COMO NOSSO (DES)EQUILÍBRIO EMOCIONAL AFETA AS CRIANÇAS?

Procurar sentidos, refletir e paralisar, são (re)ações fidedignas sobre a atual conjuntura. Buscamos equilíbrio como se o natural fosse permanecer nessa “posição estável do corpo, sem oscilações ou desvios”, falamos da ansiedade pela volta à normalidade, como se tudo estivesse em equilíbrio e aquele padrão “normal” ultrapassado fosse o ideal.

Entretanto na vida real há similaridades e sentido no desequilíbrio, que descreve tamanha “desarmonia, disparidade, desigualdade, instabilidade, ausência ou perda do equilíbrio”.

Insistem que estamos todos no mesmo barco, mas o desequilíbrio faz crer que estamos em barcos diferentes, muitos à deriva, não chegam nem perto da margem. Dizem também para não deixar o desespero tomar conta do equilíbrio emocional, porque essa tempestade vai passar. Seria real se desde os primórdios da infância todos tivessem acesso a um suporte para reconhecer as consequências dos desastres da vida.

O que pende mesmo é a falta de parâmetro da balança que mede se estou ou não em (des)equilíbrio. Aquela cansativa busca entre superar, elaborar e aprender a lidar com tantas memórias, marcas e dores da vida. Imaginem a mudança estrutural que atingiríamos se aprendêssemos desde cedo que a maior crise é a emocional? Mas os seres humanos permanecem criando seres desumanizados.

Insistimos no “auto boicote” que traz o julgamento de si, com a constante sensação de estar fugindo, momentos que mesmo consciente do estado de impotência e desesperança, o coração acelera, a respiração fica ofegante e bate um profundo desespero.

Ainda somos ensinados a carregar o mundo e as nossas “crias” nas costas, mesmo sabendo que não nos cabe. No caminho aprendemos sobre a coragem de viver e somente a sabedoria do tempo ensina a ser resistência no meio da multidão, mas quantos desistem no meio caminho?

Já que ninguém nasce sabendo, precisamos mesmo viver para aprender? Ao invés de criar escudos para minimizar a dor e fingir que não há sofrimento, poderíamos reforçar o quanto crianças tem consciência das desigualdades, preconceito, racismo, sexismo e machismo.

Grito em alto e bom som sobre a importância de ouvir e de dar voz às crianças, elas precisam de ajuda para compreender o que está acontecendo, já que fomos crianças e também pedimos ajuda. O mais provável é que não tenham te dado a mão, ainda dizemos “isso não é assunto de criança”, ou o famoso “também apanhei e não morri”.

Justificativas fajutas que adultos aprendem para responsabilizar qualquer um e não assumir que não sabem o que dizer ou fazer.  Se você não entende como essas pequenas criaturas se comunicam, pergunte o que querem dizer. Se você não entende como se expressam, pergunte como elas se sentem.

Não veremos sentido no futuro se permanecermos projetando nossas frustrações e traumas nos outros. Muito menos se continuarmos deixando a infeliz herança da agressividade que reproduz a masculinidade violenta e tóxica para as próximas gerações.

Todos saem perdendo, homens por não expressarem suas emoções, mulheres por acreditarem que são o “sexo frágil”. Continuamos reforçando essa dualidade, como se existissem apenas essas opções de gênero, julgando as escolhas de quem consegue bancar o desejo sobre quem querem se relacionar.

A história da humanidade é marcada por períodos de crises humanitárias, ambientais, financeiras e pessoais. Infelizmente não existe manual de soluções para resolver tudo o que estamos vivendo.

O que está ao nosso alcance é acreditar que já passamos por muita coisa e se não passamos antes, estamos passando agora. E tudo bem. O mais bonito de ser humano é essa capacidade de nos adaptarmos as situações: somos seres resilientes por natureza.

As desigualdades sociais estão evidenciadas e pasmem: nem todos tiveram condições de crescer num ambiente com rotina organizada que incluíam brincadeiras, alimentação saudável e espaços de aprendizagem. Mas e o afeto, amor, carinho, compaixão, ternura e emoções que trazem conforto, você lembra de ter recebido?

Basta você parar, fechar os olhos e refletir sobre sua história até aqui, reencontre sua criança interior e os mecanismos aprendidos para reconhecer suas emoções em momentos difíceis. Você lembra de suas referências e as emoções que flutuavam no seu ambiente de crescimento?

Quando falamos de emoções é impossível definir qual balança pesa mais, pois independente do seu gênero, raça, etnia ou classe social, você sente. O cenário ideal seria ter no presente uma infância que não precisa ser curada no futuro. Mas não há como medir emoção, e sim identificar qual está controlando seus sentidos.

Quando crianças sonhamos em ser adultos, para ter autonomia e liberdade de escolha, mas quando chegamos aqui, acabamos fazendo o que mais julgamos quando pequenos: reprimimos nossos desejos, tanto quanto os outros nos oprimiram.

Um caminho necessário para transformação será ouvir sua criança interior, que insiste em reconhecer e trazer à tona os pontos de desequilíbrio, para aprendermos com eles e ver a esperança da vida para sobreviver.

Felizmente apenas vivendo as crianças permanecem ensinando de forma simples e natural que fundamental mesmo continua sendo o amor, e os adultos usando de sua esperteza podem aprender a reconhece-lo em si mesmos.

Danielli Silva
Danielli Silva

Psicologa, idealizadora do Sobre(Viver) Mulher- trabalho para a prevenção de violências, com perspectiva de gênero e recortes de raça, etnia e classe social. Presidente voluntaria do Centro de Prevenção e Intervenção nas Psicoses.