CUIDAR DO OUTRO TAMBÉM É CUIDAR DE SI

Muito tem se falado sobre auto-cuidado. De se colocar em primeiro lugar, se colocar barreiras e respeitá-las. Skincare, meditação, óleos essenciais, se afastar de pessoas e situações tóxicas. Se colocar em primeiro lugar. Mas eu quero acreditar que autocuidado pode ir além disso e inclusive incluir outras pessoas.

A gente nunca tá sozinha. Se você assistiu Friends deve lembrar daquele episódio em que Joey levanta a reflexão para a Phoebe sobre não existirem ações genuinamente altruístas e que na verdade são egoístas porque estaríamos ajudando o outro para nos sentirmos bem. Bom, eu acho que a reflexão é importante, mas não acho que isso importa tanto quanto os atos em si. Se estivermos fazendo algo para o nosso bem que também ajuda o outro, que mal tem?

“Desculpa estourar sua bolha, Phoebe, mas ações altruístas não existem”.

Talvez você tenha lido aquela matéria que saiu em diversos veículos de comunicação sobre o patrimônio dos bilionários brasileiros terem aumentado significativamente nesses últimos meses, período de pandemia global. Não é doido pensar que, enquanto muitos tiveram seus trabalhos e planos afetados drasticamente (eu incluída!), outros estão aumentando suas fortunas?

Bom, como diriam As Meninas (quem viveu nos anos 90 sabe do que eu estou falando) “o de cima sobe e o de baixo desce”, neste período as diferenças sociais estão maiores do que nunca – quem manteve seu salário e está trabalhando de casa, tem esse período como oportunidade para economizar, já que não sai mais em festas, em bares, restaurantes. Mas, quem está na outra ponta… ou é autônomo ou teve seu trabalho afetado pela crise, sofre as consequências e 600 reais do auxílio pode ser pouco para manter seu estilo de vida anterior.

Talvez esse seja o momento da gente realmente parar para pensar e perceber o quanto nosso consumo é, de fato, um ato político. Onde colocar nosso dinheiro, mesmo que seja um único real, deve ser uma decisão feita com consciência.

Nessa onda, uma hashtag que foi levantada no instagram nos Estados Unidos foi a #blackownedbusiness, para estimular os empreendimentos conduzidos por pessoas negras e que abre a reflexão sobre como os consumidores detém poder em suas escolhas. Aqui no Brasil há movimentos parecidos como #compredequemfaz, ou #compredeumamae.

Ok, entendo que talvez comprar de uma grande empresa seja mais barato do que de um artesão. Mas, antes de pensar que algo é caro, pense que as coisas foram feitas em menor escala e que se torna impossível para o pequeno produtor concorrer com o poder de uma grande empresa que compra estoque aos montes e consegue desconto pela quantidade, ok?

Tem um vídeo do Emicida falando isso no Rodaviva que é inspirador.

Abaixo segue uma lista pequena de sugestões de coisas que podemos fazer seguindo essa ideia de ajudar o pequeno empreendedor – caso você esteja na categoria dos que mantiveram seus salários.

  • Presenteie quem você ama. Com o distanciamento social algumas pessoas podem estar se sentindo mais sozinhas que as outras. Presentes podem ser condutores de carinho, um afago no coração de quem está sozinho. E assim também ajuda os pequenos negócios como bares e restaurantes que estão com sua existência por um fio. Não gosto de me usar como exemplo, mas recebi um feedback tão lindo de uma atitude minha que vou compartilhar. Bom… eu já escrevi em outros posts que eu moro na Suécia. E aqui tudo segue uma certa normalidade. Embora eu tenha perdido minha fonte de renda aqui, nesse último mês consegui fechar um trabalho. Um amigo meu que é bartender está vendendo drinks engarrafados e faz entregas de bike. Então num sábado pedi para entregar drinks e comidinha de surpresa na casa de cada um de um grupo de amigos meus. Recebi os feedbacks mais lindos e que me fizeram mais bem que muita máscara de argila. Recomendo.
  • Apoie os artistas. Talvez, mais do que nunca, a gente perceba o quanto a arte é importante, já que em casa não há muito o que se fazer. Artistas de música, audiovisual ou de arte impressa mesmo. o que estaríamos fazendo isolados sem filmes, músicas e arte em geral? Apoie o financiamento coletivo do artista, encomende uma tela, um bordado – já que estamos sempre em casa, também é uma forma de tornar nosso cantinho mais especial.

Caso você esteja na outra categoria, dos que tiveram seu salário afetado, há outras formas de contribuir sem precisar gastar dinheiro:

  • É de graça e contribui para a autoconfiança dos que estão produzindo e que neste momento muito provavelmente estão inseguros: Compartilhe nas suas redes. Se você não está podendo gastar, talvez alguém próximo a você está.

E a última, que não necessariamente envolve consumo, mas: cheque como estão seus amigos com frequência. Eu sei que às vezes quem está mal é a gente e a gente gostaria que eles checassem como nós estamos, mas eu acredito que se interessar de verdade no estado das pessoas que amamos tira o foco da nossa angústia e pode ser benéfico para a nossa saúde mental também. “Trocar o disco”, sabe?!

Nesses tempos que estamos vivendo é difícil falar de outra coisa, a não ser essa pandemia que pegou todo mundo de surpresa. A vida segue e o ciclo segue girando, e nosso rico dinheirinho pode super contribuir para a vida de quem foi afetado. Cuidar do outro também é cuidar de si.

Milena Faé
Milena Faé

Gaúcha de 31 anos anos, concept designer focada em moda ética e desenvolvimento sustentável. Residente da cidade de Gotemburgo, na costa oeste da Suécia.