HIPERROMÂNTICA

Jogada no sofá, com a companhia do dog e os milhos salgadinhos do que já foi um balde de pipoca. Ele Não Está Tão Afim De Você, visto incessante e religiosamente desde os meus 16 anos, tá acabando. Eu já sei a fala de cor:

“Ensinam muitas coisas às garotas: Se um cara te machuca, ele gosta de você; nunca tente aparar a própria franja; e, um dia, você vai conhecer um cara incrível e viver feliz para sempre.
Todo filme e toda história implora para esperarmos por isso: a reviravolta no terceiro ato, a declaração de amor inesperada, a exceção à regra.
Mas, às vezes, focamos tanto em achar nosso final feliz que não aprendemos a ler os sinais, a diferenciar entre quem nos quer ou não, entre os que vão ficar e os que vão te deixar. E talvez esse final feliz não inclua um cara incrível.
Talvez seja você sozinha recolhendo os cacos e recomeçando, ficando livre para algo melhor no futuro. Talvez o final feliz seja só seguir em frente. Ou talvez o final feliz seja isso:
Saber que mesmo com ligações sem retorno e corações partidos, com todos os erros estúpidos e sinais mal interpretados, com toda a vergonha e todo constrangimento, você nunca perdeu a esperança.”

“BULLSHIT!”, não consigo não gritar pra tv.

Pepe me olha desconfiado, mas volta a descansar a cabeça na almofada.

“Olha, super tem sua verdade aí, eu sei. Acho lindo que fala que nosso final feliz não depende de um cara que não tá tão afim da gente, Gigi, mas o filme acaba com ela sendo a exceção dele! E a amiga que tava com o que não ia casar jamais, casa! Aff. Tá, Pepe, eu sei que a Scarlett e a chata terminam sozinhas se descobrindo, mostra outros finais. Mas cê tá vendo que os outros são baseados em mudar um cara?!”

Pepe parece não estar convencido com meu discurso e sai do sofá, me deixando ali, abandonada, num bololô de cobertas e almofadas e vontade de mais pipoca.

Dia frio e chuvoso: perfeito pra maratonar e criticar comédias românticas.

Coloco Megarromântico e vou fazer minha outra pipoca. Preciso dessa perspectiva ainda mais pessimista hoje. Ou realista? Mas, gente, meu pé não sai daqui, comé que eu me enrolei tanto?

AI MEU DEUS AAA

Preto.

Latidos.

Luzes fortes demais.

Por que minha cabeça tá doendo tanto?

Abro o olho e estou no hospital mais bonito do universo.

Ai não, to presa num filme de novo.

“Ô produção de locação, esse negócio de pegar quarto de hotel e mudar a cama não funciona, não! Fica fake, hein!”

“Com quem cê tá falando, Batata?”

Olho pro lado e minha cara favorita do mundo tá ali. Aff, é filme mesmo.

“Rod? Que que cê tá fazendo aqui?”

Sim, Rodrigo. O infame melhor amigo por quem eu sou apaixonada há anos e não quer nada comigo, claro. (A não ser quando a gente tá bêbado, ops).

Óbvio que ele tá aqui. Quem mais estaria? Minha mãe?

Nem pra me trazer um médico gato, nãaao! Tinha que ser a pedra no sapato.

É agora que ele se declara? Cadê meu roteiro?

“Graças a deus você acordou! Batata, eu tava indo na sua casa porque eu precisava demais te contar uma coisa e—“

“Não precisa falar nada, Rod, eu sei de tudo, eu sei que eu to presa aqui e que a gente tem que se apaixonar e dar ‘o beijo do verdadeiro amor’ em três dias pra minha vida voltar ao normal e isso tudo ser platônico e—“

“Que que cê tá falando?!”

“Que eu sei que você me ama e eu acho que te amo também e agora que não é mais coisa da minha cabeça só parece esquisito—“

“Amiga”

“—mas a gente tem que deixar acontecer e o mundo vai voltar ao normal. Minha Cher, isso é estranho mesm—”

“Batata!”

Ok, é agora que ele me beija. Eu quero isso? Ai, to confusa.

“Eu sou gay.”

Tela azul.

“Roteirista, esse plot twist eu não esperava mesmo, mas comé que eu saio desse limbo então? O médico gato ainda vai chegar e agora eu tenho o cliché do melhor amigo gay?!”

“Amiga, com quem diabos você tá falando?! Quer que eu chame a enfermeira? Cê tá bem?”

“Ai, xuxu, a gente tá numa comédia romântica, não dá pra terminar assim.”

“Olha, eu to atrasado já, vou chamar uma enfermeira quando sair, ok? Mas que bom que você acordou! Sua mãe já deve estar chegando também.”

“Rod, eu to num filme?”

“Cara, não… Descansa aí, amanhã te conto do meu date com o boy novo, que já tá esperando há 2 horas, coitado. Te amo, amiga.”

Date? E não é comigo?

Será que isso não é um filme?

Se fosse, era preu estar aliviada que o Rod é gay, na real? Já tinha que ter chegado mais alguém pra ser o amor da minha vida, não? E eu ia sentir tanta dor de cabeça?

Santa Cher, isso aqui é vida real e eu só bati a cabeça mesmo…

É, se isso fosse um filme, eu seria a Manic Pixie Dream Girl fofa por ser tão desastrada, não a garota com dor e um galo na cabeça.

Ele fecha a porta e, enquanto um médico (não gato, pena) entra lendo minha ficha, já tô ouvindo minha mãe “Mais um amigo gay, Camila? Assim cê nunca vai arranjar um namorado…”

Acho que ela que vive num filme. Ah, pera, se chama sociedade patriarcal mesmo. Que impõe essa necessidade de um final feliz com um cara.

E não, não sou avessa a relacionamentos, inclusive já tive, mas por que tem que “dar em algum lugar”? Por que tem que ser tudo bonito? Por que eu tenho que almejar isso com todo o meu ser a minha vida toda? Por que realmente eu não posso me bastar?

Olha, to muito feliz pelo Rod e muito feliz em ficar, literalmente, pra titia e focar no meu trabalho e amigos e aproveitar meu processo.

Tô descobrindo a vida sozinha, montando minha casa, me jogando no mundo freela do cinema e vivendo meu dia após dia. Não precisa de final feliz, isso é muito maquiavélico.

Pensando bem, final pode até ser feliz, sim. Mas quando eu morrer, não quando eu casar, me poupe. Tem muita vida pela frente.

Se eu parar de ser tão estabanada.

Batata Rodriguez
Batata Rodriguez

Batata é arquiteta, figurinista, diretora de arte e ilustradora. Formada pela PUC-Rio e EBAC e especializada pela AIC e Senac, cresceu no Rio e se mudou para SP em 2018, onde descobriu que existe amor sim, principalmente nas galerias de arte e cafés escondidos por aí.