DIZER NÃO É RESPEITAR OS SEUS LIMITES, ATÉ MESMO NA PANDEMIA

Em meio aos novos desafios trazidos pela pandemia do Covid-19, tem-se discutido muito sobre as mudanças que o mercado de trabalho tem passado. Conversando com algumas amigas sobre o assunto, vi que muitas estão esgotadas com a situação, enfrentando as consequências da diminuição do salário e que o famoso home office tem rendido uma demanda ainda maior de trabalho. O que eu mais ouvi nas minhas indagações foi o “não posso falar não para o meu chefe”, “não tenho espaço para negociação de prazo”, e “não consigo estabelecer nenhum limite com o meu chefe”.

A situação é, sem dúvidas, atípica. Tanto para as empresas quanto para os funcionários. E deixo claro: todos são afetados pela pandemia. No entanto, o esgotamento, cansaço e stress podem levar qualquer um ao burnout, ou seja, um desgaste muito grande que se manifesta com sintomas ansiosos e depressivos. Se isso pode afetar tanto a nossa saúde, como então impor limites no dia a dia do seu trabalho, ainda mais em plena crise gerada pela pandemia?

Não sou psicóloga, terapeuta e muito menos RH de empresa, mas sei que essa métrica de sucesso baseada na produtividade pode levar qualquer um à loucura. Digo isso por experiência própria por estar na pós-graduação e ver que o meu sucesso é baseado na quantidade de artigos publicados, de livros produzidos e de participação em congressos. Saudável? Te garanto que nem um pouco. Ainda mais em plena pandemia.

Por isso (e seguindo as recomendações da minha psicóloga @fabi_esbaile_psico) sigo a lição diária de apreender a dizer não, de reconhecer os meus limites e de saber quando parar. Pode parecer algo muito simples e fácil de ser feito, mas você já disse um não hoje? Você sabe quais são seus limites? Você sabe a hora de parar? Tempo, família, exercícios finanças e até relacionamentos possuem limites. Por que você não teria? Pare, respire e pense: qual é o seu limite?

Considero que reconhecer os nossos próprios limites seja o primeiro passo. Nosso tempo é limitado, nossa energia é limitada e os nossos recursos são limitados. Sim, somos seres limitados e nossos limites variam com o tempo. Não somos estáveis, evoluímos e regredimos. Nossos limites acompanham esse percurso. As vezes temos um limite maior em relação ao trabalho. Outras vezes nosso limite é maior para a família. E o nosso limite nunca será igual ao do outro. Encontrar nossos limites é reconhecer que somos limitados e finitos. É uma grande lição de autoconhecimento, de estar em contato com a nossa própria realidade e passa longe de ser um ato egoísta. E isso vale para muitas coisas, não somente relacionadas ao trabalho, ok?

Encontrar nossos limites, reconhecê-los e assumi-los enquanto profissionais implica em sabermos que não podemos dizer sim para tudo que nos é cobrado e ofertado no dia-a-dia do trabalho. Ou seja, nossos limites são como fronteiras que não devem ser ultrapassadas. Se os nossos limites não são respeitados, você vai, sem dúvidas, sair lesado da situação. Se não conseguimos dar conta da tarefa temos que dizer não. Saber até onde você pode e quer ir em relação ao trabalho é uma forma de você gerenciar a expectativa do seu chefe(a) em relação a você e ao que você vai oferecer. E aí vêm o segundo e importante passo: diga “não”.

Por sinal, você consegue dizer “não” para os outros, para o que não quer, não pode, não gosta? Existem diversas formas de dizer não. O “não” pode ser generoso, afetivo, empático, afirmativo, confiante. O importante é saber que o “não” tem um motivo por detrás dele. O seu limite, a sua fronteira. É o seu “não” que pode parar com o comportamento inconveniente de um colega do trabalho. É o seu “não” que pode fazer com que o seu chefe(a) repense a postura arrogante dele(a). Não é porque vocês trabalham juntos que tudo é permitido. Não é porque você está de home office que você está disponível 24 horas por dia para o seu chefe(a). Os seus limites precisam ser respeitados da mesma forma que os limites de cada pessoa que trabalha com você também deve ser respeitado. Você tem a função de estabelecer os seus limites e o seu chefe(a) tem a obrigação de ouvir e respeitá-los. É claro, tudo no bom senso, pois é preciso tê-lo até mesmo na hora de dizer não e impor limites.

Não troque um “não” por um “sim”. Respeite os seus limites, respeite os limites dos outros. Estabeleça seus limites nas suas relações, deixe suas intenções claras, se expresse, diga “não”.

Isabela Espindola
Isabela Espindola

Doutoranda em Geografia Humana. Bolsista FAPESP, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Geografia Política e Meio Ambiente e membro da rede Waterlat/Gobacit.