A ATEMPORALIDADE DE CAROLINA MARIA DE JESUS

“Aqui será o espaço da experimentação de rumos novos. O espaço da abertura para a criatividade popular e para as novas linguagens. O espaço da disponibilidade para a aventura e a ousadia. O espaço da memória e da invenção.”

Quem disse isso foi Gilberto Gil, logo que assumiu o Ministério da Cultura (saudades né minha filha?). E é assim que enxergo essa nova fase do The Squad, sobretudo, a editoria de Cultura que reúne tantas mulheres diversas, mas com tanto em comum: aventura e ousadia em suas vivências.

Dando início a este novo ciclo que iremos construir juntas, escolhi falar sobre Carolina Maria de Jesus, uma figura especial e representativa não só para mim, mas também para a cultura brasileira. Em um momento tão crítico como o atual, a obra de Carolina representa milhares de brasileiros e traz a criatividade popular e novas linguagens, assim como Gil dizia.

A intenção aqui não é contar sua biografia, mas sim, exaltar sua contribuição para a literatura brasileira e levantar reflexões sobre a vida e o legado dessa mulher multifacetada que foi escritora, poetisa, compositora, sambista e muito mais, além de possuir uma personalidade extremamente forte.

Vinte e seis anos após a Abolição da Escravatura, nasce Carolina na cidade de Sacramento em Minas Gerais. Neta de escravos e filha de lavadeira frequentou a escola por apenas dois anos, onde pegou o gosto pela leitura e escrita. Ela chegou a São Paulo quando a cidade estava em processo de modernização e viu as primeiras favelas aparecendo. Construiu o seu barraco e se alojou na favela do Canindé e trabalhou como catadora de papéis para sustentar a si e os três filhos que criava sozinha.

Carolina ficou mundialmente conhecida por seu livro ‘’Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada’’. O best-seller, publicado em 1960, relata suas vivências na favela e sobre como sobrevivia à fome. Nele, ela descreve a dor, o sofrimento e as angústias dos favelados, sem romantizar e de forma única, retratando a realidade assim como ela é e até hoje segue sendo um relato atual da condição de vida das favelas brasileiras. Após o lançamento, seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países.

Apesar do reconhecimento por este livro, a escritora ainda não é estudada com a devida atenção que merece.

Pensando que a história dos negros e das mulheres sofrem tentativas de apagamento para que esses não saibam da força de resistência que têm diante de uma sociedade capitalista, racista e machista, que quer os fazer acreditarem que são fracos a ponto de não enfrentarem esse sistema, Carolina sofreu e ainda sofre uma dupla tentativa de apagamento, por ser mulher e negra. O que poucos sabem, é que Carolina, para além do Quarto de Despejo, publicou ainda em vida mais três livros e deixou guardado mais de cinco mil páginas manuscritas, totalizando 58 cadernos que contêm sete romances, mais de 60 textos com características de crônicas, fábulas, autobiografia e contos, mais de 100 poemas, quatro peças de teatro, 12 marchinhas de Carnaval e em 1961, chegou a gravar um disco com canções compostas por ela mesma.

“Carolina sofreu e ainda sofre uma dupla tentativa de apagamento, por ser mulher e negra”

Carolina é gigante e é inegável seu legado cultural e social. Apesar de silenciada, depois do estrondoso sucesso e exposição, ela se manteve como uma importante representante da literatura brasileira e ainda é reconhecida como original e extraordinária. Utilizou sua escrita como ferramenta de denúncia, protesto e desabafo, em seus textos trazia criticidade, resistências e empoderamento para denunciar as desigualdades sociais e raciais. A autora também anuncia os dilemas de ser mulher: quando criança desejou mudar de gênero. Sonhou em se tornar homem não porque quisesse mudar o corpo, mas por saber as barreiras que lhe trariam sua condição feminina. Em seus escritos, também podemos encontrar muitas “marcas de oralidade”, que entendemos como uma herança africana. Ao relatar as suas próprias histórias cotidianas, ela reverencia os griôs – em alguns povos da África, os contadores de histórias que têm o compromisso de preservar e transmitir histórias e cultura. Na aparente simplicidade de sua literatura, quanta profundidade!

A ascensão da literatura negra e da literatura feminina foi fundamental para sua retomada ao cenário literário e acadêmico. Seus livros passaram a ser tema de teses e dissertações nas faculdades e se tornaram leituras obrigatórias em escolas e vestibulares.

A vivência de Carolina é um grito de socorro que precisa ser ouvido.

Quantas Carolinas não existem por esse nosso Brasil?

Como forma de manter seu legado, podemos encontrar muitas homenagens à autora, como documentários, peças de teatro, pinturas, grafites, poemas, reportagens, feiras literárias, nome de ruas e muito mais…

A biblioteca do Museu Afro Brasil, que recebe anualmente aproximadamente 1.200 visitantes, leva o nome da escritora e abriga seus manuscritos.

Pra aquecer meu coração, Carolina será homenageada pela escola de samba Colorado do Brás em 2021, com o enredo ‘’Carolina, a Cinderela Negra do Canindé’’. Na avenida, vamos poder ver a história da escritora e sambista contada da forma mais alegre!

Ela nunca parou de escrever. E nunca parou de dizer. Os seus escritos se tornaram a impressão da voz negra e feminina que se perpetuou através do tempo para que nunca se esqueçam de que a escritora Carolina Maria de Jesus foi uma mulher negra resistente e representante de uma literatura brasileira, dentro e fora do nosso país.

“Cultura é igual arroz e feijão. É necessidade básica”, citando Gilberto Gil novamente pra mostrar que, mesmo por muitas vezes lhe faltando comida à mesa, Carolina nos presenteou com cultura. Assim, nos resta a pergunta: por que não ler Carolina Maria de Jesus?

“Assim como as palavras, as pessoas que as escrevem não podem ser apagadas.” (Carolina Maria de Jesus, 1960).

Talitha Dejesus
Talitha Dejesus

Graduanda em Produção Cultural. Formada em Modelagem do Vestuário, Produção e Marketing de Moda. Repórter do Portal Emerge Mag e Assessora de Comunicação na Mocidade Unida da Mooca. Atua como voluntária no Museu Afro Brasil e na Pinacoteca de São Paulo. Sagitariana raiz com ascendente em Áries. Viciada em café e cerveja. Não abre mão de sua ancestralidade. É inquieta e quer sempre saber e fazer mais. Tem a Arte, a Cultura e o Samba como filosofia de vida e acredita que as mulheres pretas e as periferias são potências para a transformação da sociedade!