ESTADO ZERO: MINISSÉRIE SOBRE REFUGIADOS É NECESSÁRIA

26 milhões. Segundo relatório da Agência da ONU para refugiados (ACNUR), até dezembro de 2019, esse era o número de pessoas refugiadas no mundo. Apesar do número assustador, ainda falta compreensão sobre a urgência do tema. No meio audiovisual, não é diferente. As obras que abordam a temática recebem menos destaque do que deveriam. E a crise humanitária que o mundo vive precisa ser retratada de todas as formas, pelos quatro cantos do mundo.

Nesse sentido, é importante falar sobre a série lançada pela Netflix no dia 8 de julho de 2020. Estado Zero (Stateless, em inglês), é um esforço para chamar a atenção para o assunto. Original da emissora ABC, a minissérie conta com 6 episódios e 4 personagens principais em diferentes situações de vida. O que eles têm em comum? Um campo de refugiados. 

O drama australiano conta com a produção – e atuação como coadjuvante – de Cate Blanchett e contém duas narrativas que se entrelaçam. Baseada em fatos reais, o fio condutor é a história de Sofie Werner, interpretada por Yvonne Strahvoski, conhecida por seu papel em The Handmaid’s Tale.

Sofie é a representação de Cornélia Rau, cidadã australiana que passou 10 meses em um campo de refugiados em seu próprio país. Sua história chamou atenção da mídia e do mundo e os holofotes se voltaram para a existência e o tratamento dos imigrantes nesses locais.

Na minissérie, é apresentado um paradoxo entre a narrativa de Sofie e dos refugiados no Centro de Detenção Barton. Traumatizada e com transtornos psicológicos, ela tenta fugir de questões pessoais que a assombram, sem que sua família saiba. Já o objetivo maior dos outros personagens é buscar uma vida melhor para si mesmos e suas famílias. Por isso, a opção de sair de um país livre e democrático surpreende os que vêm de países que vivem em guerra e com governos ditatoriais. 

Na narrativa principal sobre o refúgio, o afegão Ameer (Fayssal Bazzi) é o destaque. Ele é um dos que tentam, a todo custo, oferecer melhores condições de vida e liberdade à sua família. A história dele é contada desde o processo de saída do Afeganistão e representa a de milhões de imigrantes. 

A série conta ainda com mais dois personagens como destaque: Clare Kowitz (Asher Keddie), funcionária do governo e administradora do Centro de Detenção e Cam Sandford (Jai Courtney), pai de família e segurança do local.

Na história dos 4 protagonistas, a temática familiar chama a atenção. A lição que fica é de que, apesar das singularidades, a família é um ponto central na vida de todos. Além disso, a narrativa transmite a mensagem que a questão do refúgio machuca a todos aqueles que têm contato com essa realidade triste e perversa.

Outro ponto importante é a abordagem dos problemas e traumas de Sofie. Ainda que em segundo plano, a série mostra diversas problemáticas de como a sociedade espera que uma mulher se comporte, independentemente do país em que ela vive. Temas como abuso sexual e saúde mental também são abordados de maneira sensível.

De forma geral, Estado Zero alerta para vários assuntos necessários, sendo o principal deles a questão do refúgio. Os imigrantes são desumanizados logo na chegada ao Centro de Detenção e são tratados apenas como números. E a produção ainda mostra que o Estado é falho e opressor não só com as pessoas que não são bem-vindas, mas também com os seus próprios cidadãos. Além de Sofie estar ali por engano, os guardas e a administração do local são constantemente forçados a deixar seus ideias de lado e aceitar a violência e insensibilidade do Estado. 

A minissérie cumpre seu papel como crítica social ao mostrar os abusos vividos diariamente por milhares de pessoas. E, enquanto o mundo tenta se recuperar da pandemia é importante lembrar que a crise migratória não acabou, apenas foi deixada em segundo plano. 

Todos os episódios estão disponíveis na Netflix. 

Sofia Hermoso
Sofia Hermoso

Com 23 anos, é jornalista recém-formada pela UNESP Bauru. Segue na busca do melhor caminho para alcançar o seu objetivo: contar histórias de pessoas reais. Seja por meio da escrita ou pelas lentes de uma câmera, espera contribuir para que vidas, principalmente as quase sempre invisibilizadas, passem a ser enxergadas. Acredita no jornalismo como difusor de informações relevantes, verdadeiras e fundamentais para a democracia.