ORGULHO LGBTQIA+ E AS NARRATIVAS AUDIOVISUAIS NOS ÚLTIMOS 30 ANOS

No século passado, as pessoas acreditavam que em 2020 já teríamos carros voadores, robôs, teletransporte, a fórmula da juventude e muitas outras tecnologias que ainda não dispomos. Muito provavelmente, a população LGBTQIA+ – que nos anos 1990 era chamada de GLS – acreditava que em 2020 muitas questões relacionadas a gênero e sexualidade já estariam devidamente compreendidas – mas, infelizmente, ainda não.

No decorrer dos anos, novos significados foram ganhando visibilidade. A sigla GLS – Gays, Lésbicas e Simpatizantes, por exemplo, caiu rapidamente em desuso e foi substituída pela sigla LGBT, com o intuito de reforçar o protagonismo do movimento.

De um tempo para cá, o movimento LGBT foi assumindo novas camadas e utilizar somente Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais já não fazia mais sentido. Para abranger outras identidades de gênero e orientações sexuais, foram acrescentados o Q, I e +, que significam, respectivamente, Queer, Intersexuais e outras orientações e identidades de gênero.

É possível notar essa evolução também na cultura popular. No audiovisual, por exemplo, as representações LGBTQIA+ passaram por muitas transformações e as personagens, antes retratadas de forma pejorativa, são trazidas hoje com um olhar mais responsável e empático.

As novelas e séries costumam explorar uma trajetória mais profunda das personagens e o público que acompanha passa a nutrir uma relação sólida, que vai se estreitando a cada episódio. Pensando nessas construções, trouxe aqui uma breve análise da evolução das narrativas LGBTQIA+ em novelas e séries, dos anos 1990 para cá.

Em friends, por exemplo, temos duas problemáticas com relação a personagens LGBTQIA+. A primeira aparece logo de início, quando Carol (Jane Sibbett) se divorcia de Ross (David Schwimmer) para assumir um romance com Susan (Jessica Hecht). O casal, que protagoniza o primeiro casamento lésbico exibido na TV norte-americana, se torna alvo de piadas sexistas dos outros personagens em relação a Ross, que se incomoda bastante com o fato da ex-esposa se relacionar com uma mulher.

A segunda narrativa também problemática aparece com a personagem transexual do pai de Chandler (Matthew Perry), interpretada pela atriz Kathleen Turner. Na série, Charles Bing se torna Helena Handbasket e passa a estrelar um show em Las Vegas, o que faz com que Chandler se sinta profundamente incomodado e se coloque na tentativa constante em reafirmar sua heterossexualidade.

Apesar das abordagens mal exploradas de Friends, simultaneamente à sua exibição, tivemos a aclamada e necessária “Will and Grace”, protagonizada por um casal gay. Se tirarmos algumas questões que seriam problemáticas no contexto atual, a série veio para desmistificar a ideia que se tinha de homossexualidade na época e conquistou inúmeros fãs no decorrer das oito temporadas exibidas entre 1998 e 2006. A produção representou um grande marco ao trazer o primeiro beijo gay da TV norte-americana. Recentemente, entre 2017 e 2019, a série ganhou mais três temporadas, que apesar recepção positiva, não foram tão aclamadas quanto na década passada.

Em contrapartida, por aqui o cenário era bem diferente. Se hoje, as personagens gays, lésbicas e trans ainda causam polêmica, nos anos 1990, eram alvo de críticas pesadas e grande reprovação do público. Um exemplo disso foi a novela Torre de Babel, transmitida em 1998, na qual o autor Silvio de Abreu se viu obrigado a modificar o fim do casal lésbico interpretado por Christiane Torloni e Sílvia Pfeifer, que morre tragicamente em uma explosão, por conta da desaprovação do público.

“É preciso reconhecer que temos na cultura um espaço para nos inspirar, refletir e sobretudo questionar”

No Brasil, a década de 2000 foi marcada por muitos personagens homossexuais, abordados, majoritariamente, com base no senso comum. Homens com características atribuídas ao gênero feminino, ora introvertidos pelo preconceito enfrentado, ora extrovertidos demais, assumindo trejeitos e atuações caricatas; mulheres ora muito masculinizadas, sendo tratadas de modo pejorativo com pronomes masculinos, ora sendo culpabilizadas ou julgadas por assumirem suas bi ou homossexualidades. Prova disso são as personagens Ladir (Ítalo Rossi) e Deise (Norma Bengell) em Toma Lá Da Cá (2007), Juninho Play (Samantha Schmutz) e Patrick (Rodrigo Fagundes) em Zorra Total e as incontáveis performances homossexuais trazidas em Casseta e Planeta Urgente – quem não se lembra do Wanderlei (Hubert Aranha) que frequentava a sauna gay?

Seguida de abordagens estereotipadas e um tanto preconceituosas, no fim da década de 2000, a Globo acertou em cheio ao trazer pela primeira vez, em Malhação ID (exibida entre 2009 e 2010), um personagem assexual. Alê, interpretado por William Barbier descobre não sentir interesses sexuais e divide isso com a então namorada Maria Cláudia (Isabella Dionísio). Juntos, eles trazem à tona um assunto tão importante e até então não abordado na TV brasileira. O seriado, inclusive, trouxe no decorrer da última década, abordagens bastante sensatas e verossímeis em relação a sexualidade de gênero.

Pouco tempo depois, a emissora trouxe o personagem homossexual Félix (Mateus Solano) em Viver a Vida. A trama, exibida em 2013, não sai do comum com um homem afeminado, enfrentando o preconceito do pai homofóbico e carregado de trejeitos e bordões repetidos até hoje. O que marcou presença – além da perfeita atuação de Mateus Solano – foi o polêmico beijo entre ele e o personagem de Tiago Fragoso no último capítulo. Esse foi, se não o primeiro, o mais discutido beijo gay na televisão brasileira.

Do lado de lá, em 2014, a TV norte americana coloca em How To Get Away With Murder personagens homo e bissexuais de maneira muito natural. A protagonista Annalise Keating (Viola Davis), que inicia a série em um casamento heterossexual, ao longo das temporadas se revela bi, o que em nenhum momento levanta estranhamento ou comentários de outros personagens. Já Oliver (Conrad Ricamora) e Connor (Jack Falahee) são um casal gay que, entre outras situações, enfrenta a descoberta de Oliver como portador de HIV. Longe de estereótipos, a série aborda o caso de modo bem responsável e cuidadoso. Sem enfatizar ou se alongar no assunto no decorrer das temporadas, Oliver segue uma vida normal e a doença não gera impactos no relacionamento.

Outra que acertou precisamente as narrativas LGBTQIA+ foi Orange Is The New Black. A série, que se passa em uma penitenciária feminina e é protagonizada pelo casal lésbico Piper (Taylor Schilling) e Alex (Laura Prepon), explora as histórias de personagens trans, bi e homossexuais, fugindo de estereótipos, em abordagens profundas e pouco exploradas até então.

Na Espanha, uma versão similar da série, deu o que falar quando o assunto é sexualidade. Vis a vis assume uma narrativa parecida com OITNB e se mantém à altura com as personagens LGBTQIA+. Assuntos como homo e bi sexualidade vêm à tona de maneira muito natural e a presença de uma personagem trans não deixa a desejar em relação à sua versão norte-americana.

E por falar em abordagens pouco exploradas, Brooklyn 99 chega para provar que é possível se fazer humor sem contribuir com preconceitos. A série, que levanta reflexões importantes em um enredo precisamente cômico, traz com o personagem do capitão Raymond Holt (Andre Braugher) uma das narrativas menos óbvias do humor americano. Holt consegue unir três elementos extremamente improváveis em um personagem policial: um homem negro, homossexual, em um cargo de liderança. Entre outras coisas, a postura séria e extremamente respeitada do capitão derruba toda e qualquer possibilidade de abordar de modo pejorativo sua raça ou orientação sexual.

Ainda falando em humor, Grace and Frankie garante boas risadas em uma perspectiva fora do comum. Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin) são esposas de dois advogados que pedem o divórcio para assumir um relacionamento gay. O enredo se desenrola em um cenário pouco usual protagonizado por um casal homossexual idoso. A narrativa é carregada de cenas cômicas e, apesar da faixa etária dos personagens, dispensa quaisquer estereótipos ou ideias preconceituosas.

As produções estrangeiras costumam abordar com mais profundidade personagens LGBTQIA+. Muito por conta da difícil aprovação do público, no Brasil, as narrativas envolvendo gays, bis, lésbicas e trans mantém-se superficiais e, quando tentam explorá-las mais à fundo, qualquer ousadia pode colocar tudo a perder. Somente em 2017 a Globo trouxe para o horário nobre o retrato de uma transição de gênero, com Ivana, interpretada pela atriz (cis) Carol Duarte em A Força do Querer. De início, Glória Perez caminha bem ao trazer uma personagem mulher, que se torna um homem trans, se não fosse um pequeno deslize. O público, que já não estava acostumado a ver personagens transexuais na televisão, não compreendeu muito bem a gravidez da personagem, que gerou um profundo estranhamento. O resultado talvez não tenha sido o esperado, mas somente o retrato da transição já foi um grande acontecimento na dramaturgia brasileira.

Apesar das poucas produções brasileiras que abordem exclusivamente temáticas LGBTQIA+, a Netflix lançou recentemente uma série que foge um pouco do comum neste sentido. 3% aborda uma sociedade pós-apocalíptica na qual é possível refletir a respeito de vários assuntos, sobretudo religião, política e meritocracia. Em um contexto futurístico, é de se esperar que assuntos ligados a orientação sexual e identidade de gênero sejam tratados com a devida naturalidade. A trama traz personagens trans – inclusive a cantora Liniker, em uma participação emocionante –, homossexuais, bissexuais e até mesmo um “trisal”. Sem dúvidas, uma narrativa inusitada no audiovisual nacional.

No ano passado, uma das produções melhor exploradas no quesito sexualidade foi lançada pela Netflix. Sex Education, de início, pode parecer mais uma série adolescente ambientada em um colégio, mas logo surpreende pelos assuntos interessantes tratados de maneira muito didática e coerente. No decorrer dos episódios, você verá temas como orgasmo, masturbação, bi, homo e assexualidade, de uma maneira muito divertida e longe de tabus. O personagem homossexual Eric (Ncuti Gatwa) se destaca, entre outras coisas, por sua narrativa fora do convencional. Logo se espera de um jovem negro em uma família religiosa, uma história pautada pelo preconceito. No entanto, a trama surpreende ao mostrar a naturalidade dos pais em relação à orientação sexual do filho. Sex Education ousa em muitos quesitos e quando o assunto são personagens LGBTQIA+, os estereótipos são deixados de lado para dar lugar a uma perspectiva interessante e pouco usual no audiovisual.

Traçando uma linha do tempo, fica nítida a evolução das narrativas nas quais a comunidade LGBTQIA+ vem sido colocada na cultura nos últimos 30 anos. Não só com o aumento da visibilidade, mas com as múltiplas possibilidades de abordagem. Quando assistimos a séries e filmes antigos ou novelas reprisadas, colocamos em questionamento muitas ideias que encarávamos com naturalidade alguns anos atrás.

Apesar do longo caminho a percorrer quando pensamos em respeito e equidade de direitos dos LGBTQIA+, é preciso reconhecer que temos na cultura um espaço para nos inspirar, refletir e sobretudo questionar.

Ana Carolina Prado
Ana Carolina Prado

Jornalista por formação e amante de música, cultura, moda e cores, descobriu sua paixão pelo design ainda na graduação. Com o propósito de unir informação, cultura e design, encontrou no The Squad um canal direto para se comunicar com mulheres que também acreditam que a vida é feita de sonhos, ideias, amores e histórias pra contar.