PRECISAMOS FALAR SOBRE OS DESAFIOS DE SE ASSUMIR GAY NO TRABALHO

O ambiente corporativo tem um papel de extrema importância no avanço dos direitos LGBTQIA+ – apesar de uma movimentação relevante a respeito de políticas de inclusão e comitês de diversidade nos últimos anos, ainda existe muito preconceito velado por aí, principalmente em áreas de cultura mais formal.

Na esteira do mês do orgulho gay, conversamos com três profissionais para entender: a orientação sexual faz diferença no seu ambiente de trabalho? Acostumada a sempre circular por lugares muito informais, no meio editorial, do marketing e da publicidade, saí da minha bolha para conversar com uma médica, um engenheiro e um advogado e descobrir como cada um deles enfrenta os desafios do dia a dia.

Corina Cardoso
cirurgiã geral em Capão da Canoa e Tramandaí (Rio Grande do Sul)

“Atualmente, trabalho em dois hospitais, em cidades diferentes do RS, e uma vez na semana faço consultório. Na Medicina, é cada vez mais aceitável (acredito que este é o termo correto) ser, demonstrar e lutar pela causa, o que não significa que não há resistência. Acredito que essa mudança se deve muito mais pelo posicionamento e desejo de liberdade que almejamos do que por algum incentivo que o meio ofereça.

Para a maioria dos pacientes, acredito que a orientação de quem o atende não faz diferença, mas isso depende muito de onde estamos. Em uma cidade grande ou em uma cidade universitária, por exemplo, é mais incomum algum tipo de preconceito, pois se ao paciente essa é uma questão importante, ele tem a opção de procurar outro profissional que se encaixe nas suas demandas. Por outro lado, se você está numa cidade pequena no interior, é mais difícil – algumas vezes até mesmo impossível – se estabelecer, independentemente da sua capacidade técnica e conhecimento científico.

Quando me assumi, tive a grande sorte de ter encontrado apoio em todos os meus amigos na Medicina, nenhuma relação mudou. Mas, no que se refere aos colegas héteros, a gente percebe algumas situações: é difícil entenderem que pode haver amizade entre uma garota homossexual e uma heterossexual sem que haja interesse amoroso/sexual envolvido. A intimidade que você desenvolve com os colegas héteros é mais superficial, havendo limites para os conteúdos das conversas. Atualmente, não envolvo minha vida pessoal com a profissional – deixo-as bem separadas.

As mulheres já são maioria na área médica e ser lésbica, entre os colegas, é mais aceitável principalmente se o seu perfil se encaixa na imagem de mulher feminina e delicada. Mulher lésbica cuja expressão de gênero é menos feminina sofre mais preconceito em uma sociedade heteronormativa. O principal desafio ainda é adquirir autoconfiança e saber o seu valor e o seu papel. O preconceito existe, com uma face mais sutil, mas igualmente dolorosa.”

Jorge Morato
engenheiro, diretor de saúde, segurança e meio ambiente da Mondelēz Brasil (São Paulo)

“Depois de ter me formado em engenharia elétrica em um campus predominante masculino, ingressei no programa de trainees da Mondelēz International. Por cerca de 7 anos mantive minha orientação em segredo, com vida pessoal e profissional completamente separadas.

Em paralelo, andavam minha jornada pessoal de aceitação e um receio grande de que ao me assumir publicamente eu sofresse preconceito ou isso atrapalhasse minha carreira. Em dado momento, um gerente meu soltou uma frase parecida com ‘você sabe que não existe problema algum de ser quem você é por aqui, né?’ e foi um divisor de águas pra mim. A partir desse momento, fui as poucos contando para as pessoas, porém de forma seletiva e com uma exposição controlada.

Depois, foram outros 8 anos de jornada para derrubar o muro que eu havia construído, cada vez mais me libertando de estereótipos e me sentindo mais confortável em viver em minha pele. Hoje, uso meu espaço para falar abertamente sobre minha jornada e permitir que jovens LGBTQIA+ tenham referências de carreiras de sucesso e não cresçam com crenças limitantes sobre viver todo seu potencial. Em paralelo, a Mondelēz International tem focado muito na valorização da diversidade e criamos no ano passado um comitê com 4 frentes: gênero, LGBTQIA+, etnias e PCDs.

Ainda precisamos avançar muito na pauta de micro agressões, um termo relativamente novo, mas que nos ajuda a entender o dano que as chamadas ‘piadas sem intenção de magoar’ ou ‘brincadeiras’ têm. Esse tipo de comportamento cria um ambiente hostil à diversidade e à inclusão e não deve ser minimizado ou aceito. Precisamos dar o primeiro passo e vencer o medo de falar sobre o assunto. Quando falamos geramos empatia, conexão e um espaço para debater as diferenças – e ressaltar porque elas devem ser respeitadas.”

Caio Ortega
advogado associado da Mattos Filho Advogados (São Paulo)

“Trabalho em um dos maiores e mais tradicionais escritórios de advocacia do país. O ambiente da profissão é, geralmente, mais formal, pois envolve não apenas o relacionamento com os clientes do escritório, como também o contato com juízes, promotores, delegados etc.

Apesar de não ter enfrentado na minha carreira nenhuma situação explícita de preconceito, no início não me sentia à vontade para compartilhar detalhes da minha vida pessoal com colegas de trabalho. Criamos no escritório, em 2016, o #MFriendly, um grupo de afinidade LGBT destinado a discutir o tema e os desafios enfrentados nos universos corporativo e na sociedade.

Atualmente, o grupo conta com mais de 200 integrantes e foi aberto não só aos profissionais LGBT como aos nossos “aliados”, que têm um papel essencial em promover um ambiente de trabalho mais inclusivo para todos. O intuito do grupo é não só de fomentar uma atmosfera mais acolhedora, como inspirar nossa rede de relacionamentos e o meio jurídico a reconhecer a importância do tema e a criar um espaço mais aberto para todos. Com o grupo, realizamos eventos e debates sobre a temática e atuamos representando pessoas LGBT em situação de vulnerabilidade por meio da advocacia pro bono.

Tudo isso contribui para que as pessoas sintam-se incentivadas a falar abertamente sobre sua orientação sexual, se assim desejarem: o intuito não é ‘tirar do armário’, mas propiciar um espaço livre de tabus para discussão. Acredito, contudo, que ainda há muito trabalho a ser feito: sou bastante privilegiado por ser branco, ter estudado em boas instituições e por poder trabalhar em um escritório com uma cultura institucional de acolhimento à diversidade. Essa não é, infelizmente, a realidade dos meus colegas de profissão. Da minha parte, posso garantir que seguirei lutando para que essa passe a ser uma realidade para todos nós.”

Fernanda Jacob
Fernanda Jacob

Jornalista, comunicadora, marketeira, capricorniana. Jornalista formada pela Cásper Líbero, em São Paulo, trabalha atualmente com marketing. Divide sua experiência no universo da moda e fala sobre carreira e os desafios que as mulheres encontram no mercado de trabalho.