ESTÁTUAS NÃO CHORAM, ESTÁTUAS FALAM!

Ao contrário do que se poderia esperar do período marcado por uma das mais severas pandemias do último século, espaços públicos foram tomados! O motivo da quebra da quarentena não foi leviano: mutirões foram às ruas clamar por justiça. Um novo caso de excesso de força policial que levou à morte de mais um homem preto, George Floyd, foi o estopim para que uma nova onda do movimento antirracista ganhasse força e se esparramasse por vários cantos do mundo.

Embora haja neste episódio muitos pontos importantes e urgentes a serem discutidos, parece que o que realmente ganhou os holofotes do debate foram as tais das estátuas. Mas não à toa. Da América à Europa foi um tal de pichar, depredar e derrubar monumentos e algo, que não as estátuas, foi deslocado. Em resposta, “na mesa de bar”, ouvi de um lado “vandalismo é vandalismo!” e do outro “tem que derrubar tudo mesmo!”. Achei chato, pois com nenhuma destas posturas o chopp rendeu. Por isto, me pus a refletir. Afinal, porquê o diacho das estátuas?

Bom, as estátuas, assim como os grandes monumentos, praças, memoriais, pontes e demais arquiteturas forjam a identidade de uma cidade. A escolha sobre aquilo que irá ornar e delinear o mapa de cada região não é feita sem critérios mas intencionalmente dotada de sentido político. Há por trás de cada escolha o desejo em demonstrar poder, criar memória, homenagear alguém ou celebrar uma conquista. Ou seja, cada sociedade encontra modos de articular esteticamente algo que foi importante naquele presente histórico mas com aspirações futuras. Esta combinação faz dos monumentos uma fonte de reflexão e também de conflitos! 

Assumo aqui que o que está em questão não é a estátua em si, mas o que ela representa, seu valor simbólico. Assim, o que torna as pessoas tão passionais quando se fala sobre derrubar ou não estatuas, se é vandalismo ou ativismo político, se é violência ou manifestação pacífica, não é o objeto em si mas as narrativas e qual delas deve prevalecer.

Ao longo da história vemos que nações substituíram e renomearam seus monumentos, como por exemplo, a França após a Revolução Francesa que não sendo suficiente guilhotinar as cabeças da realeza haveriam de reorganizar Paris de acordo com valores alinhados aos seus ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade”. Da mesma forma, a Alemanha pós Hitler não quis deixar nem resquício dos símbolos nazistas. Em seguida, não perderam tempo em erguer memoriais para que aquela triste parte da história não fosse esquecida e corresse o risco de se repetir.

Ou seja, monumentos são construídos e destruídos de acordo com o movimento da história. Mas não se sobrepõe a esta. E aí é que está o problema! O que vimos acontecer e o que aflorou os nervos foi esta disputa de narrativa onde não foi possível encontrar um consenso. Ao mesmo tempo, as estátuas diferem de monumentos e demais estruturas arquitetônicas por não terem nenhum valor econômico agregado. Assim, são mais passíveis de serem derrubadas. Como é óbvio, não se derrubam pontes como se derrubam estátuas. A essas, cabem outras medidas simbólicas, como por exemplo, renomeá-las. Acredito que podemos empregar as mesmas medidas simbólicas às estátuas, pois, ao contrário do que ocorreu nos exemplos acima, não se trata de uma revolução ou guerra, mas um processo que permeia a cultura, o cotidiano, e assim, sobra margem para o debate – e que bom! 

Certamente é frustrante quando as pessoas não enxergam o óbvio ou preferem tratar levianamente certos assuntos. Mas o problema é que o ser humano é contraditório por natureza e mesmo talhados em bronze ainda é passível de inúmeras interpretações. Às vezes, são erguidas homenagens nas melhores das intenções, mas aqueles que o fizeram  estavam cegos de um olho e só podiam enxergar um lado. O que ocorreu nestas últimas semanas do BLM foi uma forma eficiente para que estas pessoas tivessem que abrir o outro olho e, ainda que com a vista ofuscada, revisitaram suas premissas.

Poréeeem, convenhamos que é muito mais fácil destruir monumentos do que ideologias. Embora não condene a destruição de estátuas, a derrubada irrefletida pode ter um efeito colateral muito danoso para o próprio grupo que utiliza esta ação como forma de “reescrever a história” . Cabe ser estratégico.

Foi neste intuito que o artista Banksy fez uma proposta para o conflito em torno de uma destas estátuas bastante contraditórias localizada na cidade de Bristol, na Inglaterra. Resumidamente, trata-se de um senhor chamado Edward Colston que foi um grande filantropo e desprendeu muitos recursos para o desenvolvimento da região. Muito bem! O problema é que esta grande fortuna doada para a caridade e aplicada na educação foi feita às custas do comércio de escravos.

Então vem os argumentos, “não podemos julgar essa pessoa de acordo com as sensibilidades do nosso tempo!”. Como não? Podemos e devemos. Se hoje em dia tem boicote à Zara porque ela faz uso de mão de obra escrava, se há um grande fuzuê sobre comer o ovo da galinha criada em cativeiro, significa que já temos os parâmetros para questionar esta narrativa. Faz diferença sim saber de onde vem o dinheiro da caridade! Mas isto é óbvio para mim, e talvez para você, caro leitor. Mas ainda não é para todos. As questões andam mais complexas pois, como o próprio coronavírus nos provou, hoje, vivemos em escala global. Nesta visão mais ampla, julgo que também posso estar com algum ponto cego e por isso acho a estratégia de Banksy tão bacana!

O artista, com a sagacidade que lhe é própria, encontra as brechas entre estes dois blocos e traz à luz aquilo que escapa às medidas mais cabais, nos auxiliando a enxergar o que está nas entrelinhas das narrativas. Ele propôs retirar a estátua de Colston do rio onde foi lançada, recolocá-la no local de origem, porém, sobrepô-la com outro monumento em celebração ao movimento BLM: uma corda no pescoço de Colston e pessoas no entorno derrubando-a. Fica assim marcado este dia para refletirmos e comemorarmos um passo a mais nesta importante revolução que está em curso.

Como é próprio das suas criações, Banksy fez uso das mesmas ferramentas que o status quo utiliza para se auto-vangloriar, mas contra eles. Ora, se as estátuas são importante para celebrar e eternizar um momento histórico ou uma figura pública, façamos isto com os civis deste importante movimento o qual, ops! o Colston também faz parte, mesmo que no outro extremo.

Faço uma mea-culpa aqui sobre a proposta de Banksy que é: acho que no caso da estátua de Colston a simbologia de a ter “afogado” no rio, da mesma forma que muitas pessoas escravizadas eram jogados ao mar, é um gesto e tanto! Porém, como foi feito em meio a tantos outras derrubadas e intervenções irrefletidas, diluiu seu potencial simbólico. O que Banksy conseguiu resgatar, e se valendo de sua visibilidade enquanto artistas aclamado, foi o importante papel da arte em meio a momentos conturbados. A sua proposta demonstra esta sutileza expressiva da arte, que ao escapar das medidas mais convencionais e absolutas, mobiliza outras camadas sensíveis, menos a flor da pele e mas ao encontro do caráter visceral da questão.

Ao longo da minha pesquisa percebi que outras medidas semelhantes à proposta por Banksy já haviam sido feitas. Performances e instalações efêmeras foram elaboradas sobre estátuas como a de Colston e outras. Estas medidas pacíficas mas não menos contundentes podem ser um caminho mais acertado para mover os afetos e pensamentos em torno de um problema espinhoso e não prescindem de um estopim político. Ao mesmo tempo, exige daqueles que praticam estas intervenções ponderar sua ação – o que pode vir a potencializá-la! Afinal, o que esta estátua nos diz? Quais são seus pressupostos e o que deles precisa ser revisto?

O que este episódio das estátuas nos fez lembrar é que entrar em diálogo com a simbologia da cidade é fundamental. Cabe olhar cada canto como um lugar político [da polis] e passível de intervenções o tempo todo, seja você um artista ou não. Banksy faz isto como ninguém: sutilmente mas sem pedir licença, transforma os espaços e os reanima, devolvendo à sociedade as questões que ela mesmo gera. Não se trata de vandalismo ou de derrubar tudo! Mas talvez, esculpir em cima da escultura uma nova camada ou descascar aquilo que está enferrujado e assim possibilitar uma nova apreciação estética, política e histórica. 

Maria Manuela Moog
Maria Manuela Moog

Graduada em Artes Cênicas e Pós-graduada em Arte e Filosofia pela PUC-Rio. Se encantou pelo universo artístico aos sete anos quando interpretou um duende na peça de teatro da escola, e desde então é uma operária da arte. Diretora, dramaturga, atriz, curadora e o que mais interessar nesta jornada. Acredita que pessoas interessadas são pessoas interessantes e a melhor forma de absorver experiências é pelo afeto. Por isso, procura criar e fomentar arte em todas as esferas. Instagram @manuelamoog.