A CORPOREIDADE DO VÍRUS

Hoje vim aqui falar sobre um tópico que considero muito importante dentro do nosso atual quadro político. Aqui no The Squad, estarei ocupando a cadeirinha do feminismo asiático e como não abordar o preconceito étnico-racial que vem acontecendo em meio à pandemia do COVID-19, não é mesmo?

Antes de mais nada, precisamos ter em mente as considerações do teórico pós-colonial Edward Said (1989) sobre a visão de “Ocidente” e “Oriente”, pois não utilizarei esses termos. Isso é de suma importância para leitura de tudo que eu for escrever aqui. Provavelmente retomarei essa discussão em outro texto mas, em resumo, Said nos apresentou uma teoria muito importante de inversão de valores do molde imperialista, do qual pontua que as representações do considerado “Oriente” feitas pelo “Ocidente” pouco tinham haver com a realidade das culturas descritas e sim, uma manobra política de diferenciação e distanciamento, com uma tentativa implícita de justificar o poder colonial. Sendo assim, tratarei de povos e etnias de forma nominal e sem essa diferenciação polarizada.

Quando tivemos o surto midiático em relação ao vírus conhecido como COVID-19, imediatamente vimos a cara que esse vírus tomaria, a do leste-asiático. E foi através do fenótipo chinês, esse marcador social da diferença, que a assimilação do vírus com a corporeidade se deu. Dentro da atual dinâmica de propagação de informações paralelas e informais, houve o crescimento de fake news que levou, em meio ao medo, a disseminação de racismos, xenofobias e estereótipos que estavam submersos no imaginário pós-colonial e globalizado. A mesma estratégia foi utilizada na cobertura de imprensa dos casos de Ebola que emergiram alguns anos atrás, mas nesse caso, sobre o corpo negro. Esses posicionamentos midiáticos revelam um quadro maior de concepção cultural e eurocentrada de seus produtores de conteúdo, ao tornar sensacionalista a relação do corpo racializado que, por conta da manutenção de estigmas, deve ser temido ou evitado.

Essa concepção eurocêntrica apresentada pela mídia sobre o corpo asiático deflagra a ignorância sobre o que veio a se tornar uma espécie de aversão já sinalizada por pesquisadores e pelo jornalismo. Como disse Rosana Pinheiro-Machado para o The Intercept Brasil, a idealização que é ainda perpetuada no discurso da imprensa estadunidense (e de todos que por ela se baseia) busca “associar a China com uma impureza simbólica e concreta”. A narrativa operante é a da exotização, o uso exacerbado de descrições complexas como “infestação” de mercadorias importadas ou como essa cultura e sociedade são apresentadas, até hoje, através da repulsa nas escolhas alimentícias e nas formas de higiene.

O que podemos ver aqui é como a globalização ocorre de forma desnivelada e como a frágil compreensão de mundo que temos nos coloca em cheque quando algo inédito é apresentado. O nosso atual projeto nacional não abarca uma compreensão aprofundada dessa grande economia emergente. Ainda utilizando dados do artigo de Rosana Pinheiro-Machado, mesmo fazendo parte dos BRICS, o Brasil se distanciou muito da China desde 2013. A manutenção da desinformação, sem jornalismo especializado, intercâmbio científico e importação da indústria cultural, transborda no espelhamento do vírus através da corporeidade fenotípica e do baixo entendimento cultural que temos hoje.

A China é historicamente conhecida como uma ameaça ao capitalismo ultra valorizado pelos Estados Unidos, o maior pólo de influência do Brasil atual. Não foi surpresa o surgimento da ideia de guerra biológica com o avanço da disseminação do Coronavírus, esse que pode ser considerado a fonte da maior crise econômica dos nossos tempos. É como, se de alguma forma, os chineses estivessem sempre contaminando o mundo, parafraseando novamente Rosana Pinheiro-Machado.

A China pós-abertura econômica entra no mercado global como uma grande potência e principalmente em contexto de competitividade e alta produção capitalista. Porém, em decorrência à tantas mudanças econômicas e políticas, o mundo enxerga a China como um novo pólo de produção barata, utilizando da precariedade existente para uma nova forma de exploração do trabalho no contemporâneo. É nesse país, detentor da maior população mundial, que doenças estão surgindo e é ele que a grande mídia está responsabilizando. Quando, em uma leitura um pouco mais cautelosa, o problema parece estar na ultra exploração da sociedade e ecossistema, a formatação do sistema capitalista que ainda é tão banhado pelo pós-colonial e pela exploração.

Caroline Ricca Lee fala no primeiro episódio de seu podcast Rawr sobre os conceitos de biopolítica foucaultiana (forma pelo qual o poder administra e conduz vidas) e necropolítica de Achille Mbembe (forma pelo qual o poder escolhe quem vive e quem morre) para entendermos quais as facetas que o coronavírus está nos apresentando em relação às divisões humanas de classe, raça e o controle do Estado e, como, principalmente, esse momento conflitante vem “expurgando as engrenagens do sistema”. Um sistema esse que verticaliza a importância das vidas.

E mesmo estando aqui discutindo a noção de raça, não é possível desassociá-la à noção de classe, o que realmente fez a diferença na propagação dessa pandemia em comparação às últimas ameaças no setor da saúde que tivemos recentemente. Como apontado por Caroline Ricca Lee, esse vírus, ainda tão pouco conhecido, apenas se alastrou de forma global graças à um quadro operante de viagens e movimentos, no qual a elite globalmente móvel (e não apenas chinesa), ainda negacionista e principalmente com acesso à um tratamento tão qual elitista, colocou as vidas de outras pessoas menos afortunadas em risco.

Para finalizar, gostaria de passar essa reflexão para frente. Acredito que compreender que há projetos e estratégias por trás de tudo que nos é ensinado é também aprender a jogar o jogo do capitalismo de forma consciente. E como bem disse Eliane Brum para o El País, “é preciso reconhecer o rato que respira em nós para termos alguma chance de nos tornarmos mais parecidos com um humano.”

Deixo aqui então as minhas maiores referências para esse texto: o podcast @rawr.pod da Caroline Ricca Lee; o artigo “O vírus letal da xenofobia – o primeiro teste no Brasil deu negativo para ebola, mas positivo para o racismo” de Eliane Brum para o El País; o artigo “Coronavírus expõe a nossa desinformação sobre a China, o maior fenômeno econômico dos nossos tempos” de Rosana Pinheiro-Machado para o The Intercept Brasil; e a zine feminista estadunidense Asian American Feminist Antibodies {care in time of coronavirus} criada por Salonee Bhaman, Rachel Kuo, Matilda Sabal, Vivian Shaw e Tiffany Diane Tso.

Juily Manghirmalani
Juily Manghirmalani

Mestre em Imagem e Som e profissional em múltiplas áreas do audiovisual, uma das administradoras da @lotus.feminismo e fotógrafa do @projetoasiatique.