INCLUSÃO DE PESSOAS TRANS NO MERCADO DE TRABALHO

Uma das grandes preocupações antes da minha transição era como o mercado de trabalho iria me receber, ou se ele iria me receber já que 90% das mulheres trans ainda recorrem à prostituição como principal fonte de renda, e como a probabilidade de eu ir para uma esquina era muito maior do que ir para a sala de uma empresa, eu ficava ainda mais apavorada.

Graças aos meus privilégios eu tive a sorte, sim sorte, de não precisar me prostituir para sobreviver. Ser uma mulher trans, branca, magra, com uma aparência passável (esse termo é usado quando não identificam se a pessoa é trans em um primeiro momento, faz referência ao “passar despercebida”), que teve acolhimento total da família, e uma graduação acadêmica, me deu passaporte para conseguir um trabalho formal.

A cada ano aparecem mais pesquisas que comprovam maior rentabilidade e maior destaque no mercado para empresas que têm em seus cargos de liderança um time mais diverso (Mckinsey and Co., 2018).  E essa diversidade amplia as perspectivas possíveis e refletem em diferentes idéias, abordagens, opiniões que fazem com que se criem soluções mais assertivas para cada ocasião. Mas mesmo com todo esse respaldo científico, porque as empresas ainda têm resistência em diversificar a sua equipe?

Durante toda a minha vida profissional e das vezes que prestei alguma consultoria para empresas que queriam se tornar mais inclusivas tanto no seu discurso quanto na sua cultura, ou como deixar o quadro de funcionários mais diverso, eu pude notar que o maior empecilho para contratar pessoas trans era porque elas não sabiam lidar com a situação, então era mais fácil negar uma oportunidade do que se educar para receber alguém novo. O pensamento era mais ou menos assim “eu não vou te contratar porque eu não sei me comportar diante de alguém que eu julgo tão diferente de mim”.

Mas eu tenho um segredo pra te contar: todo mundo é diferente de você, e se ainda não percebeu isso, talvez seja porquê só busque em outras pessoas algo que seja parecido, e ignore o que seja diferente. É como se você ficasse o tempo inteiro rodeado de você mesmo. Quando a gente faz essa analogia para o mercado, a gente entende que a falta de oportunidade para as pessoas trans basicamente se dá pelo fato de não ter ninguém trans dentro das empresas. E como mudar isso, como quebrar esse ciclo?

Podemos começar fazendo uma tarefa de casa, você já prestou atenção quantas pessoas trans trabalham na mesma empresa que você? No seu local de trabalho existe uma cultura de inclusão? Esse assunto já foi abordado pelo pessoal do RH? Já indicou ou contratou uma pessoa trans pra trabalhar com você? Quantos produtos feitos ou vendidos por pessoas trans você conhece?

É sempre importante buscar aliados, pessoas que estão dispostas a abrir mão dos seus privilégios, e ampliar a voz de uma população que não é ouvida, fazendo esse exercício de olhar para as diferenças, e entender que esse plural tem valor e que incluir em todas as esferas pessoas com histórias diferentes, com vivências distintas, só faz bem para você que ouve, para a pessoa que fala, e para o mundo todo ao redor.

Fazer esse exercício de começar a mudança por nós mesmos é essencial para entendermos o nosso poder de transformação, e a partir do momento que as empresas entenderem que nós temos o mesmo potencial que qualquer outra pessoa, o que nos falta é a oportunidade, é que a mudança acontece.

Bruna Andrade
Bruna Andrade

Uma capricorniana querendo mudar o mundo. Modelo, ativista LGBTQIA+, comunicadora. Sou uma mulher trans que utiliza da minha imagem, da minha vivência, e do meu conhecimento acadêmico pra levar informação para as pessoas.