O MUNDO QUE NOS INTERESSA

Dou início à minha colaboração na Coluna de Cultura no The Squad. Na hora de escolher o assunto, não vi para onde fugir – literalmente. Iniciar um trabalho de partilha em tempos de quarentena é igualmente uma grande alegria e uma grande responsabilidade.

Ora! O que será que as pessoas querem ouvir neste momento? Ou melhor, o que será que as pessoas precisam ouvir neste momento? Em cada pergunta, uma possível resposta que pode ser diametralmente oposta a outra.

Ao estar sob o grande guarda-chuva da cultura teria muitos lados para onde ir – figurativamente. Mas meu desejo é dispensar o guarda-chuva. Na tempestade cultural eu gosto mesmo é de me molhar! Ir ao encontro de cada experiência. Seja para me proteger, seja para me banhar ainda mais. Às vezes para me inserir em um cenário que me impulsiona a correr aos braço do meu amante e dar um beijo molhado. Outras vezes como uma boa desculpa para me colocar bem quentinha debaixo do edredom. Ou apenas uma motivação para simplesmente “cantar sob a chuva”.

Mas neste momento parece que nada pode acontecer, que tudo parou, que não temos para onde ir e nem experiências para nos lançar. Mas será que é isto mesmo?

A verdade é que nós, seres humanos, não somos afeitos ao pensamento. Isso mesmo. Ao contrário do que a nossa tradição ocidental cisma em nos dizer, a espécie humana não é assim tão racional e lógica. Somos seres facilmente adaptáveis e pouco questionadores. Só pensamos quando mobilizados por algo. Alguma coisa que nos atravessa e que nos coloca em ação.

O que esta pandemia nos provou foi que, embora a ciência tenha avançado e muito, ainda não faz milagres. Leva tempo para conseguir curas para novas e perigosas doenças. A própria evolução técnico-científica que nos possibilita tantos avanços nas relações
interpessoais, dos gadgets aos aviões que cruzam hemisférios, se revela agora saturada, vulnerável e insuficiente.

O homem pensou dominar a natureza ao dominar a ciência. Mas um vírus, advindo desta relação tortuosa, trouxe à luz a nossa fragilidade.

Tivemos que engolir nossa arrogância, entrar nas nossas casas e delas não sair. A quem recorremos quando nos vimos enclausurados? Isto mesmo, aos artistas, livros, filmes, visitas guiadas on-line e infinitos lives de músicos pipocaram a fim de preencher a nossa rotina que, de uma hora para outra, teve que desacelerar.

Porém, esta apologia à arte como grande salvadora da pátria por ocupar o tempo livre também é perigosa. Não sou partidária da lógica de que arte é algo trivial para nos distrair em dias cinzentos. Pelo contrário. O que este momento de crise (sanitária, social e
econômica) trouxe a tona é a relação desequilibrada entre os diferentes saberes na qual a nossa sociedade se forjou.

Colocamos a ciência como detentora de todos os caminhos e respostas, capaz de resolver todos os nossos problemas ou de proporcionar o modo de vida ideal. Isto é uma falácia. Ao estarmos demasiadamente ligados à um único saber, privilegiando o racional em detrimento ao emocional, a técnica em relação à expressão, salvaguardando o conceito como condicionador da experiência, acabamos pobres de recursos e de vivências.

“Pode-se dizer que a arte gera afetos e perceptos e cada obra que um artista compõe é uma construção de realidade que torna as assimilações destes afetos e perceptos mais duráveis”

Se a ciência é necessária para facilitar e impulsionar tecnicamente o mundo que vivemos em inúmeros aspectos – tanto que esta pandemia, apesar de severa, conta com muito menos mortos do que a gripe espanhola que ocorreu apenas há cem anos e isto, de fato,
devemos à ciência – é a arte que nos permite capturar o mundo sob outra perspectiva.

De modo abrangente, pode-se dizer que a arte gera afetos e perceptos e cada obra que um artista compõe é uma construção de realidade que torna as assimilações destes afetos e perceptos mais duráveis. Ao desvelar uma sensibilidade ou outra, nos fazem ver e sentir de
uma maneira nova, e assim nos permite abrir outras vias de compreensão sobre nosso modo de estar no mundo.

Por isso, não só para passar o tempo, mas para lidarmos melhor com a passagem do tempo. É pela arte que podemos encontrar os recursos para driblar o enfadonho e o difícil deste período. Também é o que auxilia enxergar o que há de belo e fugaz. A arte não nega o lado sombrio da vida mas, justamente, nos ajuda a enxergar aquilo que há de mais obscuro em nós. Os artistas criam oportunidades para nos expandirmos internamente. Se nos voltarmos a arte neste momento, podemos sair deste período de hibernação nas
cavernas ainda mais iluminados.

Mas veja, não se trata de estabelecer uma hierarquia entre arte, filosofia e ciência, mas sim de defender que estas competências se estimulam mutuamente, funcionam numa dinâmica de interseções. Além de romper com este paradigma, acreditar que não apenas a arte, mas todas estas são atividades criadoras. Porém, cada criação é singular por criar um certo tipo de realidade.

O que eu costumo dizer é: se você tiver um ataque cardíaco, por favor, procure um médico. Agora, se você estiver com um coração partido, por favor, procure um artista.* (*Ao persistirem os sintomas um psicólogo deverá ser consultado).

Em tempos de COVID-19, que nos vemos em uma situação limite raramente experienciada coletivamente, procure a todos!

Torcemos para que os cientistas encontrem curas ou recursos para aliviar o sofrimentos daqueles infectados. Precisamos – e muito – daqueles que fazem os serviços diários para manter nossas vidas minimamente dentro de uma normalidade: ruas limpas, alimentos na prateleira, cidades protegidas. Os psicólogos e filósofos nos auxiliam a compreender e encontrar balizas para melhor lidar com esta situação tão particular. Os artistas, por sua vez, nos ajudam a sentir com e pela desordem. Nos inserem na experiência e ajudam a traçar um plano de composição no caos e assim, nos põem a caminho do mundo que queremos.

Ao pensar em cultura penso em pessoas, tradições e possibilidades de encontro. É pela arte que opero um recorte para assimilar este caldeirão de experiências. Porém, o que se tornou essencial para mim ao falar de arte é conseguir oferecer ferramentas para que as
pessoas ganhem autonomia e ao mesmo tempo gosto ao se aproximar de quadros, esculturas, livros, espetáculos, músicas, poesia… Retirar a arte de um pedestal e trazê-la para perto de todos. Desmistificar a ideia de que para se relacionar com arte você precisa ser um grande conhecedor, um erudito, um bibliógrafo. Ao mesmo tempo, reafirmar o lugar da arte como pilar fundamental para um melhor operar da nossa sociedade. Desmantelar o paradoxo da função na arte e conduzir para o lugar da experiência, da contemplação, do sentir.

Sigo nesta trilha e meu entusiasmo é convidar as pessoas para descobrirem em conjunto novas formas de ver, ouvir, ler, comer, dormir, transar, andar,___________ (preencha aqui com um verbo).

Com esta coluna, mais do que oferecer respostas desejo levantar questões para refletirmos juntas. Embaladas pelo livre pensar, amparadas pelo bom ouvir, munidas de um contínuo (re)escrever…Uma troca que se inicia e me faz retornar às minhas origens. A um pensar desinteressado sobre os mundos que tanto me cativam: o nosso e os que os artistas revelam possível.

Maria Manuela Moog
Maria Manuela Moog

Graduada em Artes Cênicas e Pós-graduada em Arte e Filosofia pela PUC-Rio. Se encantou pelo universo artístico aos sete anos quando interpretou um duende na peça de teatro da escola, e desde então é uma operária da arte. Diretora, dramaturga, atriz, curadora e o que mais interessar nesta jornada. Acredita que pessoas interessadas são pessoas interessantes e a melhor forma de absorver experiências é pelo afeto. Por isso, procura criar e fomentar arte em todas as esferas. Instagram @manuelamoog.