MUNDO ACADÊMICO: ONDE O ENSINO, A PESQUISA E A EXTENSÃO SE ENCONTRAM

Iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doutorado, currículo lattes, docência, pesquisa, ciência e tecnologia. Uma lista considerável de etapas e características que fazem parte do mundo acadêmico. Mas afinal, o que é esse mundo acadêmico? Quais são os profissionais que atuam nele? E como fazer parte dessa área no Brasil?

Podemos dizer que o mundo acadêmico compreende universidades, públicas e privadas, instituições de ensino superior e tecnológico, e centros de pesquisa. Envolve atividades de ensino, produção de conhecimento científico, e extensão. Essas são as atividades “pilares” e indissociáveis do mundo acadêmico. Tamanha é a sua importância que elas são consagradas na Constituição Federal de 1988 do Brasil.

Quem deseja seguir a carreira acadêmica tem que ter em mente que ela vai muito além do simples “eu gosto de estudar” ou “eu gosto de pesquisar”. No Brasil, quem escolhe seguir a carreira acadêmica deve saber que ela envolve não somente atividades de pesquisa, mas também de dar aulas, acompanhar e elaborar projetos de extensão, oferecer orientação aos alunos, e até mesmo assumir funções administrativas dentro da instituição de ensino em que atua. Enquanto o ensino e a pesquisa são atividades mais conhecidas do mundo acadêmico, a extensão é uma das responsáveis por desenvolver ações que fomentem a relação entre a comunidade e a universidade. Exemplos dessas práticas de extensão envolvem as empresas juniores, os grupos ENACTUS, atividades assistenciais desenvolvidas pelas associações acadêmicas, entre outros.

O acesso a esse meio ocorre, sobretudo, por meio da pós-graduação stricto senso. Ou seja, via programas de mestrado e doutorado acadêmicos vinculados a instituições de ensino superior e regulamentados pelo Ministério da Educação. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), fundação do Ministério da Educação (MEC), desempenha papel fundamental na expansão e consolidação desses programas de pós-graduação no Brasil. Ela é também responsável por avaliar os programas de pós-graduação, divulgar a produção cientifica, investir na formação de recursos de alto nível no país e exterior, promover a cooperação científica internacional e fomentar a formação inicial e continuada de professores. Atividades estritamente ligadas ao mundo acadêmico.

“O Brasil passa por um período de redução de investimentos em ciência e tecnologia, com consequências diretas para a área. (…) Com essas mudanças, desenvolver uma carreira profissional no mundo acadêmico se torna cada vez mais desafiador e competitivo”

Além da CAPES, existem outras instituições relevantes para o mundo acadêmico. Uma delas é Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. Cabe ao CNPQ a formulação, execução, acompanhamento e difusão da ciência e tecnologia no país. É também função do CNPQ a realização de acordos, protocolos, convênios, programas e projetos de intercâmbio e transferência de tecnologia entre entidades públicas e privadas, nacionais e internacionais. Em nível estadual temos as fundações estaduais de amparo à pesquisa (FAPs), como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), uma das principais agência de fomento do país e primeira FAPs a ser fundada no Brasil em 1962. A FAPESP viabiliza recursos financeiros para o desenvolvimento de pesquisas nas diversas áreas do conhecimento (Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, Engenharias, Ciências Agrárias, Ciências Sociais Aplicadas, Ciência Humanas, Linguística, Letras e Artes) no Estado de São Paulo. Seu orçamento correspondente a 1% do total da receita tributária do Estado, e por meio deste valor que a FAPESP apoia a pesquisa científica e tecnológica por meio de bolsas e auxílios à pesquisa.

Em alguns casos, o primeiro contato com o mundo acadêmico ocorre ainda na graduação, por meio dos programas de iniciação científica. Muitos graduandos descobrem a aptidão para a área nessa etapa da educação. Se desejam dar continuidade, aplicam para os programas de mestrado. O mestrado é a base da pirâmide do mundo acadêmico. No Brasil, os mestrados podem durar até três anos. Além do desenvolvimento de uma pesquisa, o mestrando deve cumprir os créditos obrigatórios do seu programa, via disciplinas e desenvolvimento de atividades extracurriculares. No final, o mestrando deve apresentar uma dissertação para obtenção do grau acadêmico de mestre. No Brasil, os detentores desse título já são habilitados a desenvolverem atividades de docência, tanto em universidades públicas quanto privadas. No entanto, grande parte das contratações ocorrem com pessoas que tenham o título de doutor.

Tal como no mestrado, o doutorado também envolve o desenvolvimento de uma pesquisa, e o cumprimento de créditos obrigatórios. Todavia, a pesquisa a ser desenvolvida no doutorado requer uma contribuição inédita para o conhecimento científico. Após a defesa da tese, recebe-se o título de doutor/doutora, o mais alto grau acadêmico a ser atingido. No doutorado é comum o desenvolvimento de estágios de pesquisa no exterior, possibilitando o aprimoramento em novas fronteiras do conhecimento ainda não tão bem desenvolvidas no Brasil. Já o pós-doutorado é um estágio de estudos e/ou pesquisas cumprido em uma universidade ou instituição de pesquisa, para aprimorar as habilidades do acadêmico. O estágio pós-doutoral não corresponde a um grau acadêmico.

Segundo dados de 2016 do CNPQ, o número de acadêmicos com título de doutorado registrados na plataforma Lattes, a base de currículos acadêmicos do Brasil, era de 227.941 mil. Apesar do número de doutores parecer grande, o Brasil está longe de ser um país ideal em relação ao desenvolvimento da pós-graduação. De acordo com o estudo “Education at a Glance”, divulgado Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em setembro de 2019, o Brasil tem a quarta menor taxa de pessoas entre 25 e 64 anos que possuem doutorado (0,2%). Dos 35 países considerados pela OCDE, o Brasil supera apenas o México, a Costa Rica e a Indonésia.

Para quem quer se aventurar pelo mundo acadêmico é importante lembrar que o Brasil passa por um período de redução de investimentos em ciência e tecnologia, com consequências diretas para a área. O orçamento de 2020 da CAPES, por exemplo, traz recursos para financiar apenas metade das bolsas de pós-graduação. Essas reduções também acarretam limitações no lançamento de editais e contratações de novos projetos de pesquisa. Com essas mudanças, desenvolver uma carreira profissional no mundo acadêmico se torna cada vez mais desafiador e competitivo.

 

 

Isabela Espindola
Isabela Espindola

Doutoranda em Geografia Humana. Bolsista FAPESP, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Geografia Política e Meio Ambiente e membro da rede Waterlat/Gobacit.