos batalhas pela nossa essência, pelas nossas vontades e pelos nossos desejos. Por nós, mesmo que a sociedade tenda a não aceitar mães que não se comportam como “tal”.

O feminismo, dessa forma, serve para não somente nos proteger do sentimento de culpa que insiste em prevalecer, não importa o que fazemos, mas também para que pautas ainda tão tabus sejam debatidas. Para que o “não quero ser mãe” seja respeitado, para que as nossas crianças sejam protegidas, para que mães possam ser acolhidas e para que o cuidado com os filhos não seja responsabilidade unicamente da mulher. Talvez a gente não goste de ser mães e está tudo bem. Talvez a gente queira comprar uma casinha no meio do mato para se isolar durante um mês em silêncio e está tudo bem. Nós fazemos o melhor que podemos nas circunstâncias que estamos e está tudo bem. Eu tento me lembrar disso pelo menos uma vez por dia e estou aqui para lembrá-las também.

Cuidem das mães.

Analu Melo Ferreira
Analu Melo Ferreira

Jornalista, mãe da Olivia, mestranda em meios de comunicação, gênero e estudos culturais na universidade Sorbonne-Nouvelle, em Paris, e uma louca apaixonada pela América Latina. Falo mais sobre política do que gostaria.