PIROU MINHA CABEÇA E CORAÇÃO

POP! 

Você lê esta pequena palavra e cores, sons e imagens explodem na sua mente! Quadrinhos preenchidos por tons vivos e bolinhas pretas?! Qual é o hit do verão? E a diva da vez? Já viu a última série da Netflix? Hit me baby one more time! POP! Já foi…

A cultura Pop é isso: infla, expande e explode! Se mostra possível em um mundo de efêmeros cataclismas: muitas informações, muitas imagens, muitos novos lançamentos e muita redundância! Muito rápido, muito passageiro, muito superficial…Em resumo: um muito de um tudo e um tudo muito! 

Todos os ingredientes desse caudaloso caldeirão implicam uma rápida e fácil digestão –  tão bem representada pelas latas de sopas do Warhol. A cultura Pop é por muitos criticada justamente porque a quantidade de coisas que ela produz é inversamente proporcional a profundidade reflexiva que possibilita. Mas será isso mesmo?

Outro dia cheguei em casa depois de um longo dia de trabalho e queria tomar um banho daqueles! Coloquei uma playlist bem cantante e fui para o palco! – Quer dizer, chuveiro. Fiz um dueto com a Mariah, Beyoncé e Sandy. Mas foi na parte do show mais dançante que a garganta deu um nó. A música “Don’t cha” das Pussycat Dolls era a próxima do set list. Para quem não lembra é uma música em que a cantora pergunta a um camarada que ela curte se ele não queria que a namorada dele fosse fogosa, loucona e divertida como ela. 

O nó na garganta não veio porque eu não gosto da música. Mas justamente pelo oposto disso! Eu adoro esse hit e a adolescente que vive em mim ainda saúda essa canção que dialoga com a rebeldia da época e entendimento da minha sexualidade nos primeiros amores de pica. Mas quinze anos depois (sim, 15 anos! Eu pesquisei! Já se sentiu velha também?)  “Don’t cha” me soa totalmente dessintonizada, inadequada e até a batida gostosa que faz você querer descer até o chão no ato, perde sua malemolência justamente porque os outros componentes entraram em desarranjo.

Mas o que se passou com essa música? Bom, o tempo passou e com ele mudanças na cultura que fazem com que este hit já não seja mais tão Pop. Ué, como assim? Meu argumento principal seria que “ser Pop” é estar em sintonia com a sensibilidade das massas! E isto é muito precioso. 

Imagino que hoje as próprias Pussycat Dolls não se prestariam a fazer uma música como “Don’t Cha”. Percebo que as divas Pop seguem cantando músicas ligadas ao empoderamento feminino, mas  já com algumas lapidações. Não tanto no prisma de sexulidade exacerbada e cúmplices dos homens enquanto em comparação pejorativa às outras mulheres, mas em que a narrativa das canções primam pela união entre mulheres e também por uma maior autonomia emocional em relação aos homens – que parecem ainda atrasados nesta importante seara da vida. 

Enquanto tomo meu banho e faço meu show lembro que não sou sócia da Cedae, atestado de que já não estou assim, tão por dentro dos hits do momento. Isto pode ser um bom sinal para esta análise visto que não sou mais o público alvo dos artistas Pop. Mas ainda assim há coisas que me chegam, e estas são aquelas que estão em maior sintonia com a massa fazendo o chão tremer. Ainda têm muita música com letras similares a do “Don’t cha”? Apostaria que sim. Se me puser a ver videoclipes atuais ainda estarão repletos de hiperssexualição dos corpos femininos? Com certeza! Mas o que me chega como hit são músicas como “Juice” da Lizzo que já aponta um novo direcionamento sobre esta questão, ou pelo menos um alargamento de referencial sobre a beleza dos corpos femininos. Ou então talentos como Billie Elish que é a prova que as cantoras não necessariamente precisam expor seus corpos se assim não quiserem e que não fará a menor falta! Hinos como “New Rules” e “Don’t start now” de Dua Lipa são bons exemplos de enfoque na auto-estima em detrimento de casinho com homens meio bosta.  Os videoclipes no geral estão cheios de graça, como a sacada dos produtores de Ariana Grande em “Thank U, Next”, em que ressuscita os filmes Pop dos anos 2000. Filmes estes que deixaram de ser Pop e podem reivindicar o selo de “clássicos” para toda uma geração. 

O que esta rápida linha do tempo que construí entre o shampoo e o condicionador me permitiu enxergar é que músicas Pop são excelentes indicadores das graduais e pequenas mudanças que vão ocorrendo ano após ano. Aquilo que fica depois que o furacão passa. 

Se os artistas são os sismógrafos da  sociedade, capazes de captar e traduzir  aquilo que move as pessoas, nada mais justo do que considerar a todos. Há os artistas que vasculham os recantos mais profundos – aqueles que os críticos e pessoas cult gostam de chamar de “verdadeiros artistas”. Mas há também aqueles que se ocupam dos arranhões da superfície e não há nada de menos verdadeiro nisso. 

Como dito no início, a efemeridade e superficialidade são traços fundamentais da cultura Pop. São pequenas bolas de sabão: coloridas, divertidas porém efêmeras. E é nesta ludicidade e inconstância que cumprem seu papel! 

Maria Manuela Moog
Maria Manuela Moog

Graduada em Artes Cênicas e Pós-graduada em Arte e Filosofia pela PUC-Rio. Se encantou pelo universo artístico aos sete anos quando interpretou um duende na peça de teatro da escola, e desde então é uma operária da arte. Diretora, dramaturga, atriz, curadora e o que mais interessar nesta jornada. Acredita que pessoas interessadas são pessoas interessantes e a melhor forma de absorver experiências é pelo afeto. Por isso, procura criar e fomentar arte em todas as esferas. Instagram @manuelamoog.