& NOSSA LIBERDADE INCENDIÁRIA

EXT. CINEMA – TARDE

Encaro a saída de emergência como quem antecipa o golpe. A placa reluta, esquecida. O letreiro é o único que pede socorro. Anuncia o filme de meses? décadas? séculos atrás em letras garrafais.

– dou zoom out

O bilheteiro está ali. A baleira está. O carrinho de churros. A fila, a pontualidade, as mãos, o atraso entrelaçado, o beijo, a ansiedade, o encontro alongado, o cheiro de pipoca, o frisson, a concentração de cabelos grisalhos, é sessão da tarde

poderia ser

ainda,

mas é + imagem congelada

no arquivo do google maps.

Alguns cigarros

fumados ½ dúzia

de latas de cerveja

& a ausência

da barra de chocolate

na cozinha indicam que os dias têm sangrado de um vermelho mais espesso: sou válvula, escape, a emergência é, via de regra, uma saída vermelha. Descascar tomates. Picar cebolas. Desejar morangos. Lembrar o quanto a solidão de um cômodo pode carregar um prefixo no umbigo. Fatiar abobrinhas. Acumular o lixo até não poder cuspir – abobrinhas em público.

A sequência repetida em movimento contínuo me transporta às palavras de Q.

O cotidiano

enquadrado não dá

um roteiro de ficção

Q. nunca pôs os óculos de férias. E esta era sua habilidade mais hipnotizante: provocar a sensação de que o mundo havia nascido com seus 9 graus de miopia. Devorávamos tudo o que sequer tinha descanso para decantar em nossas pernas despidas: empadinhas, mentirinhas, o diminutivo aumentava nosso apetite, frases, silêncios, diálogos, drops de anis, planos, sequências,

        nunca engolimos as sentenças.

Um buzinaço do lado de fora interrompe o trânsito pela minha indigestão literária. Corro até o novo queixo do mundo: da janela, avisto um carro verde claro. Meu cérebro rechaça a física newtoniana, me alerta em questão de sinapses: não se fabricam carros verdes claros como antigamente. Da beira da minha sacada acena um Thunderbird 1996.

EXT. RUA – TARDE

Duas mulheres assobiam e balançam os braços descontinuamente. Quando ameaço associar os gestos à minha aparição,

– Como é, mulher? – a que carrega um lenço no cabelo, para tragar o tabaco, acende minha excitação;

– Nem pense em cogitar duas vezes! – a que se senta no capô, bagunça o restante das minhas cinzas, como se me levasse a questionar se algum dia meus resquícios estiveram mesmo ali;

Corro até o quarto na tentativa de pisar em um terreno menos movediço. Rosto colado ao computador, encaro na tela a imagem que congela a espinha dorsal.

+ dou zoom in

Ainda insuficiente,

+ zoom in

A contração estática dos músculos de um casal me leva a uma irritação besta. Nunca me dei bem com tecnologias – por mais pitorescas que sejam,

arrasto insistentemente para cima

Finalmente: o letreiro. Deslizo calmamente pelas letras garrafais. Soletro, cada uma delas, solitariamente. Em voz alta. Tê. Agá. Ê. Éle. Ême. Á. Paro no &. Afasto a cadeira na correspondência de um zoom out. O ângulo exato para enxergar a mala que me espia, pelo corredor.

EXT. RUA – TARDE

As duas mulheres apontam uma polaroide na direção contrária. Há tempo de descer as escadas, ser puxada pelo braço,

e na fotografia de Thelma & Louise

caber o semblante estupefato de Leocádia.

transitamos por uma cidade

que volta a se vestir

precocemente

– Você costuma entrar no carro de desconhecidas com que frequência semanal?

Antes que eu pudesse assimilar uma réplica,

– Não liga pra Thelma, essa é a forma dela dizer que está animada de ter você aqui com a gente.

– A Louise é tão romântica que só me resta acreditar que o amor mora mesmo na diferença.

Percebo que o roteiro não parece estar seguindo a narrativa de décadas passadas.

– Ela está exatamente onde combinamos?

– Ela sempre está à frente. De tudo.

Em questão de palavras cortantes, chegamos ao cinema congelado no tempo. E no espaço. A diferença, para além de zoom in e zoom out, é que estamos cobertas por uma nuvem de fuligem. Um acesso de tosse impede que qualquer uma de nós se comunique. Da mesma poeira vermelha e espessa, irrompe uma mulher. Ilesa. Ela entra no carro e se senta friamente ao meu lado. Repousa entre suas pernas desnudas um galão de gasolina.

Thelma pisa fundo. Não há tempo para que nada seja dito. Mas uma fenda na névoa gris me permite enxergar o cinema, intacto. Uma pilha colossal de placas e jornais que anunciam a reabertura, em chamas.

Em questão de silêncios rodados saímos da cidade. Não demora vogais para que uma sirene nos acompanhe.

Somos eu, Thelma, Louise, Shoshanna

                                                                                      e nossa liberdade incendiária.

Luiza Prado
Luiza Prado

Autora, roteirista e diretora, além de investigadora de palavras & movimentos no laboratório de práticas artísticas narrativas em tempos suspensos. É formada em jornalismo pela PUC-Rio, com extensão em cinema pela NYFA, em NY, e roteiro cinematográfico pela EICTV, em Cuba. Coordena o @existe1fenda. “Tudo o que há flora”, sua primeira peça, ganhou o prêmio de melhor texto pelo 6° Prêmio Botequim Cultural (2016).