EXTRA! EXTRA!

“Número de mulheres na direção de grandes filmes atinge recorde”

Letras garrafais aparecem no meu celular enquanto organizo os figurinos. Depois de um longo dia de trabalho, com muitas dores de cabeça num set liderado por homens, abro o link com a expectativa de um necessário coração quentinho.

“As mulheres representavam quase 11% dos diretores dos 100 melhores filmes lançados em 2019” dizia o subtítulo.

Pera, eu tava na mesa do catering pegando um cafézinho. É isso mesmo? Releio. Sim. “11%”.

11%!!!!!!!!1!!!1!!!!!11!!!!!ONZE!!!

Quase cuspo o meu café. Mas pego um biscoitinho pra me acalmar.

Isso foi um recorde.

Nunca, na história do cinema, tantas mulheres dirigiram grandes filmes.

“Tantas”.

Onze porcento.

Eu preciso de outro biscoitinho de goiabada.

“Já vi tanto homem conseguir patrocínio com a ideia pela metade e tanta mulher receber muitos nãos com histórias incríveis que precisavam ser contadas…”

Olho em volta de mim. Ainda desproduzindo o set, está uma linda equipe de maquinária composta por 3 mulheres. Nenhum homem. No departamento que mais pega peso e corre riscos. Isso sim é o coração quentinho que eu precisava. Que força. Que orgulho de trampar com elas.

Nesses três anos trabalhando como diretora de arte e figurinista, em 90% dos casos, eu era a única líder de equipe mulher. Departamento de arte, né, ah, precisa de sensibilidade, saber de beleza e estilo… De boas ser mulher.

Mas direção de cena? De fotografia? Quem vai obedecer a uma mulher?! Ou pior! Quem vai comprar a ideia de um filme de uma mulher?!

Já vi tanto homem conseguir patrocínio com a ideia pela metade e tanta mulher receber muitos nãos com histórias incríveis que precisavam ser contadas…

Peguei minha bolsa, saí do set e fui indo para a van (claro que até o motorista era homem).

Fui pensando nisso no caminho para o hotel. Me deu uma vontade de começar algo meu. Só que me deu um medo também, sabe?

Fui fazer uma rápida pesquisa sobre probabilidades e descobri que eu já faço parte dos lindos 20% de mulheres que trabalham por trás das câmeras. Mas eu quero mais. Não quero continuar corroborando pra dar voz a histórias masculinas.

Eu sonho demais, né?

Mas a lição mais valiosa que eu aprendi nesses sets da vida foi: se a gente não colocar os peitos na mesa, não chegaremos a lugar nenhum.

Cheguei no hotel, chutei os sapatos e me joguei na cama. Fui buscar inspiração.

Achei 10 minas incríveis que fizeram seus próprios documentários, todos sendo exibidos gratuitamente, por streaming do SPCine, no Festival É Tudo Verdade, até o dia 23 de Junho.

São histórias sobre o Brasil, o sertão, os índios e uma cidade isolada (Aboio, O Segundo Encontro e Os Melhores Anos de Nossas Vidas); maternidade, vulnerabilidade e criminalidade (O Aborto dos Outros e Mexeu Com Uma Mexeu Com Todas); divas brasileiras – ou abrasileiradas (Carmen Miranda e Dona Helena); amores e dores, questões familiares e lendas urbanas (Domingos, Um Passaporte Húngaro e Nasceu o Bebê do Diabo em São Paulo).

Todas histórias verdadeiras e lindas, assim como as da Petra Costa (Elena e Democracia Em Vertigem), mas por que só esse décimo primeiro nome é reconhecido internacionalmente?

A notoriedade no mundo do cinema vem dos festivais. E todes sabemos da vergonha do Oscars 2020 com apenas melhores diretores masculinos, não é mesmo? Felizmente, apesar de ser o evento mais midiático, ele não dita o consumo de cinema mundial e muitos outros festivais se mostraram mais inclusivos.

Prêmios mais “alternativos” como Tribeca, Veneza, Berlim e o, já mencionado, É Tudo Verdade, vêm tentando mudar esse abominável panorama. Inclusive, juntaram-se em polêmicos tempos pandêmicos no inédito We Are One e, entre 29 de maio de 07 de Junho estão no Youtube em programação exclusiva aberta! Outros sete festivais online também parecem muito promissores, especialmente um com vídeos de gatinhos, fica a dica.

Tomei banho, peguei uma cervejinha, me recostei na cabeceira e fui pensando em quantas mulheres já devem ter feito filmes incríveis e sido esquecidas. Quantas obras não deixaram de ser distribuídas porque o olhar feminino “não vende”. E, mesmo os que conseguem ser blockbusters, nem se compararam aos de super heróis.

Lembrei daquele filme ridículo que troca os homens e mulheres no mundo, mas continua perpetuando os estereótipos em vez de ressignificar a sociedade. E se o mundo do cinema fosse verdadeiramente matriarcal? Horizontalidade e empatia, baby. Mas nada de tudo cor de rosa, fiquemos num lilás? Não.. turquesa…

Minha cabeça vai ficando pesada e Chaka Kahn começa a tocar na minha jukebox mental.

Whatever you waaant

Num perfeito terno florido, caminho por uma cidade grande, um misto de Chicago e Shanghai, com um calçadão de Copacabana. Chamo um táxi, entro e saio pela outra porta. Chego num estúdio enorme. Mulheres de camisas jeans, lenços na cabeça e coturno andam de um lado pro outro carregando tapadeiras e refletores, ritmadamente.

Aaanything you want done, baby, I do it naturally.

O ballet abre alas para mim e uma cadeira de diretora me tira do chão girando. Um gatinho micro cai no meu colo. Mas chego ao lado da câmera e dispenso meu posto (não o gatinho).

Não, não, aqui todo mundo é igual. Todas as vozes importam! Sororidade. Oi, querida! Vou pegar um cafézin pra mim, quer? Tem uns biscoitinhos amanteigados de morrer. Quer também, xuxu?

I’ve got it, I’ve got it, got it, baby baby!

Sorriso colgate, debulés perfeitos, pego os copos de silicone reutilizáveis nomeados e encho mais um com biscoitos.

O AD chega com sua prancheta num lindo grand jetté, as atrizes estão prontas.

Whoa! Whoa! Whoooa!

Luzes!

As gaffers apontam seus refletores pro centro do estúdio.

Câmera!

A diretora de fotografia desce numa grua ao meu lado.

Batata!

Não, pera, tá errado isso. Onde o gatinho foi?!

Batata!

Abro o olho e a Ana tá me sacudindo. Eu tenho 5 minutos pra não perder o café da manhã.

Ai ai… Mais um dia trabalhando pra homens se inicia.

Mas a luta contra o patriarcado nunca cessa.

Coloco minhas calças pretas favoritas, um blazer florido e saio pelo corredor do hotel.

‘Cause I’m every woman! It’s all in meee.

Extra! (2020), por Batata Rodriguez.

*história livremente baseada em fatos de um set ocorrido em janeiro (não em tempos de isolamento social);

**nenhum gatinho foi ferido durante a escrita.

Batata Rodriguez
Batata Rodriguez

Batata é arquiteta, figurinista, diretora de arte e ilustradora. Formada pela PUC-Rio e EBAC e especializada pela AIC e Senac, cresceu no Rio e se mudou para SP em 2018, onde descobriu que existe amor sim, principalmente nas galerias de arte e cafés escondidos por aí.