MEIA NOITE EM IPANEMA

*Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (ou licença poética).

23:58

Eu.

Steamer.

Arara de roupas dobrável.

Mala de figurino.

Sacola com, aproximadamente, 467 cabides.

Máscara – feita por moi – combinando com meu outfit, cobrindo nariz, boca e queixo (e mais 7 dentro da mochila).

Frente fria no Rio de Janeiro.

À espera.

00:00

Chega a van. Pontual, nossa! Um modelo antigo – job hispter, já vi.

A assistente de produção, de máscara e face shield, pula do banco do carona e abre o bagageiro pra mim.

Coloco as coisas, tenho minha temperatura medida e sou pulverizada antes de entrar na van.

Encontro três figuras de vestido de cetim colorido e penteados perfeitos cheios de laquê – o elenco já tá vestido? Pra que que me chamaram?!

E porque tá todo mundo sem máscara?! Tão doidos? Uai, cadê a menina da produção?!

“Ei, pera, eu te conheço, e você também… Moço, onde fica o estúdio?”

“Estúdio? Me pediram pra levar vocês pra uma festa na Lapa, num tal de Coisa Mais Linda. Já ouviu falar? Parece que a dona é meio libertina… Sabe, não acho coisa de moça direita ter uma casa noturna, mas aquela Ella vai tocar lá hoje.”

Ella!? E quem ainda usa o termo “libertina”? Mas Ella Fitzgerald?!

Minha Cher, me prendi num filme do Woody Allen. Comé que faz pra sair?

Pera, eu quero sair?

Sorrisão no rosto – que não faz diferença por, né, máscara:

“Oi Malu! Oi Adélia! Oi Thereza! Não acredito que vocês conseguiram um show da Ella!”

Elas, animadas, parecem não estranhar minhas leggings e coturnos. Nem que nunca me viram antes na vida.

“Jura que não conta pra ninguém? Mas a Ella não vem…”

“A impediram de embarcar dos Estados Unidos pra cá, só porque ela é negra!
Estamos devastadas. Mas essa van vai buscar a nossa nova estrela!”

“A Ivone?”

“Comé que você sabe?”

“Hum… Digamos que um passarinho me contou numa bossa que eu ouvi.”

“O Chico não fica quieto mesmo… Vem cá, porque você tá com essas máscara?”

Se eu contar sobre o novo coronavírus pra personagens dos anos 60, eu posso entrar num paradoxo do avô e mudar a historia?! Eita, acho que to vendo Dark demais. Mas por via das dúvidas…

“Ah, coisa de figurinista, pra proteger o elenco, sabe? Mas vocês já tão todas vestidas… Eu vou vestir a Ivone?”

“Vai! Desculpa não avisar antes, mas nessa loucura da Ella, não deu tempo de nada além de convencer o Vinícius a abrir o show e enrolar enquanto a gente acertava tudo.”

Ivone entra na van, radiante, me olha meio estranho – aff, vou tirar essa máscara logo, depois de 3 meses em casa dando banho em pacote de arroz e encontrando um total de 0 pessoas, não tem como eu ter essa coisa. E isso só pode ser um sonho também. Será que eu dormi depois de 6h de maratona de Netflix?

“Ai, Malu, eu to com muito medo…”

“Ivone, sua voz é maravilhosa e você tá treinando há semanas! Mais do que na hora de pôr seus talentos à prova. Já já você tá famosa igual à Ella!”

“Eu tenho medo, Malu. Não é fácil subir na vida sendo mulher e negra nesse país. Mas não é isso que me assusta, não. É o fracasso. Eu tenho tanto medo de errar que eu prefiro nem tentar.”

Será que nos nos 60 já tinham o conceito te ansiedade e autossabotagem? Melhor eu ficar quieta.

“Se os nossos sonhos não assustam a gente, eles não são grandes o suficiente.”

Cadê minha pipoca pra assistir esse diálogo, gente? Esses roteiristas!

Chegamos à casa de shows e eu me surpreendo demais por ser um lugar inteiro, em plena rua na Lapa! E não um monte de tapadeiras num estúdio (coisa de diretora de arte, perdão). Me arrastam direto pro camarim e saco da mala um vestido de tafetá ombro a ombro laranja absolutamente perfeito! Nem a Ivone acredita na sorte de caber direitinho! Mas permanece uma pilha de nervos, tadinha.

Diva pronta! Saio para o salão e Vinicius de Moraes está no meio de _Samba da Bênção_, falando que mulher tem que “_ter qualquer coisa além da beleza_”. Eu não to pronta pra ouvir essa parte da música ao vivo sem voar no pescoço dele, alguém me segura.

“_Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher_” – e eu tenho que agradecer ao patriarcado por essa beleza?!

“_Feita apenas para amar_”. MEU FILHO, cê tá num bar de uma empreendedora mulher! Nem Carrie Bradshaw concorda com isso, meu deus. Respira, Batata… Cadê a Ivone?

Pro meu alívio, Malu sobe no palco, desculpa a ausência de Ella e apresenta Ivone, que começa, ainda tímida, com a atrevisíssima _Pra Que Discutir Com Madame_, quando está, exatamente, jogando na cara de todas aquelas madames ali que ela veio dar valor ao samba.

Em pé ao lado do bar, olhei ao redor e vi os belos casais de novela hétero normativa branca. Pareciam um pouco incomodados, mas apreciavam aquela voz doce e certeira. Me perguntei porque Ivone estava com medo e me lembrei de que, se ela não estivesse no palco, dificilmente estaria sendo admirada sem ser meramente sexualizada. A elite ama as vozes negras nas artes, mas eu percebi que o medo era social; político.

Queria ficar mais, mas percebi que estava dando a minha hora. Subi as escadas e andei um pouco, cheguei na Cinelândia e o McDonalds tava ali. Fechado. As pessoas circulavam de máscaras, já tinha amanhecido. Lembrei em que ano eu estava e saquei logo máscara e álcool gel da mochila. Ai, eu ai voltar de van pra casa… Vou ter que chamar um uber agora, Woody Allen que me salve.

Depois que eu sair dessa, desinfetar os sapatos e tomar banho, preciso terminar a minha maratona de passar raiva de macho que faz a mulher de doida, mata mulheres, criminaliza o aborto e abusa sexual, física e psicologicamente em seus relacionamentos.

Essa maratona que me faz passar raiva também do brasileiro médio que se acha burguês e vive numa bolha racista e retrógrada; que cala a minoria na primeira oportunidade e não entende lugar de fala e de escuta; que não vê o problema em si mesma, mesmo olhando apenas pro próprio umbigo o dia todo.

Mas, mais que tudo, essa maratona me faz ter orgulho de ser mulher e de continuar essa luta que começaram por mim há mais de 60 anos.

Esses padrões precisam ser mudados. Já percorremos um grande caminho mas, se identificar tanto com uma série que se passa em 1960 é uma bela bandeira vermelha, não?

Batata Rodriguez
Batata Rodriguez

Batata é arquiteta, figurinista, diretora de arte e ilustradora. Formada pela PUC-Rio e EBAC e especializada pela AIC e Senac, cresceu no Rio e se mudou para SP em 2018, onde descobriu que existe amor sim, principalmente nas galerias de arte e cafés escondidos por aí.