NÃO ME ENSINARAM A PERDER

Porque ensinamos as crianças que elas só serão boas o suficiente se elas estiverem no time que ganhar? Aprendi vivendo que não aprendi a perder. Desde pequenos nos apresentam os contos de fadas a fim de idealizarmos um final feliz, na esperança de que alguém nos salve. 

Ingenuamente crescemos acreditando que por aprender que não podemos perder nada, também não perderemos ninguém: amarga ilusão. Agora em meio a uma pandemia mundial estamos todos tentando sobreviver a todo custo. E viver remete ao desejo de estar no time que está ganhando, tanto quanto queremos que pessoas que amamos sobrevivam e ganhem também. 

Inconscientemente sobrevivemos numa eterna competição. Uma busca desenfreada por ganhar, ganhar e ganhar. E como lidar quando perdemos algo? Imaginem quando perdemos alguém? Nos perdemos? E quando perdemos as expectativas sobre a realização dos sonhos que projetamos para o presente e futuro? 

Esperando por dias melhores, temos a sensação de impotência diante da crise que estamos vivendo, já que em muitos momentos sentimos uma desesperança coletiva. Mas, já se perguntou sobre quando não houveram crises? Basta você parar, fechar os olhos e refletir sobre sua história até aqui.

Há um ano quando perdi meu avô, apenas pensava sobre a quantidade de gente que não tem a possibilidade de dizer adeus. Não imagino a luta para lidar com o luto sem despedida. Hoje sinto o quanto dói só de pensar nessa possibilidade. Esses atravessamentos ao redor dos rituais do processo de luto trazem a tona como não somos ensinados a perder, nada nem ninguém.

Obviamente acompanhando o nó na garganta, sinto um misto de sensações que maltratam, sinto raiva e tristeza quando recordo meu processo ainda presente de luto. E minha super capa da profissional psicóloga, cheia de técnicas para lidar com as dores e sofrimentos alheios, se desmancha em lágrimas quando preciso falar sobre a morte e seus tabus, já que agora compreendo quando dizem: só vivendo para saber. 

As pessoas não podem ser encaixadas nos mesmos processos, cada cultura e religião tem um experiência  diferente. A maioria de nós não aprendeu a lidar antecipadamente com esse tipo de despedida, se você perder alguém especial automaticamente sente de forma latente e aprende sobre o real significado da palavra saudade.  

A vida adulta traz a luta de aprender que na vida real nem sempre ganhamos um final feliz e perder faz parte do processo, tanto quanto devemos assumir que nenhum príncipe encantado chega para nos salvar, muito menos que temos a obrigação de salvar alguém. Porém, em momentos como esses sentimos a necessidade de afeto, mas agora como se abraçar se a medida de segurança é manter a distância? 

Em algum dado momento a gente compreende nosso processo individual e mesmo que não te ensinaram a pedir ajuda, tudo bem. Nessas horas todos precisamos de pessoas se dispondo a escutar e permanecer atentos afetivamente nos momentos de encontro, sejam aqueles olho no olho, com recursos de vídeo ou chamadas telefônicas normais. Mas, e quem não tem acesso a esses mecanismos? 

Não vivemos num mundo ideal onde todos têm as mesmas condições que garantam ficar em casa em segurança, há grandes chances de que você não esteja isolado e em quarentena. Assim como não podemos nos iludir achando que todos acreditam na importância de vivenciar esse processo de luto com qualidade. 

Mas, precisamos urgentemente absorver esse aprendizado, senão nos perdemos de nós mesmos. Pois, o luto coletivo está trazendo a tona vários desdobramentos que atravessam os processos emocionais individuais necessários nesses rituais de despedidas, onde precisamos simbolizar o processo que estamos enfrentando. 

Em muitos casos nem temos tempo para elaborar o adeus. E as desigualdades reforçam as circunstâncias, como se a dor tivesse raça, etnia e classe social. Dor é dor, independente disso a vida real mostra que ninguém está pronto para perder, o luto é mais um rito de passagem pela vida, mas viver não é somente ganhar.

O super poder humano chamado resiliência,  nos traz a capacidade de ressignificar nossas vivências. Muitas vezes a gente não quer lembrar e admitir a resistência contra a luta que vem com o processo de luto, mas a vida traz situações que automaticamente vem à tona todo o peso da falta. Nesses momentos difíceis permita fortalecer memórias de afeto de quem disse adeus, pois elas confortam horas de saudade. 

Reconheça outro poder humano que é se acolher com afeto, pois eles potencializam as habilidades de salvar a si mesmo. 

Danielli Silva
Danielli Silva

Psicologa, idealizadora do Sobre(Viver) Mulher- trabalho para a prevenção de violências, com perspectiva de gênero e recortes de raça, etnia e classe social. Presidente voluntaria do Centro de Prevenção e Intervenção nas Psicoses.