FEMINILIDADE

Três meses sem ver um esmalte na minha frente, eis que resolvo pintar as unhas, e pimba! Isso mudou o meu dia. De repente meu humor mudou, aconteceu uma nova percepção da minha imagem, e eu estava me sentindo melhor.

E depois de um breve momento de deslumbre me veio o questionamento: porque será que eu mudei só porque agora estou com as unhas coloridas? Porque isso teve tanto impacto no meu dia? Porque essa ação de passar uma tinta colorida nas minhas unhas mudou meu humor?

Fiquei pensando se com isso tive a sensação de estar mais feminina, e por isso o sentimento de alegria (sendo uma mulher trans, a afirmação da feminilidade é uma questão importante), afinal, o que se espera de uma mulher são esses comportamentos: unhas pintadas, cabelo arrumado, maquiagem sempre presente, pelos removidos, sobrancelha desenhada, mas será que a feminilidade da mulher está nessas práticas? Alguém que se reconhece enquanto mulher mas não se depila, ou não vive de rímel é menos feminina? O que (ou quem) determina o que é feminilidade?

Parando para analisar, a maioria dos símbolos de feminilidade está atrelado ao consumo. Para ter as unhas pintadas, é preciso comprar esmaltes ou contratar uma manicure; para cabelos longos e hidratados, um salão; para cílios longos e cheios, rímel ou alongamento. Ou seja, tudo gira em torno do mercado. Logo, segundo a nossa sociedade, para ser feminina você precisa consumir.

Mas afinal o que é ser feminina? Toda mulher é feminina? Quais características definem a feminilidade?

“a gente não pode se deixar vulnerável e colocar a nossa autoestima nas mãos do mercado, afinal feminilidade não é um produto”

A minha primeira e maior referência do feminino são as mulheres da minha família. Sempre que eu penso nelas a primeira coisa que me vem na cabeça é força, a segunda é cuidado. Não sei se era por identificação ou admiração, ou ambos, eu sempre estava muito mais interessada no que a minha mãe e minhas tias estavam fazendo, do que quais assuntos que os homens estavam conversando.

A potência dessas mulheres era uma coisa que me brilhava os olhos, o jeito com que elas comandavam os espaços, como elas ditavam as regras, mesmo sem precisar dizer uma palavra, a sincronicidade entre elas, uma sabia exatamente o que a outra precisava, e todas as vezes que eu pude acompanhar essa dança e entendia a melodia da música que elas emanavam eu me sentia pertencente, e eram nesses momentos em que eu me sentia mais feminina.

Se você está se perguntando o que é “ser feminina” e ainda não conseguiu uma resposta fique tranquila, é difícil mesmo definir o que é feminilidade, porque muitas vezes depende das suas referências. Pra mim é um sentimento, é algo além do físico, não é algo que pode ser comprado como acessórios de um carro. Esses artifícios que usamos para incrementar nossa aparência tem que servir pra nos divertir, se eu pinto as unhas é porque eu acho legal ter essa cor na ponta dos dedos, ou se eu escovo o meu cabelo é porque eu acho gostosa a sensação, a gente não pode se deixar vulnerável e colocar a nossa autoestima nas mãos do mercado, afinal feminilidade não é um produto.

Então fica aqui o convite para você pensar o que é feminilidade e fazer esse exercício de se analisar e entender o que te faz sentir mais feminina.

Bruna Andrade
Bruna Andrade

Uma capricorniana querendo mudar o mundo. Modelo, ativista LGBTQIA+, comunicadora. Sou uma mulher trans que utiliza da minha imagem, da minha vivência, e do meu conhecimento acadêmico pra levar informação para as pessoas.