ISOLAMENTO SOCIAL

Desde que foi noticiado o período de quarentena eu fiquei preocupada, não só com o estado alarmante da situação atual do país, mas como seria a vida a partir daquele momento.

Pessoalmente, não tenho problemas com a minha própria companhia. Desde a faculdade já moro só e as longas madrugadas adentro debruçada em projetos extensos, que a arquitetura exige, me deram expertise pra aproveitar e até apreciar o silêncio.

O que têm me chamado atenção neste momento em que vivemos são os comentários de pessoas conhecidas e às vezes nem tão conhecidas assim, devido as redes sociais, demonstrando preocupação e expressando um sentimento em comum comum: a solidão.

Imaginem como é ter o convivo social limitado, não ter trabalho fixo, não poder tocar nas pessoas, não poder dar um abraço, receber afeto e correr risco de vida quando sai de casa. É desesperador imaginar viver nessas condições, e o pior, não saber por quanto tempo.

Eu acho que mais que imaginar, todos estão vivenciando tais condições. Pois saiba que é com esse cenário desesperador que a maioria das pessoas trans vive todos os dias no Brasil, em completo isolamento social.

Todos nós estamos vivendo em um período muito delicado no mundo todo, esse recolhimento fez com que a gente olhasse mais para dentro de nós, expondo tanto os nossos medos, vulnerabilidades, anseios, quanto os nossos sentimentos bons e a nossa força.

“esse sentimento de solidão que você vive hoje, a população trans vive todos os dias”

A solidariedade foi um desses sentimentos que vimos crescer nesse período. É lindo de ver várias vaquinhas online, lives com doações, rifas, sorteios, gente se unindo, tudo para ajudar quem está precisando. Dá um quentinho no coração ver o quanto podemos ajudar quando queremos.

E não só quando queremos, mas também quando podemos. E agora a pergunta mais importante: quando sabemos que podemos?

A partir do momento que olhamos para os nossos privilégios. Privilégios esses que nos dá seguramente o poder de doar para uma arrecadação, de  ficar isolados em casa, de poder ter um emprego, de poder andar na rua sem sofrer nenhuma agressão física ou verbal, pelo simples fato de ser quem se é.

Esse exercício de olhar para as nossas vidas e ver todos os direitos que temos, e entender o porquê são concedidos a nós e não as outras pessoas nos dá poder para entender o que acontece ao nosso redor. E agora, mais do que nunca, temos a oportunidade de buscar uma conexão maior com as pessoas (mesmo que virtual), de tentar entender outras realidades, de olhar nossas semelhanças e principalmente as nossas diferenças. Aquele velho ensinamento de se colocar no lugar do outro.

É claro que todos nós estamos sentindo falta de visitar a família, e dar aquele abraço na mãe, das reuniões de happy hour com os amigos do trabalho, rir, celebrar, trocar confissões, do carinho e do aconchego do crush… O que não podemos esquecer é que muitas pessoas não tem esses privilégios, muitas não têm casa, a maioria é expulsa de casa muito nova ou assim que se entende e se assume trans, o pai, a mãe e toda a família cortam qualquer relação que tenham, não têm oportunidade de trabalho formal, 90% ainda recorre a prostituição, e sofrem violência física e verbal ao frequentar ambientes durante o dia.

Eu espero muito que esse período de reclusão nos ensine a olhar mais para o outro, que a gente saia dessa tragédia entendendo que existem outras realidades além da nossa, porque esse sentimento de solidão que você vive hoje, a população trans vive todos os dias pois a sociedade nos coloca em quarentena desde o dia que nós nascemos, e que isolamento social seja uma medida adotada em situações extremas, e não a realidade de muitxs ainda.

Bruna Andrade
Bruna Andrade

Uma capricorniana querendo mudar o mundo. Modelo, ativista LGBTQIA+, comunicadora. Sou uma mulher trans que utiliza da minha imagem, da minha vivência, e do meu conhecimento acadêmico pra levar informação para as pessoas.