BOTANDO O MUNDO INTEIRO PRA GOZAR SEM GOZO NENHUM”

Entrei por um corredor desbotado. Um secretário pálido se aproximou com uma prancheta. Posicionei o indicador próximo a Leocádia P.M. Seus trejeitos pediram que eu esperasse. Com ênfase no pacientemente. Respondi com olhos de laranja espremida. Não era de se esperar que ele imaginasse isto: há anos não desejava companhia mais paciente do que minha perene solidão.

Sentei em uma poltrona empoeirada. O ponteiro dos minutos corria no sentido contrário. A gente nunca sabe o que esperar quando está há tempos sem arejar os dedos dos pés.

Dois meses antes

O telefone tocou meu corpo para despertar. Os cílios ainda birravam, grudados. A sensação de colocar cada vértebra no lugar precisa ser inteira ao espreguiçar. Passei café. Dancei café. Transei café. Li jornal. Cuspi. O café.

precisei insistir no ritual

O telefone tocou meu corpo para despertar. Ativei o modo soneca. Os cílios ainda birravam, grudados. Deixei que birrassem um pouco mais. A sensação de colocar cada vértebra no lugar precisa ser inteira ao espreguiçar. O estalo sabe o que diz. Passei café languidamente. Dancei café com Angela Ro Ro. Transei café por dentro. Li jornal com açúcar. Cuspi. O jornal. Ainda assim desceu amargo. O gosto me fez viajar até as palavras de Q.

                 : mais vale a amargura à
                   dita dura

Q. usava óculos e portava um semblante circunspecto. Descobrimos que isto fazia parte de seu disfarce na primeira aula do grupo de leitura.

nasci louca
meus pais queriam que eu fosse louca
os normais tinham inveja de mim
que era louca”

As leituras na voz de Q. nos produziam risos mordidos enquanto devorávamos mentirinhas na sua sala. Na sua sala bordô de jantar.

Nada na primeira. Na terceira. Na sétima prateleira. Mas há um sentido ímpar, uma inapreensão que escapa, uma intimidade forasteira que diz – Stela há de estar por aqui.
(explico: acabo de me mudar; apartamento ½ mobiliado; a outra semi ainda encaixotada. é estranho habitar, habituar-se à cabeça de outra pessoa. onde está você Stela, a precisão das memórias não engana, o pH das palavras de Q. é incontestável, onde está você)

EXT. EM DIREÇÃO AO SALÃO CINZENTO – TARDE

  – Senhora?

O secretário pálido parecia ainda mais pálido.

  – Poderia fazer o favor de te acompanhar, digo, de me acompanhar.

Tive uma vontade estúpida de rir do seu semblante esbugalhado, mas me concentrei em limpar a baba que escorria pelo canto da boca. Seguimos por um corredor ainda mais desbotado do que o anterior.

  – Ela está logo al-

As orientações dadas pelo secretário pálido se diluíram roucas pelo espaço. Alta. Negra. Incontestável. Não dizia uma palavra e isto era suficiente para que uma cratera se abrisse ao seu redor. Q. já havia nos contado sobre sua adição por cobertores e por pintar o rosto, os braços de branco. Dentro daquele lugar uniforme, Stela do Patrocínio era uma força da natureza.

Por um tempo me demorei. Observando Stela. Lendo Stela. O ponteiro dos minutos aproveitou para disparar cem metros rasos. A coragem de me aproximar ficou para trás. Fomos nos encontrar quando risquei um fósforo na

EXT. ÁREA DE FUMANTES – TARDE

Stela se aproximou como quem fareja a semelhança. Espichou o nariz. Acendi nossos cigarros com a chama do fósforo apagado. O olhar, aceso. Após a primeira e longa tragada, seu nariz permanecia arrebitado. Lembrei de Q. confessando que dividia com Stela os mesmos vícios miúdos: leite condensado, coca-cola, biscoito de chocolate, óculos de sol, maço de cigarros e caixa de fósforos. Um estoque incendiário por um nariz no lugar me pareceu uma troca justa.

Uma agitação repentina deslocou Stela dali. Ela metia e tirava as mãos no bolso
repetidamente. O sol rasgava as nossas pupilas no momento em que Stela finalmente ergueu as mãos em direção ao último raio de luz. Da sombra de suas mãos surgiram os óculos de sol.

eu já não tenho mais voz
porque já falei tudo o que tinha que falar
falo, falo, falo, falo o tempo todo
e é como se eu não tivesse falado nada
eu sinto fome matam minha fome
eu sinto sede matam minha sede
fico cansada falo que tô cansada
matam meu cansaço
eu fico com preguiça matam minha preguiça
fico com sono matam meu sono
quando eu reclamo”

Stela se sentou. O silêncio se fez novamente. Ficamos as duas ali, a mirar a noite ninar o dia. Até os ponteiros do relógio se aposentarem. Exaustos.

No corredor, agora menos desbotado, o secretário pálido corria igualmente esbugalhado:
– N-nunca perdeu a lucidez…!

  – Talvez já tivesse perdido coisas demais pelo caminho – respondi, desta vez com olhos
de limão espremido.

Um tratado de mãos femininas ou
amanhã & depois

Quem é capaz de esquecer Stela?

é dito: pelo chão você não pode ficar
porque lugar de cabeça é na cabeça
lugar de corpo é no corpo
pelas paredes você também não pode
pelas camas você também não vai poder ficar
pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
porque lugar de cabeça é na cabeça
lugar de corpo é no corpo”

Doméstica, de instrução secundária, moradora de Botafogo, Rio de Janeiro. Quase nada se sabe sobre seu passado.

aí veio uma dona me botou pra dentro do Posto do Pronto Socorro perto da Praia de Botafogo, e lá, eu dentro do Pronto Socorro, ela me aplicou uma injeção, me deu remédio, me fez um eletrochoque, me mandou tomar um banho de chuveiro (…) e aí chamou uma ambulância, uma ambulância assistência e disse: carreguem ela,… ela achou que tinha o direito de me governar na hora (…), me trouxeram pra cá como indigente, sem ter família nenhuma, morando no hospital”

Seu diagnóstico tem a extensão de sobrenome de realeza: “personalidade psicopática mais esquizofrenia hebefrênica, evoluindo sob reações psicóticas”.

No salão cinzento, Stela era chamada de poeta e filósofa. Suas palavras, sempre ditas contra o vento, por muito pouco não se perderam no temporal. Aquela tarde tive certeza: Stela operava uma lógica invisível a esta órbita. Stela do Patrocínio tinha a capacidade de tornar as manhãs ainda mais brancas para que suas palavras ficassem cravadas feito mordida na jugular.

* não saia sem se permitir a demora do encontro absoluto com Stela: (pdf do livro)
* esta história foi narrada por Leocádia P.M., atual inquilina da cabeça raspada de Luiza Prado
* qualquer cruzamento com a realidade é reparação histórica – até que o ordinário nos devolva a ficção

Luiza Prado
Luiza Prado

Autora, roteirista e diretora, além de investigadora de palavras & movimentos no laboratório de práticas artísticas narrativas em tempos suspensos. É formada em jornalismo pela PUC-Rio, com extensão em cinema pela NYFA, em NY, e roteiro cinematográfico pela EICTV, em Cuba. Coordena o @existe1fenda. “Tudo o que há flora”, sua primeira peça, ganhou o prêmio de melhor texto pelo 6° Prêmio Botequim Cultural (2016).