UM FILME DE SUSPENSE CHAMADO DEMISSÃO

Já pensou em estar sem emprego durante à pandemia e em meio de uma forte crise que atinge a economia e o mercado de trabalho no Brasil? Pois é, 12.428 milhões de pessoas encontram-se nessa situação no Brasil (dados referentes a quarta semana de junho/2020, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE). Mais de 11,85 milhões de brasileiros seguem sem um emprego formal no país. Com a pandemia e as suas consequências negativas na economia, muitas pessoas foram demitidas praticamente da noite para o dia. Se em tempos de prosperidade a notícia já é ruim, ela é ainda mais dolorosa frente ao atual cenário brasileiro. Medo, receio e incerteza do futuro. Tudo isso passa na cabeça de alguém que foi demitido. Se aconteceu com você, lembre-se que não está sozinho.

Para entender um pouco mais do assunto conversei com a Daniela Toledo, gerente da Page Personnel, uma consultoria de recursos humanos especializada no recrutamento e seleção de profissionais para posições de apoio e suporte à gestão. Conversamos sobre o reflexo da pandemia no mercado de trabalho, destino das vagas, habilidades desejadas na pandemia, e algumas sugestões do que fazer quando você enfrentar uma situação de desligamento.

“O impacto emocional de uma demissão é inevitável. Somos seres humanos e temos sentimentos, sonhos e expectativas”

Segundo a Dani, os números de demissões, de profissionais em transição de carreira, de busca de recolocação profissional e de demanda de headhunters aumentaram com a crise da pandemia do COVID-19. Para ela, o Brasil se viu em um cenário de crescimento do número de pessoas desempregadas. Além do aumento do número de demissões, muitas das vagas existentes no mercado foram congeladas e as tão desejadas novas posições e promoções simplesmente deixaram de existir. Essas foram algumas das primeiras respostas e ações que muitas das empresas adotaram visando proteger o fluxo de caixa e a própria saúde financeira da companhia.

Ao mesmo tempo que posições deixaram de existir, outras foram consideravelmente valorizadas nesse período. Com o rápido processo de digitalização dos sistemas e a necessidade de tornar praticamente todas as atividades onlines, houve uma demanda por profissionais ligados à área. Nesse quesito, destacam-se as posições de help/service desk, data science, segurança de dados, infraestrutura de TI e transformação digital. Além dessas posições, Daniela destacou a relevância e demanda que os profissionais de saúde também tiveram nesse período.

Agora, se você não se encaixa em nenhum desses dois perfis, e foi dispensado de um emprego, Daniela lembra da importância de não deixar que o desespero tome conta da situação. “Poxa Isa, falar é fácil, quero ver você colocar em prática isso”. Eu sei que não é fácil, e já aviso que não existe fórmula mágica, muito menos uma receita de bolo que vá melhorar a sua situação de uma hora para outra. O impacto emocional de uma demissão é inevitável. Somos seres humanos e temos sentimentos, sonhos e expectativas. É mais que natural que uma das primeiras reações seja olhar para o ex-empregador com mágoa, decepção e até mesmo raiva. Todavia, é possível sim tornar a sua demissão algo mais “digerível”, buscando cuidar da sua autoestima e saúde mental nessa situação.

Para a Daniela, um passo fundamental para conseguir se restabelecer é fazer um bom planejamento financeiro. Isso implica em saber os seus gastos, a importância deles, se eles são realmente essenciais ou não. Diante da crise e frente à sua demissão, pode demorar um tempo até você conseguir um novo emprego. Por isso é importante conhecer suas reservas, o valor da sua conta bancária. Se você estiver na dúvida em como fazer isso, dá olhada na seção de finanças do The Squad. Lá temos várias dicas para te ajudar com um planejamento financeiro.

Um segundo passo é encarar a situação como oportunidade. Oportunidade de melhoria, autoconhecimento e transformação. É preciso entender (de verdade) o motivo da demissão, mesmo que ela tenha ocorrido durante a atual pandemia. Procure receber um feedback de sua performance na empresa, compreendendo a razão que levou você a ser demitido e outros não. Tente, sempre que possível, fugir de explicações protocolares e das famosas respostas “foi preciso cortar custos”. Com esse feedback aprofundado você pode descobrir suas falhas e principais lacunas, sejam estas técnicas, referentes a habilidades ou mesmo comportamentais. E por sinal, não se esqueça de pedir uma carta de recomendação da empresa. Sua reputação profissional vale muito, e ela pode te ajudar em ser realocado.

Com o feedback em mãos você saberá onde deve investir para melhorar. Faça cursos onlines, e aproveite das plataformas virtuais e gratuitas. Ou seja, busque qualificação profissional. Para quem não sabe, muitas das principais instituições de ensino superior brasileiras possuem plataformas de ensino online, oferecendo cursos, treinamentos e aulas gratuitas ou com um preço mais acessível. Até mesmo os cursos gratuitos oferecem certificados.

Vale a pena entrar nos sites da USP, UNESP, UNICAMP, UNIFESP e FGV. Se você possui o domínio da língua inglesa, porque não investir em plataformas estrangeiras, como Coursera, edX, FutureLearn, e Udacity?

Outra dica é manter uma rotina de planejamento de buscas e oportunidades de trabalho. Vale super acionar a sua rede de contatos, divulgar no LinkedIn e procurar ajuda em empresas de recrutamento e seleção. Não tenha receio de se expor e lembre-se que garra e obstinação são poderosos aliados de qualquer mudança. Crie uma estratégia própria, mapeando empresas e vagas desejadas, seus diferenciais competitivos e remuneração almejada. Verifique se a empresa desejada está contratando, qual o perfil profissional que ela busca e quais são as competências e valores que ela preza em seus trabalhadores. Se prepare e evite cair de paraquedas numa realidade inteiramente nova.

Lembre-se também que existe a oportunidade de você mudar de carreira. Eu, por exemplo, sai do mundo corporativo e apostei na academia, investindo na área de pesquisa e docência. Sai do meu plano A, e reforcei meus demais planos pessoais. Sai de uma profissão que já não fazia sentido e segui para atuação em uma área que me deixa muito feliz, leve e realizada. E eu não estou sozinha nesse caminho de mudanças.

Algumas resolveram empreender e abriram um negócio próprio. Outras aproveitaram para turbinar o CV, investindo em cursos e experiências. A Manu Firminy, por exemplo, fundou a do Aclive Marketing, uma empresa voltada para produção de conteúdo em redes sociais. A Raissa Capibaribe e a Tainah Fernandes, colaboradoras do The Squad, passaram por essa experiência de demissão. Para a Raissa, a demissão possibilitou um recomeço. Ela encarou sua primeira viagem internacional e sozinha ainda por cima. Foi um verdadeiro período de descobertas. Já a Tainah aproveitou a demissão para mudar de carreira, se dedicando a fazer coisas que realmente tem valores para ela, investindo em novos rumos profissionais.

Mudanças não são fáceis, ainda mais quando elas não são planejadas. Passe a enxergar novas possibilidades com a sua situação. Se for preciso, recomece. Faça mil planos. Não se acomode com a situação de desempregado. Seja inquieto. E não se esqueça: foco, determinação e maturidade são o segredo para que sua história profissional tenha um desfecho feliz.

Isabela Espindola
Isabela Espindola

Doutoranda em Geografia Humana. Bolsista FAPESP, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Geografia Política e Meio Ambiente e membro da rede Waterlat/Gobacit.