VAI AONDE?

Se tem uma tendência que nenhum cool hunter ou bureaux de pesquisa previu foi a de que passaríamos a maior parte de 2020 em casa. Em isolamento social desde meados de março, e sem prospecções de quando a pandemia vai acabar, muitas lojas se encontram em situações complicadas em relação ao seus estoques – o que fazer com tanta bota de cano alto parada? E os vestidos de festa das formaturas agora no meio do ano?

Uma maneira de resolver é liquidando. Fico até surpresa com a quantidade de estabelecimentos vendendo online, fazendo promoções, dando códigos de desconto. Um vestido lindo todo bordado que custava mais de mil reais agora sai pela metade do preço. Sim, imperdível! Mas para ir aonde?!

Talvez não seja a roupa mais adequada para ficar em casa, certo? Por hora, os eventos estão cancelados. Não que você não possa vestir um vestido belíssimo para ficar casa! Não me entenda mal. É sempre bom se sentir linda, seja para nossxs parceirxs ou para nós mesmxs. Ou, claro, para biscoitar no instagram, hehe.

A questão aqui não é recriminar o comércio, até porque a renda de muitas famílias está sofrendo com os impactos dessa recessão causada pela quebra do fluxo social em geral. Mas sei que nessa onda de ficar em casa provavelmente você acessou algum e-commerce e encheu o carrinho de compras com coisas desnecessárias. E sei que também se deparou com um armário lotado de roupas “para sair” e quase nada de roupas básicas, confortáveis de ficar em casa.

A questão aqui é, então, consumo realista. É sobre colocar a maior parte do seu dinheiro em roupas que você veste na maior parte do tempo. Por exemplo: quem nunca pagou caro numa sandália para ir em um casamento, tirou ela no meio da festa e agora ela está parada no armário? (e muitas vezes ainda pagando as prestações?!) Enquanto, no dia-a-dia, procura pagar baratinho num sapato que vai passar pelo menos 8 horas no seu pé?

Comprar realisticamente depende de duas coisas: da ocasião e do orçamento. Um vestido bordado geralmente é uma peça que usamos esporadicamente e que não traz muito conforto. E que também traz a questão do gasto de manutenção, visto que provavelmente esse vestido tenha que ser lavado a seco.

“Não é um bom negócio se você não precisa”

Uma calça preta, por outro lado, provavelmente vai combinar com todas as outras partes de cima que você já tem. Vai poder usar tanto em casa quanto na rua e, dependendo de como for feito o styling, de situações casuais e até mais formais. Agora me diz: onde você gasta mais dinheiro, numa ocasião especial ou no seu dia-a-dia?

Na coluna de junho mesmo, falei sobre qualidade ser mais importante do que quantidade e novamente vou bater nessa tecla. Não é chato quando uma peça que a gente usa com tanta frequência começa a se desmanchar, exatamente por causa da baixa qualidade? E se a gente invertesse essa lógica de consumo, investindo mais em belas peças básicas e versáteis e menos em peças que não há previsão de uso?

Não sabemos quando as coisas vão voltar ao “normal” – entre aspas porque quem é que sabe o que isso passa a significar, não é mesmo? Então, se é inverno e estamos em casa, por que não parar para pensar nos seus hábitos de consumo de moda e ressignificar isso?

Eu moro na Suécia, e aqui na Escandinávia se usa muito um termo dinamarquês – que você até já deve ter ouvido falar por aí – chamado hygge. A tradução mais aproximada seria “aconchegante”, mas vai mais além disso: é sobre curtir o aconchego do seu lar, sem as pressões do mundo externo.

Esse é o momento de investir em você, no seu hygge – não em como você vai ser vista, mas no que você realmente gosta, te faz bem e que você realmente usa. Quais peças te fazem se sentir aconchegante? Quais roupas te fazem relaxar? Qual a modelagem que não te aperta? Quais a texturas que te agradam?

Espero que essas questões te inspirem a fazer compras mais certeiras nesse período de incertezas. E, pra resistir as tentações das liquidações, lembre-se de que não é um bom negócio se você não precisa.

Milena Faé
Milena Faé

Gaúcha de 31 anos anos, concept designer focada em moda ética e desenvolvimento sustentável. Residente da cidade de Gotemburgo, na costa oeste da Suécia.